MrManson
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23/12/04

Marketing, Drogas e Rock and Roll

Sorria, você acabou de participar de uma pegadinha publicitária!

Uma conversa de ICQ, como milhares de outras:

Júlio : Saca só essa animação: http://hkkk.fi/~laari/lodger/ilove.html
André : Maneiro!
Júlio : Tem outras também, nesse site aqui: www.lodger.tv
André : Pô, essa parada é de uma banda mesmo, essa tal de Lodger. Dá uma olhada melhor nesse site que você vai ver, tem umas músicas e outras paradas lá.
Júlio : Demorô, o som é irado. Bem que tinha percebido isso nas animações. Vou catar o CD todo no Kazaa.

E depois disso a natureza da web começa a agir. André e Júlio compartilham a novidade com as suas dezenas de contatos na lista de ICQ. Apaixonados com a música, o humor e o estilo simpático do bonequinho palito que protagoniza as animações / clipes da banda, esta verdadeira horda de amigos começa a repassar para os “amigos dos amigos”, publicar em seus blogs, listas de discussão, fórums e em poucos dias a até então desconhecida Lodger, que vivia enfurnada em uma garagem da longínqua Finlândia e resolveu se conectar ao mundo com um website bem bolado, vira o novo “hype” e começa a reunir seu pequeno exército de fãs.

Até aí nada de novo. Assim foi com o jogo de isolar o pingüim, o Tourist Guy, a musiquinha do mamute e centenas de outras coisas que divertem as centenas de milhares de almas perdidas conectadas na web em busca de algo inusitado que as façam escapar da chatice do escritório, ou de alguma novidade para que eles possam posar de “antenados” diante de seus amigos e contatos de ICQ. O boca-a-boca na web funciona, o pessoal do Google e seu novo brinquedo, o Orkut, que o diga.

Mas a mesmice dos hypes de internet que se repetem a cada semana, no caso do Lodger, terminam aqui. Júlio, André e todos os seus amigos e amigos dos amigos que acabaram se transformando em fãs da promissora banda finlandesa foram enganados. Não existem nomes reais, fotos ou notícias de shows. A única informação que o descolado site dá é um endereço (de caixa postal) para que sejam encomendados Cd´s da banda. O Lodger é tão verdadeiro quanto o seu famoso conterrâneo: o Papai Noel.

Ou melhor, o Lodger é tão fabricado por marketeiros quanto o bom velhinho que teve sua imagem alterada para vestir o vermelho da Coca-Cola. E a autora deste plano “maquiavélico” não é nenhuma gravadora, dessas que já cansaram de juntar 5 rostinhos bonitos, um playback e uma coreografia descolada, montando uma “Boy Band” para faturar milhões. A dona do “Projeto Lodger” é, pasmem, uma grande empresa de cigarros.

Os gigantes do tabaco contrataram os melhores músicos, compositores e arranjadores disponíveis no mercado, dentre eles Chad Kreoger, vocalista da banda Nickelback, que emprestou sua voz ao Lodger. A One Eyed Films, um dos maiores e mais premiados estúdios de animação da Europa, foi designada para desenvolver o website e os clipes. Tudo com a supervisão dos marketeiros da HI Res!, a agência britânica que já faturou vários Cyber Lions em Cannes. Enfim, tudo do bom e do melhor. Dinheiro não é problema para empresas que não podem mais aplicar sua gorda verba publicitária em anúncios de TV, jornais, revistas, outdoors e até mesmo na web. A única saída foi descolar um subterfúgio nas artes, onde a expressão é livre e os Ministérios da Saúde nunca advertem.

A diretriz encomendada pelos “mecenas” era simples: manter viva nas mentes adolescentes que o ato de fumar é “cool”. E, no caso do Lodger, isso foi feito no mais alto nível. A promoção do hábito de fumar é sutil , quase subliminar. O bonequinho palito, protagonista das animações, acende e se delicia com um cigarro inúmeras vezes, mas o ato está tão bem encaixado no roteiro que ninguém percebe. As letras, em vários versos, citam os cigarros, mas mais uma vez ninguém percebe. Elas são bem escritas, como todo bom Rock são discursos expressando a apatia e as frustrações dessa geração de “almas perdidas conectadas na web”. Nesse contexto tudo fica perfeito. No final da história fumar realmente vira um ato normal, e até legal, bem distante das imagens de pulmões pretos que ilustram os maços.

Trechos de algumas letras do Lodger:

Big Day

It's watery coffee
At two o'clock
Crawl from the hotel
An abandoned dog
Nickel slots
And a coke
Lucky strikes
Are my holy smokes

 

 

Doorsteps

Smooking cigaretss at your doorsteps
looking like i dont care
trying to act younger but im four years older.
red stripes hanging over your head

Im no good for you
and you know it too
yeah

 

Não é ilegal, mas é ético?

O a mistura de propaganda com entretenimento para promover produtos ou costumes vem se tornando cada vez mais comum, mas não é de hoje que os grandes estúdios de Hollywood recebem propostas de grandes empresas para que o galã use determinado modelo de automóvel ou para que a mocinha se vista com a marca de ligerie X naquela cena mais picante. “Merchandising”, “advertainement”, “marketing invisível” e até o famoso “jabá”, não faltam rótulos para a arte de fugir dos moldes da propaganda tradicional, cada vez menos interessante e mais regulada. Jim Monroe, antigo editor do site e revista “Adbusters” ( www.adbusters.org ) e apresentador do programa “No Media Kings”, que também aborda a ética na propaganda, nos dá algumas respostas sobre essa nova tendência.

- Não existe um ato regulatório que obriga que qualquer forma de propaganda seja devidamente assinalada, alertando a pessoa que a mensagem que ela vai receber é de conteúdo comercial?

Sim, mas existem brechas legais. Nada impede que um fabricante de automóveis decida abrir uma empresa completamente independente da matriz ou contrate terceiros para editarem revistas ou produzirem programas de TV com uma temática claramente enviesada para estimular o consumo de seus produtos, pois a mesma se enquadraria tecnicamente nas leis de imprensa. Se a FOX News pode ter diretores e apresentadores que se identifiquem mais com a ideologia republicana, uma revista sobre automóveis pode ser editadas por pessoas que declarem abertamente que determinada marca é a melhor do mundo. As páginas de anúncio nessa publicação devem seguir um padrão normal regulamentado, mas julgar o viés do conteúdo das reportagens é completamente subjetivo, a opinião não obedece leis.

- Mas os jornalistas responsáveis por estas publicações não prestaram um juramento de serem imparciais no que escrevem?

(risos) Muita gente também jura ser fiel no casamento... O dinheiro sempre fala mais alto. O fato é que as associações de jornalistas, que se auto-regulamentam, nunca vão perseguir este tipo de conduta, pois a mesma está garantindo a sua sobrevivência.

- E estes casos de empresas buscando, secretamente, uma brecha ainda maior para divulgar hábitos de consumo através da expressão artística, te surpreende?

A única coisa surpreendente nisso é o volume de dinheiro que está sendo empregado nestes novos planos de marketing. Usar a arte para influenciar a cultura, que por sua vez influencia os padrões consumo, é tão antigo quanto o capitalismo. Olhe para as listas de músicas mais tocadas, de filmes mais vistos e de livros mais vendidos. Vai ser difícil encontrar algo que possa ser rotulado como “arte pura”. O caso do “Lodger” é apenas a mais nova onda nesse sentido, misturando uma estratégia cultural com as características virais da web, nos chocando ainda mais por usar estes artifícios para promover um produto que foi banido dos meios de comunicação tradicionais.

MrManson
mrmanson@cocadaboa.com

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