O último suspiro antes de entrar no inferno
Cheguei na rodoviária em cima da hora. Faltando apenas cinco minutos para o ônibus sair, na minha frente havia uma visão de guerra. Uma multidão junto à plataforma de embarque, muitas caixas empilhadas e um único fiscal para organizar a confusão. Nada comparado à tranqüilidade que foi o embarque no Rio. O trajeto de Brasília até Barreiras (BA) era obviamente feito por muitos migrantes, todos moradores das “cidades satélites” (que dizem ser um eufemismo para “favelas”) que vão para o Nordeste visitar parentes. Levavam na bagagem uma verdadeira “mudança”, que contrastava abissalmente com a minha simples mochila. Ainda bem que a confusão era para o despacho das malas, caixotes, galinhas e cabritos. Como a mochila viajava comigo, pude entrar no ônibus antes de todo mundo.
Pela quantidade de pessoas aguardando na plataforma de embarque, sabia que não teria a mesma sorte do trecho anterior e teria que engolir algum mala sentado ao meu lado. Enfim, encarar a minha fobia de conviver com pessoas estranhas teria que fazer parte do pacote de elevação espiritual proporcionado pela Transpiauí. A única alternativa era rezar para que de todos os males, tivesse que encarar o menor. Para cada indivíduo que subia no ônibus, fazia um filtro semi-automático: “Esse parece roncar muito. Por favor, não!”. “Essa tem cara de gostar de puxar assunto. Por favor, não!”. “Essa está com uma criança de colo. Pelo amor de Deus, não! NÃO! NÃO! NÃO!”
Sim...
É impossível lutar contra a Lei de Murphy. Teria que encarar oito horas de viagem numa poltrona apertada com uma mulher carregando uma merda de criança no colo. Fiquei indignado, não apenas pelo espaço, mas porque sabia que Murphy é muito cruel. A criança estava bem calminha na hora do embarque, mas tinha certeza absoluta que bastaria eu fechar os olhos que o filhote do demo abriria o berreiro. Para completar, uma senhora já bastante “alegre” sentou no banco de trás. O bafo de cachaça vinha acompanhado de frases sem sentido:
– Ixe! Esse ônibus aqui tá muitcho bom! Mió que esse só se fosse otro!
Depois ela fez uma graça com a criança que estava do meu lado:
– Dorme, meu fio, sonha que ôce tem uma barriga de açúca!
Não entendi muito bem a expressão “sonhar que tem uma barriga de açúcar”. Mas olhei para a barriga do moleque e vi que essa não seria uma boa notícia para os vermes que moravam ali, caso eles fossem diabéticos.
A mulher ficou ainda mais expansiva e falou para uma menina de uns onze anos que estava em outra poltrona próxima:
– Aproveitcha essa viagem e guarda tudo na sua cabeça! Quando vortá pra escola ôce faz uma redação pra professora: “Minhas féria”.
Complacente com o sofrimento da menina, quase tirei o meu caderno da mochila para lhe dar algumas umas folhas. Assim, ela poderia anotar com precisão cada segundo daquele decadente momento e sua redação ficaria mais fidedigna.
O ônibus começou a andar e não demorou muito para a alegria da pinguça ir embora. O sacolejo da estrada fez com que ela se trancasse no banheiro para bater um papo íntimo com o Raul . Ela ainda estava se liquefazendo na privada quando as generosas cervejas ofertadas pelo leitor brasiliense ameaçaram trilhar o caminho da minha uretra. Ainda tive a coragem de me levantar para conferir o estado das instalações. Nojento! Era impossível entrar naquele banheiro sem vomitar. Nos poucos segundos em que agüentei manter a porta aberta, deu para perceber que a distinta senhora havia jantado uma generosa porção de algo amarelo e que tinha o saudável hábito de mastigar muito bem a comida. Resolvi, então, me segurar até a próxima parada, que só aconteceria em uma hora. Sem exagero, foi a hora mais longa de minha vida. Fiquei completamente desesperado. Cravei com força a unha do indicador na raiz de minha glande, tentando inutilmente conter as lágrimas que ameaçavam sair. Lembrei, então, que quando li O diário de um mago, aprendi um exercício de RAM que seria muito útil neste momento. Ele proporciona um certo alívio nestes momentos em que a bexiga está beirando o colapso e éconhecido como “O EXERCÍCIO DA EBULIÇÃO”.
O EXERCÍCIO DA EBULIÇÃO
Cruze as pernas e contraia o ventre. Depois imagine uma pequena poça de água sendo lentamente aquecida pelos raios solares. Aos poucos você poderá ver a água se evaporando.
Quando o solo ficar completamente seco, a sua vontade de mijar terá passado.
É muito importante que você não confunda, em hipótese alguma, o “Exercício da ebulição” com uma outra prática de RAM conhecida como o “Exercício da condensação”, pois, se fizer isso, pode acabar se mijando todo.
Quando o ônibus parou, saí empurrando freneticamente todos que bloqueavam a passagem do corredor. Corri até o banheiro e experimentei uma das melhores sensações do universo. Se aliviar desta maneira, quando a vontade já chegou no limiar máximo, é quase equiparável a um orgasmo. Me senti extremamente leve, como se estivesse caminhando em nuvens. Comprei um pão de queijo e um suco antes de voltar para o meu lugar.
Com a pinguça “fora do ar” a minha bexiga vazia, nada mais me impedia de tentar recuperar o sono atrasado. Reclinei a poltrona, me virei de lado e fechei os olhos. Como havia previsto, não demorou cinco segundos para o pivete começar a chorar. De quinze em quinze minutos o filhote de meretriz abria o berreiro. A solução foi aumentar o volume do walkman e olhar as estrelas, esperando aquele sono absurdamente pesado, capaz de ignorar até mesmo o desespero de uma criança sendo espancada na poltrona ao lado.
Finalmente, às cinco da manhã, o ônibus chegou em Barreiras. Somando as “pequenas prestações” de sono, não dormi duas horas e meia. Completamente estragado, só não arriei no banco imundo da rodoviária porque tinha que checar as alternativas para chegar até o Piauí. Penei para achar a escondida e minúscula cabine. O atendente devorava compenetrado um imenso “pão com algo”. Bati no vidro para ele levantar a cabeça e notar a minha presença.
– Oi, amigo. Quando sai o próximo ônibus pro Piauí?
Ele olhou para o relógio e passou a boca no ombro, tentando limpar os restos do que parecia ser maionese.
– Daqui a cinco minutos.
– Cinco minutos? E depois desse, quando sai o próximo?
– Aí só amanhã.
– Amanhã!?!?
– É, só amanhã de manhã. Isso se não atrasar...
Minhas opções não eram muito interessantes. Ficar um dia em Barreiras não estava no programa, mas emendar duas viagens longas seguidas, sem tempo para descansar ou até mesmo comer, seria foda.
– E aí, vai ou fica? O ônibus já vai sair.
– O jeito é ir, né...
– Vai parar em qual cidade?
– Corrente.
– Ixe! – pausa para uma mordida no “pão com algo” – Corrente não tem nada! Se você descer lá, não vai conseguir pegar nenhum ônibus para continuar a viagem. Vai ficar dependendo dos que saem daqui mesmo, é só um por dia e sem horário fixo por causa dos atrasos. A estrada é muito ruim!
– O que você aconselha então?
– Você tá indo pra Serra da Capivara?
– Isso.
– Vai até Canto do Buriti. Lá é entroncamento de duas estradas, tem mais opções de ônibus e as hospedagens são melhores.
Mais uma vez caí em um dilema. Olhei no mapa e vi que se fosse até Buriti, deixaria para trás de uma esticada só todo o extremo sul do Piauí. O meu tempo estimado de viagem também dobraria. Teria que agüentar dezoito horas de estrada!
O motorista buzinava impaciente. A decisão de não ficar em Corrente era complicada, pois mudaria todos os meus planos. Mas diante da possibilidade de perder um dia inteiro plantado numa rodoviária esperando outro ônibus, decidi seguir o conselho do vendedor. Afinal, era um conselho de boca cheia! Me despedi desejando um sincero “bom apetite”. Em retribuição, recebi um sorriso carimbado com folhas de alface.
Embarquei no último segundo. Não tive tempo nem de comer. Emendaria uma já exaustiva jornada de oito horas com outra de dezoito. Dormi pouco, não comi nada e estava apreensivo com as informações sobre a estrada. Tive a forte impressão de que o grande momento de martírio da minha insana peregrinação estava prestes a começar.
Comentários (7)
walkman... Pense.
Postado por lucas | dezembro 7, 2007 9:52 AM
Posted on dezembro 7, 2007 09:52
Tô agradando bem mesmo...
Postado por Dani | dezembro 7, 2007 6:44 PM
Posted on dezembro 7, 2007 18:44
opa, vai começar a festa...
Postado por marcel | dezembro 7, 2007 7:08 PM
Posted on dezembro 7, 2007 19:08
"O atendente devorava compenetrado um imenso “pão com algo”. "...não pude me conter nesta parte. Realmente este livro é muito engraçado.
Postado por Paulo Vian | dezembro 19, 2007 11:23 AM
Posted on dezembro 19, 2007 11:23
Eu não entendi uma coisa: você diz o tempo todo sobre a bobagem de enfiar a unha em qualquer coisa conforme o PC ensina, mas como chegou até aqui sem ter roído todas elas?
Postado por Xtian Xultz | dezembro 20, 2007 9:40 PM
Posted on dezembro 20, 2007 21:40
Mas, que filho da mãe que não tolera e nem perdoa uma criança. Faz uma viagem dessas com finalidades pequeno-burguesas e ainda chia feito chaleira no fogo...
Vamos ver se melhora no próximo capítulo...
Postado por armando | dezembro 21, 2007 9:39 PM
Posted on dezembro 21, 2007 21:39
A piadinha dos vermes diabéticos foi infâme, para não dizer que foi uma merda. Bom, também não entendi o que a pinguça quis dizer com barriga de açúcar. Acho que o Manson deu muita ênfase na bêbada só por causa de uma besteirinha simples de tornar o banheiro interditado. Parece que nunca viajou de ônibus...
Postado por Thiago | dezembro 24, 2007 9:28 PM
Posted on dezembro 24, 2007 21:28