Acho que as minorias têm um sonho errado. Normalmente, os integrantes de minorias religiosas, raciais, culturais ou de qualquer outra natureza sonham em se juntar, fazer número, mostrar sua força e conquistar seu espaço. Mas não sei ao certo se isso é realmente uma boa, pois com isso podem perder certos privilégios que caem bem à beça para qualquer um: a simpatia, a compaixão ou a tolerância da maioria. Foi o que descobri recentemente em minhas férias na aprazível Ilha Grande, perto de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
Logo na minha primeira noite na pousada, alguns turistas resolveram, por volta das duas horas da madrugada, conversar em voz altíssima bem debaixo da minha janela, que ficava no segundo andar do prédio. Eu e a patroa acordamos já reclamando e vimos que teríamos que tomar uma providência se quiséssemos dormir. Numa rápida eleição, foi decidido _ por um voto a favor e um nulo (resolvi me abster, pois não gosto de contrariar minha mulher no meio da madrugada) _ que eu teria que falar com os gringos para calarem a boca. OK, mas em que língua? Não conseguia identificar a nacionalidade daqueles malditos estrangeiros, que tinham por volta de 20 anos. Descartei o espanhol, que estava sendo útil pra conversar com uma porrada de argentinos que estavam na ilha. Também nem pensei em usar o francês, pois frases como “Tu ai perdu ta maman? Comment tu t’appele? Sabine?”, que decorei há anos num rápido curso, não ajudariam em nada. Então parti logo pro inglês com sotaque do Méier e pedi para os caras calarem a boca. Deu certo. Mas na noite seguinte aconteceu a mesma coisa. Pior: durante o dia, os turistas falavam tão alto quanto a galera que mora nos morros do Rio, deixavam a TV no último volume, batiam a porta do quarto com toda a força, cantavam berrando, etc. Nem pareciam vir do Primeiro Mundo. E eu não conseguia descobrir que raio de língua era aquela. Estava achando que eram da Lituânia ou de qualquer um desses outros países que não existiam quando eu fui apresentado a um mapa-mundi.
Depois de uns três dias, o dono de uma pousada com quem conversei comentou que não gostava de estrangeiros, acrescentando que chegava a recusar clientes se fossem israelenses. “Desses, quero distância”, disse o sujeito, que na mesma hora deixei de considerar gente fina. Pensei, “esse verme racista não gosta de judeus”. Sei que judeu não é raça, mas racismo é a primeira coisa que me vem à cabeça nessas horas. Nem perguntei por que ele não queria hospedar israelenses. Não queria papo com um cara que tivesse esse tipo de preconceito, pois embora eu não seja judeu, tenho a maior simpatia por esse povo. Como se já não bastasse a comoção pelo perrengue que esses caras passaram como escravos dos egípcios na época de Moisés e como prisioneiros em câmeras de concentração na mão dos nazistas na Segunda Guerra, me chama a atenção o grande número de ótimos comediantes e humoristas judeus que existe atualmente. Sem contar que muita gente me chama de judeu quando vê meus métodos para economizar dinheiro. Também há quem diga que tenha fisionomia judia. Foi fácil eu acabar achando legal ser judeu e ter alguns deles na minha lista de amigos mais maneiros.
Comecei a ficar mais incomodado em Ilha Grande quando ouvi outro comerciante de lá praguejar contra israelenses. Mas nada disso me preparou para o choque que tive quando, na véspera do dia da minha viagem de volta, ouvi um funcionário da minha pousada tentando um diálogo com uma das meninas barulhentas que tanto enchiam meu saco a ponto de eu temer algum dano à minha fertilidade. A esporrenta criatura falava um pouco de espanhol e a certa altura comentou algo sobre sua terra natal... Israel. O quê? Quer dizer que eu passei os últimos dias amaldiçoando um país que no fim das contas era o lar de um povo que eu estimo? Procurei saber mais sobre isso. Conversei com o dono da pousada, que chegou no dia em que eu estava indo embora. E não é que o cara também me falou que costumava vetar israelenses no local? Disse que cobrava o dobro quando sabia que eram israelenses e que só assim eles ficavam lá: pagando mais que todo mundo. E disse que já tinha duas israelenses interessadas no quarto que eu estava deixando, mas que ele ia inventar uma desculpa para não aceitá-las. Mas por que isso tudo? Não tinha nada a ver com preconceito contra judeus, como ele fez logo questão de ressaltar. O problema é que todos na ilha sabiam que os israelenses eram barulhentos e criavam confusão nas ruas e brigas em bares. Não sabiam ficar sem fazer barulho, sempre batendo portas e baixando a tábua do vaso com toda a força, chegando a quebrar os sanitários de várias pousadas. Também complicavam as coisas na hora de pagar as contas, querendo pagar menos do que o combinado nas diárias de hotel ou aluguel de barcos. Enfim, hóspedes indesejados. Ele chegou a especular que talvez fosse por causa das guerras no Oriente Médio, mas confessou não saber o motivo pra esse comportamento.
Foi ali que eu vi que talvez o problema era que, em Israel, a minoria não era mais minoria. Já que eram organizados, armados e com fortes aliados, aquela população trocou a condição de oprimidos pela de opressores, fazendo o diabo com povos como o da Palestina, a atual minoria a ser afagada, podendo até ganhar aprovação das pessoas quando fazem besteira como gerar homens-bomba, mulheres-bomba e logo, logo, os bebês-bomba, o novo significado para o baby-boom. Ninguém ali em Ilha Grande falava mal de judeus. Mas não porque pega mal criticar minorias. Eles estavam putos é com israelenses, que já não são um país de vítimas. É aí que mora o perigo para a minoria: deixar de ser tratada com as regalias da minoria. A melhor coisa que há, num mundo cada vez mais preocupado em parecer politicamente correto, é ser minoria. Poder fazer merda e ainda passarem a mão na sua cabeça. Enquanto os negros, por exemplo, forem minoria, ninguém vai ligar se criarem um grupo de música baiano onde só entram pessoas de sua cor. É claro que a maioria racial não pode (e nem deve) fazer isso. E ninguém é maluco de confeccionar uma camisa escrita “100% branco”, para ser vendida ao lado da bem-vendida “100% negro”. Passeata de heterossexuais celebrando suas preferências, com homens e mulheres em momentos de semi-intimidade marchando pelas ruas? Você está maluco? Pega mal. Ser minoria é bom paca. Experimente. Seja minoria você também e procure a ONG mais perto de sua casa.
Odisseu Kapyn é minoria religiosa e também sexual, pois não gosta de sexo anal. odisseu@cocadaboa.com
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