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Capítulo 9: Vida de merda

Um por todos e cada um por si,
esta é a Lei da Transpiauí


Depois da primeira cratera, não consegui mais relaxar. Os buracos eram tantos que a qualquer momento o motorista poderia abrir a porta nos mandando descer do ônibus novamente. Sem muito o que fazer, fiquei acompanhando o nosso avanço no mapa. Não era uma diversão muito saudável, pois a cada olhada concluía que tínhamos avançado muito menos do que eu esperava.
De tanto olhar para o mapa da região, descobri algo curioso. Cerca de 80% das cidades do Piauí possuem o nome do estado como complemento. Cristalândia do Piauí, Barreiras do Piauí, Monte Alegre do Piauí, Palmeira do Piauí, São Lourenço do Piauí, São João do Piauí, Flores do Piaui, Rio Grande do Piauí, Fartura do Piauí (puta ironia!). Caralho, quase tudo é “do Piauí”! Acho que a existência do Piauí é uma coisa tão difícil de ser assimilada pelas pessoas que é necessário afirmar isso no nome de quase todas as cidades. Se isso não fosse feito, elas acabariam se perdendo no espaço e logo não saberiam mais em que estado estão.
Passei a perceber uma movimentação acima do normal no banheiro. De cinco em cinco minutos, vinha alguém usar o “escritório”. Em alguns momentos chegou a rolar uma fila na porta. Aos poucos fui juntando as peças do quebra-cabeça e concluí que a refeição que o pessoal havia feito naquela parada imunda começava a fazer efeito. Não seria exagero se afirmasse que em um intervalo de meia hora pelo menos dez pessoas passaram por ali para “soltar um barro”.
Não sei se vocês são muito familiarizados com o funcionamento de um banheiro de ônibus. Resumindo: tudo que é despejado na privada é depositado numa espécie de reservatório bem abaixo do banheiro. Esse reservatório vai enchendo até a limpeza ser feita em algum posto, quando todo o conteúdo é despejado num bueiro . Ou seja, as fezes ficam ali ao nosso lado, sacudindo durante toda a viagem, formando um milk-shake fecal até que o motorista (que está lá na frente, bem longe dos odores tóxicos) decida parar em algum lugar para esvaziar aquela merda (nos sentidos literal e figurado).
Lembro a todos que, apesar de eu ter embarcado em Barreiras, aquele ônibus vinha de Brasília. Ou seja, o reservatório já estava com quase dezesseis horas de fezes acumuladas. A “hora de pico” patrocinada pelo restaurante imundo foi a gota d’água para aquilo tudo transbordar.
Como se não bastassem os buracos, a fome, a falta de sono, o barulho, o enjôo, o tédio e o medo de ficar parado na estrada por causa de outra cratera, dessa vez teria que conviver com um verdadeiro pot-pouri intestinal de dezenas de piauienses. Naquele momento, a sensação de estar no Piauí ficou completa e virou quase uma experiên-cia extra-sensensorial. Meus olhos, meus ouvidos, minha pele, minha boca e meu nariz me indicavam que eu estava no cu-do-mundo. Pelo menos a tragédia biológica teve seu lado bom: o cheiro de cocô me fez perder o apetite.
Mesmo com o reservatório visivelmente transbordando, mesmo com algumas poças da “mistura fecal” se formando no chão do banheiro por causa dos solavancos da estrada, as pessoas continuavam entrando lá. Impressionante! Não consegui entender como a capacidade de alguém controlar as necessidades biológicas pode ser menor do que o amor-próprio. Quando alguém abria aquela porta, o ar ficava irrespirável. Tínhamos que tapar o nariz por pelo menos um minuto, até o grosso do mau cheiro passar.
Quem já viajou de ônibus sabe que a porta desses banheiros é bem difícil de abrir, exigindo uma perfeita combinação de força bruta com jeito. Estavam todos se virando bem até o “galego”, com muita força bruta e pouco jeito, se meter a abrir a porta. O imbecil puxou com tanta força que a maçaneta arrebentou. Pronto! Ninguém conseguiria mais abrir a porta! Sem querer, o “galego” fez uma das melhores coisas da vida dele.
Para consertar a maçaneta não tinha mistério: era preciso apenas de uma chave de fenda. E eu tinha uma, no canivete suíço! É óbvio que fiquei na minha. Por mim aquela porta ficaria fechada e que se fodesse todo mundo. Uma atitude um tanto egoísta, até mesmo desumana, mas não ouse me julgar. Você faria o mesmo se estivesse cheirando durante horas a fio a merda do povão.
Foi praticamente mais um milagre da minha divindade protetora! A “mão invisível” provavelmente afrouxou aquele parafuso. Nenhum cagão conseguiu abrir a porta até a parada na rodoviária de Corrente, quando a maçaneta foi reparada, o reservatório esvaziado e o banhei-ro limpo e desinfetado. Que eu saiba, ninguém mijou ou cagou nas calças nessas poucas horas em que o sanitário ficou interditado. Isso prova que banheiro em ônibus é uma invenção inútil e escrota. Acho que o pessoal estava mesmo era usando aquela porra “por lazer”, como se fosse um brinquedo ultramoderno da Disneilândia. Ô povinho bunda! Parece que nunca cagou andando na vida!

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Comentários (19)

Putz MrManson, você relatando a parte q o compartimento de merda fica cheio foi foda! Eu fui para o maranhao de onibus tambem (saindo de brasilia), pqp, foi desse jeito!! Depois de ler to revivendo os momentos de terror haha!

Bjunda,
Carlos

Dani:

Gostaria de saber quais os motivos não te levaram a fazer desta vez, assim como Paulo Coelho, a cravar as unhas no seu dedo... Precisava cravar e com muita força! Haja estômago...

marcel:

putz, o cara que limpa esse reservatório de merda aí merece o céu...

Felix:

E a velha breaca? não bebeu mais durante a viagem?

Beto:

Cara, pior que é verdade. Tem gente que parece que gosta de usar banheiro de ônibus... Já vi pessoas que pareciam "se segurar" na rodoviária só pra ir no banheiro do busão...

hahehaeh, eu já tinha visto você falar desse livro mil vezes mas nunca tinha tido vontade de ler, mesmo depois que liberou a versão online.
Após ler, meio que aleatóriamente, este capítulo me convenci: muito bom. Vou ter que ler essa bagaça huaheuauhe

Paiui:

Vc escreveu esse livro falando mau do Piauí porque sua mãe fez sexo com 3 paiuienses e vc não sabe qual deles é seu pai.
E como vc não achou nenhum dos 3 para pedir dinheiro ou qualquer outra coisa, resolveu escrever um livro para não passar por otario!!!!!
Rpz tu é um tremendo filho da puta!!!!

Camila:

Não tem o que fazer não ....
Seu merda,vai caçar o que fazer porra...

Camila:

Não tem o que fazer não ....
Seu merda,vai caçar o que fazer porra...

Chico, piauiense e índio....e daí ????:

Cara parabéns pela descrição da ônibus com as pessoas e nessa situação...rsrss... está realmente fidedigna. Já fiz esse mesmo trajeto umas 5 vezes tanto na ida como na volta e a partir de São Paulo. Enquanto aos Piuienses pseudosdefensores do Piauí, que façam a mesma viajem para poderem ter expêriencia própria e sairem da situação de aspone que ostentam.

Layla:

Eu nunca tive curiosidade de ler o que você escreve,por ser piauiense(com mt orgulho).Mas de repente, estava no meu trabalho e vi o que o Jornal MN colocou, resolvi ler..e bem,aqui estou, dando gargalhadas, apesar de alguns exageros da sua parte. E isso que você coloca das estradas é um "tapa na cara" (meio que despercebido pro nosso governo que desvia milhões e nada é feito pelo povo - que continua ignorante e alhei a tudo que acontece. E é verdade também,que são poucas as opções de lazer em Teresina, ou você sai pra restaurante ou pra motel. Mas isso é comum em qualquer cidade que não tem praia, o movimento na night é pouco.
Agora, não esqueça que as grandes civilizações surgiram à beira rio,então meu bem, cuide logo pra fazer sua mudança pro Piauí.
O Piauí é tão bom é tão bom, que você escreveu um livro falando dele. Sua alma é piauiense...e com certeza deve ter raízes.
A tua ansiedade pra conhecer era tão grande, que você devia ter vindo de avião(se não atrasar, vc pode chegar a ponto de passar o ano novo em um dos melhores hotéis da cidade,hahaha, à beira rio...imaginando a nova civilização).

Layla:

ops...alheio
e..surgirão

FernandoBR:

Takeosparalho! Muito bom até agora!

armando:

Terra abandonada, longe de deus e do diabo. Políticos canalhas, como o tal do senador Mão Santa exploram essa situação...

hahehaeh,
lembra que passei por aqui a alguns dias.
Agora lí o livro do começo e gargalhei novamente ao ler este capítulo hauehaue.
ps.: meu pai é piauiense e viajo sempre pra lá. É assim mesmo cambada de pseudo-defensores de merda.
Qual o problema em assumir nossos problemas? Goiás é uma merda em muitos aspectos também (sou de goiás) assim como SP e RJ também tem seus problemas.
Cambada de trouxas.

Jackson:

simplesmente chorei de tanto rir com esse capitulo.

pena que tenho q voltar ao trabalho.

Ana:

simplesmente chorei de tanto rir com esse capitulo.

pena que tenho q voltar ao trabalho. O Tráfico depende de vc, é isso aí vá trabalhar, e não se apegue a bobagens, elas não vão te servir de nada! O que mais me divirto é com os comentários de "intelectuais".
Intelectual do RJ:
2º grau completo, sabe ler escrever e atirar.
Fuma maconha no final de semana. E escreve livros também.


Só? Teresina tem a melhor ESCOLA DO BRASIL!
A MELHOR ESCOLA DO BRASIL!A MELHOR ESCOLA DO BRASIL!
80% dos cariocas não teriam condições de pagarem a mensalidade dessa escola!
Eu disse 80%. Continuem falando mal do PI, enquanto alguns aqui pagam o que muitos não tem no final do mês, só com mensalidade escolar a seus filhos!
Continuem pobres fudidos e burros cariocas!

Poligono:

Maconha esta que é plantada no piaui e é responsavel pela pouca comida que tem no seu prato, piauiense de merda

Amanda:

O episódio dobanheiro aconteceu comigo também... E eu nem estava indo para um lugar tão longe...Fui de São Paulo para Angra dos Reis. O ar do ônibus estava irrespirável, tamanho o fedor. O motorista parou e esvaziou o reservatório, mas acho q usou tanto cloro para lava-lo(ou seja lá o que for) que os olhos ardiam e tivemos que parar novamente para uma nova lavagem do reservatório (dessa vez só com água). Foi um pesadelo!!!

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