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Capítulo 3: Brasília

No coração do Brasil, o resultado de uma
dieta rica em gordura de um país sedentário


Cheguei à rodoviária de Brasília uma hora antes do previsto. Normalmente as pessoas não gostam de atrasos e adoram adiantamentos. Nesse caso estava odiando ambos, pois tinha marcado com amigos brasilienses ao meio-dia. Parei em uma banca de jornal e comprei um novo mapa. Morri em 25 reais, mas pelo menos deixaria de ser um “cego sem bússola” perambulado pelos rincões do sertão piauiense.
Fui verificar as opções de horário dos ônibus que iam para a fronteira da Bahia com o Piauí e recebi uma informação bizarra: o tempo de viagem até Barreiras, última cidade da Bahia antes de chegar no Piauí, era de oito horas. Já o tempo para chegar em Corrente, primeira cidade no extremo sul do Piauí, era de 14 horas. Detalhe: de acordo com o mapa, a distância entre Barreiras (BA) e Corrente (PI) é de pouco mais de 200 quilômetros. Incrível! Seriam seis horas a mais para percorrer esses 200 quilômetros adicionais, o que dá uma velocidade média de 30 quilômetros por hora!!! A mesma de uma bicicleta!!!!!
Descarreguei essa imensa quantidade de exclamações matemáticas sobre o pobre homem no guichê da empresa rodoviária que, mesmo sem entender muita coisa, confirmou que essa espécie de vácuo na relação espaço/tempo existe de fato. Nem Einstein seria capaz de explicar isso. Como um ônibus poderia ser tão lento quanto uma bicicleta? Vi, então, que estava preste a experimentar algo muito especial, que transcende qualquer racionalidade científica. Nem mesmo o badaladíssimo caminho de Santiago de Compostela do sr. Paulo Coelho tinha uma “fenda no tempo” como essa logo no início da Transpiauí. Então, resolvi não arriscar e comprar uma passagem para Barreiras no ônibus das dez da noite. Lá, mais próximo da fronteira, poderia analisar quais seriam as melhores opções para atravessar esse buraco negro. Quem sabe poderia até ser mais viável penetrar nesse primeiro trecho de bicicleta, a pé, a cavalo ou besuntando meu corpo inteiro com Claybon Cremoso®?
Com a passagem na mão, fui até a entrada principal da rodoviária e sentei numa mureta. Ainda faltava meia hora para meus amigos chegarem. Enquanto lia meu novo guia, um grupo de pessoas sentou perto de mim. Aos poucos, fui ouvindo um idioma estranho e resolvi prestar mais atenção. Quando ergui a cabeça, tive uma tremenda surpresa: eram índios!
Meus Deus! Não estava acreditando naquilo! Em 24 anos de vida, esse era o meu primeiro contato com silvícolas! E logo três! Tudo bem que não eram índios selvagens, mas porra, já era alguma coisa. Só fiquei meio decepcionado porque eles não usavam o traje típico, o clássico short de nylon com as três listras da Adidas, supra-sumo da moda dos anos 80. Todos os índios que já tinha visto na televisão usavam o tal short. Logo, foi um choque cultural vê-los usando roupas normais. Se bem que não eram “normais” para o meu padrão. Pareciam aqueles jogadores de futebol em início de carreira que, na fome de ganhar uma graninha, aceitam patrocínio de marcas escrotas como Onbongo e usam camisetas estranhas com cores berrantes nas mesas redondas de domingo, tudo em nome do jabá. Fiquei contemplando aquela imagem ridícula e cheguei à conclusão de que mais de 500 anos se passaram e os índios ainda não conseguiram entender completamente a utilidade do espelho. Agora, quando cruzar com um playboy na rua usando alguma dessas camisetas, posso falar por experiência própria: “Porra, maluco, isso é coisa de índio!”.
Depois do choque visual, passei a prestar mais atenção ao idioma deles. Não deu para entender quase nada. Só tive uma vaga idéia quando um dos três resolveu sentar ao meu lado e um outro o advertiu: “Dardtari deiduas xicréti.” Olhei para a mureta e vi que havia um chiclete grudado aonde o índio iria sentar. Deduzi, então, que “xicréti” naquele dialeto indígena significava “chiclete”.
Foi aí que tive mais uma demonstração da rica cultura dos “peles-vermelhas”: presenciei parte do impressionante ritual de acasalamento. Os índios manjavam todas as mulheres que entravam e saíam da rodoviária. Não tinha uma, gostosa ou baranga, que escapasse dos comentários libidinosos proferidos naquela língua arcaica. Sem exagero, a atitude desrespeitosa dos índios quase se igualava ao comportamento selvagem da playboyzada nas “boates da moda” e nos carnavais fora de época. Já estava vendo a hora em que um deles engataria numa desavisada que abaixasse para amarrar o cadarço. Tive pena daquele povo sofrido. Seus ancestrais tinham uma cultura maravilhosa, onde todas as mulheres circulavam pela a aldeia sem pudor algum, distribu-indo avalanches de tesão. Mas foi só o homem branco desembarcar por aqui para a festa acabar. Além de terem povo e cultura dizimados, os poucos índios que sobraram ainda precisam ficar babando por simples migalhas de sensualidade, como as de uma calça jeans um pouco mais justa. Uma atrocidade descomunal! Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar, tentando inutilmente conter as lágrimas que saíam de meus olhos.
Quando me recompus, me dei conta do perigo à minha volta. Estava numa mureta em Brasília, próximo a um grupo de índios. A probabilidade de alguma gangue formada por filhos de juízes aparecer e tascar fogo na galera era imensa. Discretamente, me afastei do grupo e voltei para a rodoviária.
Felizmente, meus amigos não demoraram muito para chegar. Aproveitei o luxo da escala em uma casa de família para caprichar no banho e no almoço. Repeti o prato duas vezes, afinal em poucas horas estaria partindo para o Piauí e a possibilidade de poder comer algo bom por lá era remota. Aliás, deveria me contentar em conseguir comer algo.
Depois de um curtíssimo cochilo, fomos dar um rolé pela capital federal. Coisa rápida, apenas para não desperdiçar a viagem. Entendi o esquema da cidade em cinco minutos. O sistema de quadras faz tudo ser semelhante a um jogo de batalha naval: “Eu moro no H5, a padaria é no B2, o F4 é barra pesada, tem um submarino que fica por lá.” Só mesmo sendo muito debilóide para conseguir se perder em Brasília. Palmas para Lúcio Costa, que teve a visão de projetar uma cidade compatível com o QI das pessoas que iriam morar lá. Isso que é planejamento urbano, o resto é desculpa para arquiteto fazer congresso em São Francisco, Milão, Paris ou outra capital mundial do design e da boiolagem!
Tirando os prédios principais, a arquitetura da cidade é monótona. Os conjuntos residenciais parecem pombais, feitos em uma escala gigantesca e tendo como única distinção entre um e outro um discreto número escondido na fachada. Fiz uma rápida passagem pelo famoso “eixo monumental”, onde estão os ministérios e a Praça dos Três Poderes. Admirei a arquitetura do lado externo, mas fiquei com medo de entrar. Vai que eu piso em algum deputado e estrago meus tênis novos.
Não poderia encerrar o passeio sem ir até a residência oficial do nosso amado presidente. No caminho, passamos pelo Palácio Jaburu. Nunca tinha ouvido falar, mas pelo nome deveria ser a residência oficial da Benedita da Silva. Encontrei algumas pessoas na porta do Palácio Alvorada. Achei que fossem turistas aguardando um autógrafo de nosso presidente pop-star então recém-eleito, mas depois vi que eram clientes. Havia um pequeno cartaz na porta que dizia: “VENDE-SE SACOLÉS” . Dona Marisa, com um lenço na cabeça cobrindo os rolos de cabelo, atendia a todos pacientemente no portão. Ela repetia exaustivamente os sabores para as criancinhas em dúvida: “Tem de maracujá, coco, morango, leite condensado e chocolate. Manga acabou.” Naquele momento, pude ver que o Brasil estava mudando. Ser primeira dama não significava mais posar como peça de adorno em pomposas cerimônias. Neste nosso novo contexto, ela deve auxiliar o seu marido no complemento da renda familiar. Fiquei emocionado! Talvez uma família de trabalhadores no poder seja capaz de ensinar à burguesia novos valores. Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar, tentando inutilmente conter as lágrimas que ameaçavam sair de meus olhos.
Meus amigos perceberam que eu estava quase desabando de tanta emoção e resolveram me levar para um lugar mais “alto astral”, como as quadras de mansões do Lago Paranoá. Realmente me senti reconfortado. Eram casas enormes, verdadeiros palácios enfileirados um a um, por quilômetros. Vi que o meu suado dinheirinho de contribuinte estava sendo aplicado ali com uma eficiência nunca antes vista no poder público brasileiro. Em um dos jardins, uma família do primeiro escalão fazia um churrasco que impregnava toda a vizinhança com um delicioso aroma. Vi uma pilha de camisas da Onbongo chamuscadas ao lado da churrasqueira, mas mesmo achando o aspecto da carne muito estranho, não consegui parar de salivar.
Só mesmo o aroma de uma boa carne na brasa foi capaz de colocar algum tipo de umidade em minha boca. Sempre ouvi falar que Brasília era uma cidade muito seca, mas não tinha idéia que fosse tanto. Meu nariz não parava de coçar. Acho que “limpar o salão” não pode ser considerado falta de educação em um lugar como este. Estava ali havia apenas cinco horas e todas as minhas mucosas estavam ressecadas. Perguntei para um amigo sobre as dificuldades de excitação que as mulheres da cidade devem sofrer. Certamente Brasília deve ser a região aonde a Johnson & Johnson’s fatura mais com a venda de KY®.
– Esta é a cidade onde não se sua – disse meu anfitrião ao perceber o meu crescente desconforto.
Até agora não sei ao certo se esse título se deve à baixa umidade relativa do ar ou ao fato de lá só “trabalharem” funcionários públicos, inimigos mortais de qualquer tipo de esforço. A única certeza era de que eu precisava urgentemente de uma sombra e muita água.

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Comentários (8)

Dani:

Só cravando as unhas no planalto central...

Rafael:

Este capitulo foi engraçado.
estou gostando do livro.

Rafael:

Este capitulo foi engraçado.
estou gostando do livro.

Paulo Viana:

Quando vc relata ter chegado na "rodoviária", acredito que se trata da rodoferroviária...a rodoviária de bsb é uma bosta, onde tem todos os tipos de gente (seres na verdade)...não que a rodoferroviária seja "melhor", mas além de índios, na rodoviária é capaz de vc encontrar até et's...nem vou comentar sobre o "banheiro" (ou mijatorio)...sei lá..chame do que achar melhor.

PS:estou gostando desta bosta,quero dizer "obra", que vc escreveu

armando:

Tá ficando interessante, ainda que cheio de preconceitos. Boa lembrança dos fdp dos filhos de juízes que gostam de queimar seres humanos...

Dhiego:

De Barreiras à Corrente ser 14 horas. Mentira. Algo em torno de 6 horas.A culpa é do trecho que é de estrada de chão e fica todo na Bahia, não é Transpiauí ainda. As pessoas vêm as fotos e ficam pensando isso. E Barreiras não é a última cidade da Bahia antes de chegar ao Piauí e nem Corrente é a primeira da fronteira.

Luciano:

Sem comentários... não sei como estou conseguindo sobreviver sem dar uma risada até agora.

Livro extremamente arrogante e desconexo.

Fernando:

muito ruim.

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