Ele existe e eu o vi com meus próprios olhos
Latitude: 11 graus sul. Longitude: 45 graus oeste. Foram quase 2.000 quilômetros de viagem, mas finalmente cheguei ao meu primeiro objetivo. Depois de tantas horas, tanta apreensão e sofrimento, não tinha mais dúvidas: o Piauí existe! Eu estava no cu-do-mundo! Um cu com tantos buracos que, mesmo sem ter um diploma de proctologista, poderia afirmar que ele tem um problema agudo de hemorróidas.
Esperava apenas uma plaquinha de “Bem-vindo ao Piauí”, mas no meio do nada havia um posto de fiscalização. Uma guarita com um grande mastro que exibia uma bandeira do Piauí, estática devido à ausência de qualquer brisa, provavelmente porque o local onde o “vento faz a curva” fica a pelo menos 500 quilômetros dali. Fechei os olhos e respirei fundo, enchendo meus pulmões com aquele ar que devia estar estagnado ali há séculos. Aquele era o “marco zero”, o ponto inicial da Transpiauí. Meu coração se acelerou sem motivos aparentes. Talvez fosse a sensação de que naquele caminho algo especial estava sendo reservado para mim. Ao contrário do sr. Paulo Coelho, não estava em busca de espada alguma, mas mesmo assim sentia que naquela peregrinação havia pelo menos uma coisa a ser encontrada.
O ônibus parou no posto. Um homem uniformizado que dormia numa rede se levantou e veio andando lentamente até a janela do motorista. Depois de trocar algumas palavras, deu uma conferida nos passageiros. No início não entendi muito, mas depois a ficha caiu: se eu fosse um fugitivo da lei, não haveria nenhum lugar no mundo para se esconder melhor do que aquele .
O fiscal veio andando pelo corredor, cumprimentando as senhoras, sorrindo para as crianças e encarando os homens. Não sei se era trauma ou culpa no cartório, mas o tal do “galego” ficou bem pianinho nessa hora. Aos poucos ele foi se aproximando do final do ônibus, mas antes mesmo de chegar na minha poltrona ele já me fuzilava com um olhar curioso. Estava cansado, sujo e faminto, mas ainda era muito diferente de um piauiense. Tudo denunciava que eu era um forasteiro. Quando chegou perto de mim e viu a minha gigantesca mochila, pronunciou a primeira palavra desde que havia entrado no recinto:
– Turista?
– Mais ou menos. Estou fazendo um trabalho. – respondi, meio sem jeito.
– Na Serra da Capivara?
– Também.
Ele olhou por alguns segundos para o caderno jogado na poltrona ao lado, depois virou as costas e desceu do ônibus. Ainda bem que não levei um notebook. Certamente ele me faria preencher um longo formulário por estar entrando no Piauí com um bem que faria o produto interno bruto do estado dobrar durante a minha visita.
As perguntas secas do fiscal não me incomodaram, mas ele acabou direcionando todos os holofotes para mim. A partir daquele momento eu havia me transformado na grande curiosidade do ônibus. Até mesmo o travesti me olhava como uma aberração. O que um “turista fazendo um trabalho” estaria planejando naquele fim de mundo? Acho que ninguém ali jamais tinha visto algo parecido. Turista no Piauí deve ser igual ao Curupira, uma lenda que as mães inventam para amedrontar os filhos.
Caímos na estrada novamente e os buracos piauienses, inconcebivelmente maiores e mais profundos que os baianos, começaram a nos castigar. Me lembrei que o fuso-horário do Piauí era diferente, pois eles não adotam o horário de verão . Fiquei confuso. Não sabia se para ficar na “hora exata do Piauí” deveria atrasar o relógio em uma hora ou em um século.
A mulher da poltrona da frente me avisou que faltava pouco para a parada. Me enchi de esperança. Ainda sofria com o sono e os buracos, mas pelo menos conseguiria finalmente matar a fome.
Assim que o ônibus parou, me levantei e fui andando lentamente pelo corredor. Estava bem isolado em meu bunker ao lado do banheiro e não tinha a menor noção da enorme favela em que o ambiente havia se transformado. Crianças catarrentas, restos de comida pelo chão, toalhas e lençóis estendidos em varais improvisados... A cada passo que dava, me sentia mergulhando num campo de refugiados.
As pessoas que desciam demonstravam uma certa emoção. Muitos faziam questão de tocar no solo e sentir a terra. Olhavam uns para os outros com uma certa incredulidade, não acreditando que fi-nalmente haviam chegado em solo piauiense. Era a primeira vez em muitos anos que eles voltavam à sua terra natal e, por mais miserável que seja o seu local de origem, é imprescindível que você o valorize, pois ele sempre vai fazer parte de você.
Deixei aquele cenário deprimente para trás e procurei ansiosamente a lanchonete. Quando a achei, tive a certeza de que aquele era o lugar ideal para experimentar o prato mais típico do Piauí: o jejum. Puta que me pariu, nunca vi um “pé-sujo” tão sujo! Não conseguia dar um passo sem ter que espantar as centenas de moscas que, sem nenhuma inibição, tentavam pousar em minha boca. Mal conseguia identificar o que era salgado, bolo ou sanduíche, de tão nojentos que eram. Mesmo faminto e precisando de algo mais “substancioso”, resolvi não arriscar e apelei para as duas únicas coisas com embalagem lacrada: uma lata de coca-cola e um pacote de “Ruinzitos” . Mesmo assim, fiquei com nojo de beber a coca-cola, por causa de uma viscosidade amarela não identificada que cobria o contorno da lata. Fui até o banheiro lavar aquilo e, como se o asco não bastasse, ainda tive que sofrer com toda a depreciação de masculinidade que o uso de canudo impõe.
O ambiente era tão insalubre que logo me enfurnei novamente no ônibus, achando aquela poltrona ao lado do banheiro o lugar mais confortável do universo. Me empanzinei com o “Ruinzitos”. Era uma merda, mas pelo menos a dor no estômago provocada pela fome estava passando. O gosto ruim foi compensado pelas horas de distração, tentando remover com a língua a grossa camada de polímero amarelo encrostada nos dentes. Por sorte as “propriedades corrosivas” da coca-cola conseguiram dissolver o resto da matéria plástica do biscoito alojadas no meu esôfago, me salvando de um sufocamento. Deus salve a coca-cola! Só mesmo ela para conseguir matar a minha sede neste cu-de-mundo que até mesmo Ele esqueceu! Isso que é onipresença! Mesmo depois de ter me ameaçado judicialmente, ainda tinha muita admiração por este viciante líquido escuro que me acompanha em quase todas as refeições.
Sem dúvida, a encrenca com os advogados da Coca-Cola foi a mais marcante na minha curta carreira de editor do Cocadaboa. Tudo começou com uma piada óbvia: o antigo logo do site imitava a escrita da marca mais conhecida do mundo e reforçava ainda mais o jogo de palavras que deixava muita gente em dúvida. Nada melhor para simbolizar o nosso humor, que em muitos momentos é direcionado para o “anti-consumismo”, do que a distorção do seu ícone máximo. A sátira ficou tão natural que em poucas semanas ninguém conseguia mais conceber a imagem do site de outra maneira. A piada ficou no ar por mais de um ano, ninguém reclamava. Mas em um belo dia a fama do Cocadaboa deve ter chegado aos ouvidos (ou e-mail) de algum executivo broxa, que, na falta do que fazer, resolveu recrutar vários escritórios internacionais de advocacia para nos encher o saco.
Isso mesmo, a ação da Coca-Cola contra o Cocadaboa mobilizou três escritórios em três continentes diferentes! Um no Brasil, um nos Estados Unidos e outro na Europa. Tudo isso porque os infelizes não sabiam que “front” atacar: a pátria do editor, o país onde o domínio está registrado ou o local do servidor que nos hospedava. Na dúvida, nos ameaçaram por todos os flancos possíveis e imagináveis. Quando penso nos milhares de dólares que esta ação deve ter custado dá vontade de rir. Ou de chorar! Se eles me dessem 10% do que gastaram, tirava tudo do ar no mesmo segundo e ainda pediria desculpas publicamente.
É curioso ver uma marca “prostituta”, que disputa a nossa atenção em cada esquina, se considerando tão nobre a ponto de não admitir se ver “blasfemada” em um site de humor. A poluição visual imposta pela Coca-Cola e muitas outras é protegida por lei, pois elas valem muito dinheiro. De um lado elas lutam para fazer parte da nossa cultura e nos empurram seus “valores” goela abaixo. Mas do outro impedem que esta mesma cultura pop ostente o resultado de uma humorada digestão.
O triste é que tentar manter esta piada no ar me custaria muito caro. Se eu, um plebeu sem posses, decidisse peitar a Coca-Cola num tribunal apelando para o bom senso de um juiz, mostrando que qualquer um deve ter assegurada a liberdade para fazer uma caricatura com o que bem entender, provavelmente já ficaria devendo as minhas calças em honorários no final da primeira semana. Quando chegasse ao final dos séculos de processo, teria que vender a minha alma para meu advogado (assim ele poderia substituir a dele, vendida para o diabo assim que ele colocou as mãos no diploma). Essa modalidade de censura fundamentada no poder econômico está se tornando cada vez mais comum hoje em dia. Pouco importa quem está certo ou errado, ganha quem tem mais recursos para travar uma longa batalha judicial.
Mas até mesmo as derrotas trazem os seus presentes. No início, ficava bastante apreensivo com as visitas dos oficiais de justiça, mas elas foram tantas que nem me preocupo mais. Na verdade, me sinto lisonjeado. Elas são a prova de que as merdas que perco tempo inventando são relevantes. Um idiota, um computador e uma linha telefônica são mais do que suficientes para tirar mega-multinacionais do sério. Pouco a pouco, estamos conseguindo mostrar para um grande universo de leitores que o maravilhoso mundo do bom humor e tolerância, pregado por algumas empresas em milionárias campanhas publicitárias, só existe na ficção. Para vender mais vale tudo, até mesmo se fingir de palhaço ou amigo. Se dinheiro não traz felicidade, provavelmente o lucro não deixa nada ser levado com bom humor.
Comentários (12)
Belo capítulo. O melhor, até agora.
Postado por pack | dezembro 5, 2007 12:22 PM
Posted on dezembro 5, 2007 12:22
Como você enfiou essa coca no estômago semi-jejum e não tem uma gastrite é uma pergunta que nunca vai ser respondida...
Postado por Danilo | dezembro 5, 2007 5:29 PM
Posted on dezembro 5, 2007 17:29
Porra agora que estava ficando interessante o link não funciona, arruma o link do 6º capítulo...
Postado por vinicius | dezembro 6, 2007 10:39 AM
Posted on dezembro 6, 2007 10:39
Até hoje não sei se devo falar cocada boa ou coca da boa.
Acostumei a falar cocada boa, mesmo achando ser o errado...
Postado por Everton | dezembro 6, 2007 11:26 AM
Posted on dezembro 6, 2007 11:26
Primeira grande notícia do livro: já tem Coca-Cola no Piauí!!!
Postado por PG | dezembro 6, 2007 1:46 PM
Posted on dezembro 6, 2007 13:46
Esta Coca-Cola em jejum deve ter corroído até o cérebro...
Postado por Dani | dezembro 7, 2007 7:03 PM
Posted on dezembro 7, 2007 19:03
ah, até o fim do livro vc vai ficar desviando do assunto "principal" pra falar do cocadaboa e suas peripécias como dono do mesmo? punhetagem desnecessária isso aí...
Postado por marcel | dezembro 7, 2007 8:04 PM
Posted on dezembro 7, 2007 20:04
Pelo q li até agora não é o Piauí o atraso do mundo, mas meio país... Minas, Goiás, Brasília e Bahia foram o inferno do autor.
Postado por Ennius | dezembro 8, 2007 2:01 AM
Posted on dezembro 8, 2007 02:01
Poxa, neste capítulo não vi nada engraçado. Espero poder dar boas risadas ainda.
Postado por Paulo Viana | dezembro 20, 2007 1:47 PM
Posted on dezembro 20, 2007 13:47
Valeu o capítulo uma frase:
"MARCA PROSTITUTA", ao referir-se a uma mierda liquída. Boa...
Postado por armando | dezembro 21, 2007 10:02 PM
Posted on dezembro 21, 2007 22:02
Realmente o texto está melhorando.
Postado por Master | dezembro 26, 2007 6:47 AM
Posted on dezembro 26, 2007 06:47
As fotos é que são mais engraçadas! Ele é mais ridículo do que eu imaginava.Tive ansia de vômito ao ver suas fotos, você é feio, parece drogado (claro é carioca), tem um rosto estranho... Pronto você é um ET! Nossa ele é um ET ilustres ilustres ilustres HAHAHAHAH leitores.
Postado por ANa | janeiro 6, 2008 9:54 AM
Posted on janeiro 6, 2008 09:54