« Capítulo 5: Barreiras | Principal | Capítulo 7: O marco zero »

Capítulo 6: O purgatório

Qual a quantidade de sofrimento necessária para
purificar a alma de um incrédulo?


O ônibus me deixou impressionado. Era o mais novo e moderno dos que eu tinha viajado até ali. E, por uma bênção divina, tinha ar-condicionado. Procurei uma poltrona vazia, porque a minha passagem não tinha lugar marcado. Para minha desgraça, o único assento disponível era o último, em frente ao banheiro. Ficar perto do banheiro numa viagem de quatro ou seis horas é inconveniente, mas dá para sobreviver. Agora, numa viagem de dezoito horas, é a pior das torturas que um viajante pode sofrer, pois o risco de tragédia biológica é gigantesco. Pelo menos o assento ao lado estava vazio e, além de me proteger na companhia de um estranho, poderia novamente me esparramar em duas poltronas.
O sol ainda estava nascendo enquanto saíamos do perímetro urbano de Barreiras. Foi exatamente neste momento que comecei a experimentar o gostinho do inferno. A cada quilômetro a estrada se tornava mais esburacada. Aos poucos, a velocidade foi diminuindo, até ficarmos em primeira marcha. Quando me dei conta, não havia mais estrada. Estava no meio do mato, em uma trilha de terra tão esburacada que, se um avião passasse por cima, enfrentaria turbulência. O ônibus fazia um zigue-zague enjoativo, adernando como se fosse um navio no mar revolto. Tudo tremia, como se estivéssemos dentro de uma velha máquina de lavar. O ronco do motor, que também ficava atrás, aumentava irritantemente. Em alguns momentos a trilha pelo meio do mato era tão fechada que os galhos da vegetação seca quebravam nas janelas. Fiquei estarrecido. Não era possível que aquilo fosse um eixo rodoviário importante que ligava dois estados.
As tremedeiras, somadas ao barulho e aos saltos do ônibus, eram massacrantes. Impossível encontrar uma posição que não fosse extremamente desconfortável. Me encolhi quase em posição fetal e fiquei me segurando com força na poltrona para evitar os solavancos. Para piorar, a cada buraco a minha fome aumentava. A última coisa que entrara na minha barriga fora um pequeno pão de queijo na madrugada anterior. O suco gástrico corroía cada centímetro da minha parede estomacal, num verdadeiro maremoto ácido provocado por tanto sacolejo.
Não dormia bem há dois dias. Apesar do sono descomunal, era impossível tirar um cochilo. Devia sofrer com os olhos abertos cada centímetro daquela “estrada”. O cenário de terror se completava com alguns casebres de barro, inexplicavelmente plantados ali, no meio do nada. Em todos eles o enredo era o mesmo: alguém sentado na soleira da porta, quase sempre sem camisa, vendo a vida passar numa velocidade mais lenta que a do ônibus. Não dava para acreditar que seres humanos pudessem sobreviver naquela área. Só conseguia ver buracos, lama e arbustos secos. Nada de animais ou plantações. Alguns quilômetros depois, avistei uma grande pedra na beira da estrada, pintada com uma tinta gasta e já quase coberta pelo mato. Nela estava escrito: ACM Senador – 251.
Naquele momento, aquilo tudo que estava vendo e vivendo ganhou uma explicação. Meu corpo e minha alma se revoltaram ao mesmo tempo. Foi a gota d’água para tanto sofrimento. Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar, tentando inutilmente conter as lágrimas que ameaçavam cair. Estava no meu limite, me perguntando porque fui cometer a idiotice de me meter no meio daquele buraco. Já sentia uma imensa vontade de voltar para casa e nem no Piauí tinha chegado.
Vi que a única maneira de contornar tanto desconforto e reunir força de vontade para continuar a minha viagem seria abstrair o que estava ao meu redor. Eu, um cara absurdamente racional e materialista, me flagrei buscando alguma justificativa espiritual para o meu sofrimento. Passei a encarar aquela situação como uma purga. Os buracos, o sono, o barulho, a tremedeira, a fome, o banheiro fedorento... Tudo era uma profunda lavagem interior , mais do que necessária para eu dar meu primeiro passo no Piauí já me sentindo um peregrino, e não um mero turista em busca de histórias engraçadas.
As seguidas horas de buracos fizeram com que qualquer um que tentasse dormir desistisse e, aos poucos, a aparente tranqüilidade do ônibus foi indo embora. O sol já começava a ficar forte quando as conversas e brincadeiras dominaram o ambiente. Uma mulher, que viajava com o filho de três anos na poltrona da frente, puxou assunto comigo. Como minha “imunidade para chatos” já estava baixa, acabei
dando margem para a conversa. Entre uma banalidade e outra, desco-bri que aquele ônibus havia saído de Brasília às oito e meia da noite, já atrasado em quatro horas. Me lembrei de ter visto um Brasília x Teresina no meio da tarde, mas não quis viajar nele e preferi ir até Barreiras no de dez da noite para descansar e passar mais tempo com os amigos brasilienses. No final das contas, acabei entrando no mesmo ônibus que havia rejeitado, com um positivo lucro de seis horas. Seria destino? Nessa altura do campeonato, já estava disposto a acreditar em tudo.
O atraso teria sido incompetência da empresa. Ainda fiquei intrigado e perguntei por que o meu ônibus, que saiu quase duas horas depois, chegou em Barreiras ao mesmo tempo que eles. Ela apontou para alguns passageiros que já estavam de pé no corredor conversando alto e fazendo piadas:
– Tá vendo aquele galego ali? Assim que saímos de Brasília, o infeliz começou a beber e antes de chegar na Bahia já tinha acabado com uma garrafa inteira de cachaça. Começou a fazer algazarra no meio da madrugada, até que o motorista parou num posto da Polícia Rodoviária e o obrigou a descer do ônibus. Ele começou a chorar, dizendo que estava indo no Piauí visitar a mãe que não via há três anos. Os passageiros ficaram com pena e resolveram perdoar o infeliz, se ele prometesse ficar quieto e não bebesse mais.
Dei uma manjada no tal “galego”. No Rio, o apelido de “galego” é bastante usado como sinônimo de português, mas naquele caso percebi que não se tratava de um lusitano. Os piauienses, ou talvez os nordestinos em geral, costumam chamar de galego qualquer conterrâneo que tenha pele mais clara.
O indivíduo era realmente uma figura. Estava cercado por um grupo que escutava suas gracinhas. Um clássico nordestino que ao migrar para o sudeste tenta incorporar artificialmente a “malandragem carioca” ou “modernidade paulistana”, virando espontaneamente um personagem cômico. O bobo necessário para animar a corte durante os longos quilômetros de estrada esburacada. A bagunça aos poucos ia esquentando, mas achei tudo muito normal e levei na esportiva. Afinal de contas, o povo precisava matar o tempo e era impossível dormir naquele terremoto sobre rodas. De todos os males, o barulho da conversa e das risadas era o menor.
Depois de um tempo, o tal do galego começou a instigar uma outra criatura estranha que até o momento estava quieta em sua poltrona. Bastaram alguns comentários e provocações para atiçar o fogo de Mirian Honey, um travesti maranhense que voltava para casa. Empolgado, Mirian começou a contar para todos alguns detalhes de sua vida. Falou que dava aulas de corte e costura em Ceilândia e que namorava muitos homens casados. Disse também que tinha um caso sério com um pistoleiro no interior do Maranhão e que já matou um outro travesti com seis facadas. As lorotas foram aumentando, mas dei um desconto para a “donzela”. O coitado era feio, ignorante, pobre e estava preso há treze horas num ônibus com uma penca de homofóbicos. Me imaginei diante de uma televisão e relaxei. Assisti tudo passivamente, como se fosse um “road-show” do Programa do Ratinho.
Em outras condições até me esforçaria para entrar no grupo que conversava de pé no corredor, a fim de contar algumas besteiras e matar o tempo, mas o meu péssimo humor por causa do sono e da fome me deixou ainda mais anti-social do que já sou. Em vez de me integrar ao povão e fomentar algumas situações que poderiam se tornar engraçadas, preferi ficar na minha trincheira ao lado do banheiro, olhando a paisagem desolada que enchia a minha janela, contando os segundos para que aquilo tudo acabasse.
De repente, o ônibus ficou mais lento que um velho passeando no calçadão de Copacabana. Quando notei, estávamos no meio de uma enorme poça de lama e o motorista dava tudo de si para não atolar. As rodas patinavam, fazendo o ônibus avançar em diagonal. Era como uma prova de rally, com um veículo completamente inadequado. Ainda faltavam uns 20 metros de atoleiro e a coisa ficava cada vez mais feia. Já me imaginava junto com aquele monte de piauienses, com lama até os joelhos, empurrando aquele monstro. Depois de muito tempo, mas muito tempo mesmo, rezei. Chafurdar naquela lama com sono, fome e dores no corpo seria a gota d’água. Depois disso, pegaria o primeiro avião para o Rio de Janeiro e encerraria a minha “aventura”. Diria para quem quisesse acreditar que o Piauí não existe, pois tinha provas de que a estrada que leva até ele acaba num grande atoleiro e impedindo que qualquer ser vivo prossiga. A cada “Ave Maria”, meu cu piscava, se retraindo para não deixar nem um alfinete passar.
Não acreditei quando o ônibus, já quase atravessado na pista, conseguiu se recuperar e ganhou velocidade. Era como se uma gigantesca mão invisível estivesse dando um generoso empurrão. Algo dentro de mim me disse que aquilo só poderia ser uma força especial. Alguma divindade estava acompanhando a minha peregrinação, mas só depois de me torturar incessantemente ela decidiu me ajudar, a ponto de eliminar qualquer traço de ceticismo que ainda existia dentro de mim. Me senti aliviado, como se tivesse passado por um teste. Só me restavam mais alguns poucos quilômetros para atravessar a fronteira estadual e chegar ao marco zero da Transpiauí. Meu corpo estava completamente destruído, mas minha alma estava, mais do que nunca, pronta para encarar este imenso desafio.

« Capítulo 5: Barreiras | Principal | Capítulo 7: O marco zero »

Comentários (15)

Mr. Manson rezando. Quem diria...

Tiago:

Tive que voltar do outro capítulo... eu já tinha quase certeza que ia chegar a lugar nenhum... se o lugar existe, chegou...

Dani:

Fiquei imaginando esta viagem, estes ônibus, a dona vomitando, crianças berrando, sempre um "bonito" aparecendo ao extremo, o cheiro perseguindo as narinas, a fome, o tédio, o humor. Vixe Maria!!!

marcel:

lendo esse capítulo, lembrei que cheguei a ver uma foto do tal ônibus atolado que vc publicou no site nessa época da viagem. caso vc tenha fotos ainda, seria interessante postá-las aqui, pro pessoal visualizar melhor o troço todo.

PG:

HOUAISS:

Galego
1. Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo.
indivíduo nascido em Portugal, esp. os de mais baixo nível de cultura
2. Regionalismo: Nordeste do Brasil e Santa Catarina. Uso: pejorativo.
qualquer estrangeiro; gringo
3. Regionalismo: Nordeste do Brasil.
indivíduo louro
(...)

Felix:

O cara estava em Andhra Pradesh. O Piauí é mais longe e pior!

Levier Felipe:

Já visitei o Rio umas 8 vezes, não viu nenhuma semelhança?

ACM ficou de arrumar a estrada. Morreu antes.

ana:

Já comecei a entender ....esse escritor tem uma empática com CÚ,e qualquer psicólogo em inicio de curso compreende ...foi molestado quando criança e agora tem verdadeiro fetiche !

bruno:

rapaz; eu consigo QUASE dizer que já passei por isso. é incrível como neste país coexistem vários. vivi minha vida sempre entre são paulo e minas, e o contraste é quase igual ao aí relatado. em são paulo os ônibus saem na hora, não há buracos e as pessoas são civilizadas; entram no ônibus e dormem. em minas elas adoram conversar, mesmo que você não queira, os ônibus são velhos, cheiram mal, abundam farofeiros e crianças mal-educadas. mas sinto-me bem por você; ao que parece, pode ter atingido a iluminação.

Paulo Viana:

... ... ... ...

Girafales:

Falou o Bruno comedor de mortadela, saco de micoses.

armando:

O "escritor" rezou. Mas que coisa auto-martirizante. O nível estável da narração prende a atenção esperando novidades. Aguardemos!

Maria do Carmo:

Você deu sorte de não ter ninguém levando peixe na marmita. Juro que já peguei um Trasnbrasiliana no interior do Maranhão onde tinha galinha viva nas gaiolas e peixe ensopado na marmita. O cheiro tá até hoje no meu nariz. Também foi minha primeira viagem ao fim-do-mundo. Foi quando descobri que o Rio de Janeiro não é droga nenhuma comparado ao resto do Brasil.

Ana:

"O RIO DE JANEIRO não é droga nenhuma comparado ao resto do Brasil" HAHAHAHA Maria do Carmo está drogada?

Envie um comentário:

Powered by
Movable Type 3.35