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Capítulo 8: O primeiro sinal

Aparecem indícios de que alguma força inexplicável
me acompanhava naquela peregrinação


O tempo da parada terminou e aos poucos os passageiros entraram no ônibus para retomar a vida naquilo que já havia se transformado em uma verdadeira extensão de suas casas. O grupo da algazarra não conseguia mais conter a curiosidade e se posicionou estrategicamente mais para o fundo, na esperança de descobrir alguma pista sobre o que eu, um forasteiro vindo do mundo desenvolvido, estava planejando.
O “galego”, líder do bando, foi curto e grosso:
– Tá viajando, é?
– Mais ou menos. Diria que é uma viagem a trabalho. – coloquei o “a trabalho” na jogada para complicar um pouco. Acho que ninguém acreditaria se dissesse que estava no Piauí puramente por lazer.
– Você é biólogo?
– Não.
– Você é geólogo?
– Não.
– Então o que veio fazer no Piauí?
Depois das incisivas perguntas, me transformei no novo centro das atenções. Algumas barangas já me olhavam com certa malícia, inclusive Mirian Honey. Na esperança de me livrar dos chatos e jaburus de uma só tacada, cocei a cabeça, fiz cara de sério e respondi:
– Sou um mago recém-ordenado. Antes de iniciar minhas atividades, resolvi fazer uma peregrinação através do Piauí. Procurar a minha espada, viver experiências novas, buscar respostas, crescer espiritualmente...
– Mago? Que diabo é isso?
– Eu disse mago? Desculpe, me expressei mal. Sou padre. Ou melhor, sou um padre recém-ordenado, me formei no mês passado. Antes de assumir uma paróquia, tenho que realizar um trabalho no Piauí.
Se dissesse que tinha lepra , não teria sido tão eficiente. Todos deram um passo para trás e diminuíram o tom de voz. Não estava acreditando que eles engoliram a lorota sem qualquer questionamento.
Em pouco tempo, eles já estavam de volta ao meio do ônibus e faziam de tudo para ignorar os meus eclesiásticos olhares de censura. Esbocei um sorriso cínico, fiz o sinal da cruz, dei um barulhento arroto para me aliviar da coca. Abri a mochila e peguei o walkman que, pode parecer sacanagem, tinha uma fita do Faith No More. Curiosamente, o ritmo do metal pesado combinava perfeitamente com os solavancos daquela estrada esburacada.
De repente, o ônibus parou. Tentei olhar pela janela, mas não vi nada de errado. O motorista abre a porta da cabine e anuncia:
– Desce todo mundo! Tem um buracão no meio da estrada e vai ser impossível passar com o carro pesado!
Lentamente, os refugiados levantaram acampamento. Acho que eu era o único surpreso. Para mim tratava-se de uma experiência inédita, mas os outros desciam do ônibus como se aquilo fosse parte da rotina. Quando vi o tamanho do buraco, tive medo da coisa complicar ainda mais. Não precisava ser nenhum gênio para concluir que seria impossível o ônibus passar por ali. Mesmo assim, o motorista fez a primeira tentativa.
Depois de concluir o óbvio, ele deu ré e desceu do ônibus. Examinou a área, coçou a cabeça e pediu ajuda de alguns homens para fazer uma gambiarra com pedras e tocos jogados no meio da estrada. Não me ofereci para ajudar, pois estava ocupado demais contemplando a minha desgraça. Mal tinha entrado no Piauí e ainda restavam pelo menos 300 quilômetros de estrada em péssimas condições. Estava apreensivo, imaginando quantas vezes ainda teria que viver aquela situação até chegar em Canto do Buriti.
Tocos e pedras no lugar. Estávamos prontos para a segunda tentativa. Pensamento positivo, figas, rezas, gritinhos histéricos de Mirian Honey... Nada! A gambiarra ficou tão mal feita que um dos troncos se embolou com o eixo dianteiro e quase complicou ainda mais a situação. Mais uma ré. Novamente a mão coçava a cabeça. Mais tocos, mais pedras, mais suor. A galera que estava trabalhando já tinha tirado a camisa. Me senti meio mal por não ajudar, mas resolvi encarar tudo como um documentarista do Discovery Channel. Por exemplo: quando esses caras filmam a vida dos leões, fazem de tudo para não interferir no comportamento selvagem. Mesmo que um animal esteja à beira da morte, precisando de uma simples ajuda para não padecer, eles se mantêm frios e calculistas, não interferindo no curso natural das coisas. Me concentrei, então, em cumprir o meu papel: memorizar cada detalhe que estava acontecendo e tirar várias fotos daquela experiência inédita em minha vida.
Terceira, quarta, quinta ré e coçada na cabeça. As tentativas foram se frustando e eu já estava vislumbrando a hipótese de ser vencido pela Transpiauí logo nos primeiros quilômetros. Em pouco tempo a deserta estrada se transformou num grande ponto de encontro de vários ônibus que viajavam no sentido contrário. Os passageiros, intrigados com o motivo da parada, esticavam as cabeças para fora das janelas, tentando ver o que estava acontecendo. Contemplei aquela cena surreal: estava diante de um engarrafamento no meio do nada. Resmunguei em voz alta:
– SÓ NO PIAUÍ MESMO...
Coloquei a máquina fotográfica no bolso e fui até o canteiro de obras improvisado. Os motoristas dos ônibus que estavam parados no engarrafamento não se cansavam de dar pitacos: “Dessa vez coloca o tronco atravessado”, “Mais algumas pedras aqui”... Era muito cacique para pouco índio, no sentido literal.
Olhei para o céu em busca de um sinal. Quando aterrizei novamente, vi que todos estavam olhando para mim. Um dos motoristas palpiteiros me faz uma surpreendente pergunta:
– Você é geólogo?
Porra!!! Que tipo de fetiche escroto existe entre os piauienses e os geólogos?!?! Um dos amigos do “galego”, que estava trabalhando nas escavações, tomou a palavra:
– Geólogo nada! Ele é padre!
Porra de novo!!! Não dava para acreditar naquilo!!! Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar, tentando inutilmente segurar as gargalhadas. No meio da crise de risos apontei para o meio do mato e disse:
– Dá uma olhada naquele tronco ali. Será que aquilo não resolveria o problema?
Era uma tora gigantesca partida ao meio, suficiente para cobrir todo o buraco com margem de sobra. Todos olharam espantados e, mesmo sem entender direito porque eu estava rindo tanto, se mobilizaram para colocar a tora na pista. Dessa vez tinha que funcionar. O motorista entrou no ônibus e todos fizeram uma corrente positiva. Até eu, que era o padre, abençoei essa tentativa. O ônibus foi avançando devagarinho, o tronco estalava como se fosse rachar a qualquer momento. Devagar... devagar.... e... e... antes mesmo de eu respirar aliviado, já dava para escutar os gritinhos de Mirian Honey comemorando. Graças ao meu bom Deus poderíamos seguir viagem!
Eu, um quase ateu, me surpreendi dando graças aos céus. Mas logo fiquei me indagando que Deus era esse que estava me agraciando. De quem era aquela “mão invisível” que nos empurrou no atoleiro e segurou com firmeza aquele tronco? Só poderia ser alguém com muito bom humor, determinado a me provar que o Piauí é o melhor lugar do mundo para passar por experiências engraçadas

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Comentários (17)

Sensacional! Gostaria de ver as fotos do buraco. A sacada do padre foi muito boa!

Danilo:

E fotos da Mirian Honey comemorando!

Pra falar a verdade, qualquer foto já seria lucro! :P

legal o seu livro.
mas no meio da leitura não dá pra distinguir o que realmente é verdade e o que não é. ainda mais vindo do autor do cocadaboa...hehe

Caram:

acho q assim q o "blog" ganhar mais visitas e comentarios ele publica as fotos...

Tiago:

O que é verdade?

lucas:

Muitos geologos vão ao piaui devido aos sitios arqueologicos, e as formaçoes rochosas peculiares do lugar

Dani:

Putz, se as fotos estivessem aqui seriam tudo de bom!!! Você poderia dar um jeitinho nisto, seria fantástico.

marcel:

tô achando que o manson comeu a mirian honey...

PG:

O Manson dá umas enfeitadas na história, mas...
Qual é a credibilidade do palhaço?

E quem vai ver os sítios arqueológicos são arqueólogos, não geólogos.

robson:

O Piauí serve para alguma coisa ne, pelo menos para ser um pedaço de terra onde se pode estudar os piores fenomenos da natureza

Exemplo disso e a estrada que ja da pra sair PhD em solo esburacado e alternativa de construcao de estradas com troncos e pedras, a la via apia!

Você cita demais a Mirian Honey. Seria alguma amor mal resolvido?

Você cita demais a Mirain Honey. Seria alguma amor mal resolvido?

armando:

Parece pintar um clima com a Mirian...
Obsessão proctológica, mais deserto, mais desespero, mais a Mirian, vai saber...

Master:

Porra, as fotos tão do lado.

Cowboy:

Tô me divertindo muito lendo isso!

Cowboy:

Tô me divertindo muito lendo isso!

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