Celebridade da internet, aquele lugar
onde absolutamente nada acontece
À noite fomos tomar um chope. Saímos relativamente cedo, porque eu deveria estar na rodoviária por volta das nove e meia da noite. Apesar da “hora de matinê”, o bar estava completamente lotado. Era impossível não ter a impressão de que Brasília é um ovo onde todos se conhecem e que as opções de lazer noturno são bem limitadas. Penamos mais de meia hora até conseguirmos um lugar. Só restou tempo para duas cervejas. Ainda na metade da primeira garrafa, um desconhecido que parecia ser um freqüentador assíduo do bar pediu para colocar o copo na nossa mesa, pois ele estava bebendo em pé. Do nada, o amigo que estava me acompanhando puxa assunto com o indivíduo e me apresenta como “um cara famoso”. Não entendi porra nenhuma e corrigi o exagero. Mas o estranho tinha ficado curioso:
– Famoso por quê?
– Ele é o dono do Cocadaboa!
Nunca esperaria que um cara com aquela pinta fosse conhecer o site. Ele parecia ter uns trinta e muitos anos, ser funcionário público e não se ligar nesses lances de internet. Mas, para minha surpresa, o maluco respondeu:
– Porra! Cocadaboa? Não é o site do bolão que você aposta em quem vai morrer? Fui lá essa semana para fazer a minha “fezinha” para este ano!
O papo começou a esquentar e, em poucos minutos, o clima de “cervejinha rápida” foi substituído por acaloradas discussões sobre a mecânica e as curiosidades do nosso conhecido bolão. Todos ficaram espantados quando contei o caso de um leitor que apostou na morte do funkeiro Claudinho poucas horas antes de seu acidente fatal. Mãe Dinah não faria melhor.
Começaram a pipocar cervejas e aperitivos em nossa mesa, tudo cortesia do novo amigo. Perguntei por que tanta generosidade e ele disse que apenas estava retribuindo as horas de diversão que o site lhe proporciona. Se tivesse mais tempo, perguntaria de mesa em mesa, para ver se naquele bar lotado tinha mais algum entusiasta do Cocadaboa para me dar de comer e beber de graça até o sol raiar.
Infelizmente, chegava a hora de partir. Apesar da receptividade, duvido que encontraria algum leitor disposto a me dar carona até o Piauí. Enquanto saía do bar, fui olhando mesa por mesa, curioso para saber quantos dali se divertiam com o site. Será que encontrar logo de primeira com um “grande fã” foi regra ou exceção? Muito estranha a sensação de ser lido por um caminhão de gente, mas poder viver como um anônimo no meio da multidão.
Quando comecei a fazer o site, em janeiro de 2001, não achei que teríamos o alcance de hoje. Se alguém me dissesse que aquele hobby me renderia algumas cervejas grátis em Brasília, provavelmente não acreditaria. Acho que devo pelo menos 90% do nosso sucesso aos idiotas que nos processaram. A cada intimação com um ultimato para retirar determinada piada, o número de visitantes do site duplicava. Nunca poderia imaginar que um documento cheio de jargões jurídicos chatos poderia ser mais admirado por nossos leitores que nossas putarias convencionais. A cada golpe que levávamos, mais solidariedade atraíamos para o nosso lado. As pessoas se identificavam com a “nossa causa” (que estou até hoje tentando descobrir qual é).
O grande apogeu de toda essa perseguição aconteceu no momento em que o site estava completando um ano e meio, quando misteriosamente usuários dos maiores provedores brasileiros não conseguiam acessar o Cocadaboa. No início tudo parecia um erro técnico normal, mas depois uma sucessão de “coincidências muito raras” demonstraram que havia alguma má intenção por trás deste “erro”. Os suportes técnicos destes provedores receberam uma avalanche de e-mails e telefonemas com reclamações, mas nenhum foi capaz de indicar uma solução para o problema ou sequer dar para seus clientes uma explicação razoável. Nunca tinha ouvido falar de algum site que sofresse esta espécie de “censura velada”, pelo menos aqui no Brasil. Sabia que na China isso era comum contra sites de opinião política e que na Europa havia algumas movimentações para bloquear os números de IP dos servidores que hospedassem conteúdo de racismo ou pedofilia. Mas nunca achei que algo do tipo poderia acontecer com um site de humor. Perdemos mais da metade de nossa audiência por um longo período de cinco meses, um duro golpe no ritmo de crescimento vertiginoso que o Cocadaboa experimentava em seus primeiros 18 meses de vida.
Até hoje não sei ao certo o verdadeiro motivo que desencadeou essa situação. Desconfio, mas sem qualquer evidência material, de que ele esteja ligado ao episódio da festa à fantasia da Fundação Getúlio Vargas, pois este foi o nosso último “grande ato polêmico” antes do bloqueio. Para quem estava ausente da internet em setembro e outubro de 2002, ou mora em locais “digitalmente excluídos” como o Piauí, esclareço o caso.
Durante uma festa desta tradicional faculdade de administração paulista, vários cubículos feitos com tapumes de madeira foram postos à disposição de casais a procura de “mais intimidade”. Alguns engraçadinhos conseguiram subir nos tapumes e tirar fotos altamente libidinosas. No dia seguinte elas já estavam circulando na internet. Menos de 48 horas depois, metade da população mundial tinha recebido por e-mail as fotos das estudantes pudicas com a “boca cheia”. A força de um boato é impressionante, ainda mais com o auxílio da tecnologia.
O problema é que advogados da faculdade e das meninas, num compreensível ataque de prepotência, acharam que era possível impedir que a outra metade da população mundial que ainda não tinha visto as fotos conseguisse encontrá-las na internet. Várias intimações foram distribuídas e os sites que exibiam as fotos eram retirados do ar com uma velocidade absurda.
O Cocadaboa não podia ficar impassível diante desta atitude que visava “interromper o livre fluxo de informações” na rede. Organizamos um movimento para que todos aqueles que já tivessem conseguido as fotos criassem sites em servidores gratuitos espalhados pelo mundo, assim a tarefa dos advogados de distribuir ameaças judiciais à esmo ficaria praticamente impossível. A lista de novos sites começou a crescer exponencialmente e fizemos questão de divulgar o endereço de todos no Cocadaboa. A cada doze horas atualizávamos o catálogo. É claro que retirávamos muitos que haviam saído do ar, mas em compensação reabastecíamos a lista com o dobro de opções para nossos leitores matarem a curiosidade.
A estratégia funcionou porque nos focamos em funcionar apenas como “centro de informações”. Se usássemos nosso site para hospedar as tais fotos, também correríamos o risco de sair do ar, mesmo estando em um servidor de um país distante, a Eslovênia. Esse jogo de “gato e rato” com os advogados durou mais de uma semana. Aos poucos fui recebendo notícias de que responsáveis por vários sites nacionais que hospedaram as fotos estavam sendo intimados para depor em uma delegacia de São Paulo. Curiosamente, o Cocadaboa permanecia intocado. Não recebi nenhum e-mail ameaçador ou pedido para que interrompêssemos a divulgação.
Graças à procura excessiva pelas famosas fotos, quintuplicamos a média de acessos. Chegamos a bater a casa das cinqüenta mil visitas diárias, mais do que o dobro de muitos sites conceituados, com grande verba publicitária e hordas de escravos, digo, funcionários. Estávamos em evidência e os administradores de nosso servidor eram praticamente inatingíveis pelas possíveis ameaças de advogados brasileiros. Baseado em episódios anteriores, já tinha constatado que hospedar um site polêmico em servidores nacionais era suicídio. Qualquer pessoa pode forjar um e-mail se dizendo advogado, ameaçar o provedor e fazer seu site ser retirado do ar. Felizmente encontrei um excelente “exílio” em um remoto país europeu, nos dando tranqüilidade para seguir brincando com coisas supostamente sérias.
Coincidência ou não, foi a partir dessa movimentadíssima semana que comecei a receber as primeiras reclamações de leitores que não conseguiam acessar o Cocadaboa. Aos poucos, a onda foi crescendo e quase todos os usuários de grandes provedores brasileiros recebiam uma mensagem de “página inexistente” ao digitar o nosso endereço em seu navegador. O site continuava acessível para usuários de provedores pequenos (como eu), para leitores que moram em outros países ou para quem utilizava ferramentas de navegação anônima. Como disse, nunca soube de nenhuma evidência de que o episódio das fotos da festa da FGV tivesse alguma relação com o bloqueio amargado durante cinco meses. Só sei que muita gente enfrentou “merda grossa” por ter mexido com essas fotos. Talvez sabendo que tentar atingir o Cocadaboa diretamente seria um esforço desnecessário, os advogados de plantão preferiram encontrar outros meios de nos tirar de circulação. Por sorte, já estávamos trabalhando em um sistema novo para a publicação do site, então aproveitamos a oportunidade para mudarmos para um servidor que tinha como driblar este bloqueio. Em janeiro de 2003, tudo voltou ao normal e aos poucos nos recuperamos do golpe, voltando a ostentar um bom ritmo de crescimento.
Comentários (16)
Consegui chegar até aqui sem nem parar pra ir ao banheiro...
Postado por vinicius | dezembro 6, 2007 10:12 AM
Posted on dezembro 6, 2007 10:12
Porra, não vai chegar no Piauí não? Essa merda é longe assim?
Postado por PG | dezembro 6, 2007 1:27 PM
Posted on dezembro 6, 2007 13:27
Salve!!!
Postado por Dani | dezembro 7, 2007 6:35 PM
Posted on dezembro 7, 2007 18:35
Bons tempos do cocadaboa. Depois que virou formato "blog" nunca mais foi o mesmo... SACaneie era foda.
Postado por Munha | dezembro 11, 2007 11:21 PM
Posted on dezembro 11, 2007 23:21
acho que estou começando a entender o livro -quer dizer- o título. foi só pra chamar atenção mesmo? estou vendo qua não entendi direito -é o que eu espero-.
Postado por Levier Felipe | dezembro 12, 2007 2:54 AM
Posted on dezembro 12, 2007 02:54
Época boa do cocadaboa...
Postado por nem | dezembro 14, 2007 4:32 PM
Posted on dezembro 14, 2007 16:32
Aquilo que era um site de humor.
alias lembro muito bem quando o site ficou fora do ar. Tinha um macete de entrar procurando os links do SAcaneie no google....
Postado por robson | dezembro 14, 2007 4:40 PM
Posted on dezembro 14, 2007 16:40
Eu também gostava muito do SACaneie. Hoje tb tenho um blog graças ao cocadaboa.
Postado por Locke | dezembro 15, 2007 3:14 PM
Posted on dezembro 15, 2007 15:14
Realmente Munha, epóca boa...mas cheguei depois...por acaso, as fotos ainda circulam?
Postado por Paulo Viana | dezembro 19, 2007 5:01 PM
Posted on dezembro 19, 2007 17:01
Alguém ainda tem algum link dessas fotos?
Postado por MRG | dezembro 20, 2007 10:26 AM
Posted on dezembro 20, 2007 10:26
Acompanho o Cocadaboa diariamente já faz alguns anos e o SACaneie foi a coluna mais engraçada que já ví na internet
Postado por Nobronxs | dezembro 21, 2007 12:27 PM
Posted on dezembro 21, 2007 12:27
E o raio do Piauí? Quer dizer a história foi pretexto para "vender" o sítio "cocadaboa"? Um capítulo inteiro falando de vadias burguesas de certa faculdade da paulicéia?
Postado por armando | dezembro 21, 2007 9:30 PM
Posted on dezembro 21, 2007 21:30
Este lance da eslovênia é mentira da grossa.
Postado por Master | dezembro 26, 2007 6:30 AM
Posted on dezembro 26, 2007 06:30
Eslovenia nada, o site tem ip 64.13.232.105 que aponta para a empresa mediatemple, na california, estados unidos. e o dominio é controlado por GODADDY.COM, também nos eua.
Todas essas empresas podem ser contatadas caso necessário.
As unicas vantagens, talvez, é o preço de hospedagem mais barato e a não necessidade de identificação do proprietário do site. (O que a policia federal consegue rapidinho, mas de maneira mais trabalhosa)
Postado por Maico | janeiro 3, 2008 11:27 PM
Posted on janeiro 3, 2008 23:27
Pra piorar, os 70 Km de mar do Piauí foram invadidos (esbulho pocessório). Pertenciam ao Ceará. Esta é a verdadeira história. O Piauí não tinha saída para o mar e resolveram no início do século IXX tomar o trecho de mar. Convocaram os mais valentes e montaram em bodes para invadir. Uma espécie de Cavalia de bodes. Imaginem aquele povo lindo tomando Luis Correia na marra............
Postado por GERALDO NUNES FILHO | janeiro 26, 2008 4:04 PM
Posted on janeiro 26, 2008 16:04
Pra piorar, os 70 Km de mar do Piauí foram invadidos (esbulho pocessório). Pertenciam ao Ceará. Esta é a verdadeira história. O Piauí não tinha saída para o mar e resolveram no início do século IXX tomar o trecho de mar. Convocaram os mais valentes e montaram em bodes para invadir. Uma espécie de Cavalaria de bodes. Imaginem aquele povo lindo tomando Luis Correia na marra............
Postado por GERALDO NUNES FILHO | janeiro 26, 2008 4:05 PM
Posted on janeiro 26, 2008 16:05