Dentro de um ônibus vazio, filisofar sobre inutilidades é a maior (e única) diversão
Viajar para lugares distantes se torna interessante a partir do momento em que você fica completamente perdido, apenas com uma vaga noção do lugar do planeta onde está. E isso é uma grande tortura, pois o maior vício de quem está viajando é se perguntar a todo momento “que lugar é esse?”. Tudo bem que no meu caso não havia porque ficar alarmado, pois tinha a certeza de que mal ou bem estaria em Brasília ao meio-dia. Mas mesmo com essa certeza, minha mania de acompanhar cada passo no mapa estava me matando. Resolvi revirar a mochila para pegar o guia de viagem e o mapa, para ter noção de onde estava. Foi aí que tive a minha primeira surpresa: havia esquecido o mapa e o guia.
Não importa o quão prevenido você seja, sempre vai faltar alguma coisa importante na mochila. Era com aquele mapa que pretendia calcular as minhas escalas, saber o que ver, onde dormir. Minha rota só estava planejada até Barreiras. De lá em diante, ingressaria na Transpiauí e me deixaria levar em seu ritmo. Sabia que algo daria errado, mas me surpreendi com a velocidade com que isso aconteceu. A saída era tentar lembrar dos mapas mimeografados do primário.
Sem referência alguma nas mãos até o dia seguinte, a única solução para satisfazer minha mania idiota foi buscar na escuridão da estrada um indício de onde estaria. Procurei alguma placa de trânsito, posto de polícia, borracharia batizada com o nome da cidade. Nada. A solução foi esperar até a primeira parada, mas também não adiantou muito. Era um restaurante de beira de estrada bem fudido, vazio e sem nome. Procurei alguma pista na tradicional lojinha de artesanato, típica desses lugares. Canecas de times de futebol, santinhos de madeira, panos bordados... Cheguei à conclusão de que não adiantava insistir. Essas lojinhas de beira de estrada seguem um padrão bizarro semelhante ao do McDonald’s, são iguais em qualquer canto do mundo.
Provavelmente o meu “drama” terminaria se eu simplesmente perguntasse para um funcionário da lanchonete em que cidade estava. Muito simples, mas não queria dar o braço a torcer. Era minha obrigação descobrir onde estava com os meus próprios meios. Na verdade, era mais uma diversão do que obrigação. Era o jeito para manter a cabeça ocupada e tentar driblar o tédio de uma estrada interminável. Quando subi no ônibus, um policial militar me deu indícios de que já estava em Minas Gerais. Não porque o PM surpreendentemente não me interpelou para tentar extorquir alguma grana para a cervejinha, como qualquer membro da corporação carioca, mas porque sua farda ostentava o brasão do estado mineiro.
A madrugada foi passando e o tédio crescendo. Era impossível dormir. Não apenas pela falta de conforto de um ônibus em movimento, mas também pelo meu estilo de vida noctívago. Para cumprir todas as minhas obrigações na internet, fico acordado até as cinco ou seis da manhã, quando a tarifa telefônica é mais barata. Meu relógio biológico é completamente deturpado, por isso perdi as esperanças de voltar a viver nos horários de um ser humano normal.
Só consegui cochilar quando o sol já estava aparecendo, mas logo fui acordado por uma algazarra no ônibus. Um monte de crianças argentinas (ou paraguaias, ou colombianas, ou bolivianas, ou qualquer outra merda latina dessas) corria pelo ônibus. Os filhotes de cucarachas surgiram do nada, exclusivamente para tirar minhas esperanças de dormir. Provavelmente foram pegos em algum ponto da estrada pelo corno do motorista.
Sem esperanças de dormir novamente, fui ao banheiro lavar o rosto e tirar uma água do joelho. Para minha surpresa, a privada estava limpinha, ao contrário do resto do banheiro, completamente mijado. Fui abrindo o zíper ao mesmo tempo em que xingava o povinho mal-educado e filho da puta desse país. Mas aí descobri que nem mesmo com muita boa vontade dava para mijar no alvo. Se fazer isso em casa, em solo firme e numa privada grande, já é uma tarefa que exige muita concentração, imagine num buraco com a circunferência um pouco maior que a de um copo, com o ônibus em movimento, passando por buracos e fazendo curvas. Em apenas três segundos o seu maior objetivo não é mais mirar no vaso, e sim não se mijar. A preocupação com algumas gotas de urina na calça fazem o “individual” prevalecer automaticamente sobre a “coletividade”. “Foda-se todo mundo, o importante é que eu fique limpo”. Esse simples episódio tirou toda a minha utopia do comunismo ainda poder dar certo em algum lugar do mundo. O meu sonho de ver uma sociedade justa foi por água abaixo. Fiquei extremamente abalado! Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar, tentando inutilmente conter as lágrimas que ameaçavam cair.
Ainda faltavam quatro horas para chegar em Brasília. Abalado emocionalmente e sem poder dormir, a única alternativa para me distrair foi ficar pensando em coisas fúteis, como na tragédia que faz nós homens sermos tão imprecisos na hora de mijar. Cheguei à conclusão de que se trata de um problema de “variabilidade do instrumento”. Cada vez que urinamos, o pênis se encontra em um formato diferente: mais duro, mais mole, inclinado para a esquerda ou para a direita, amassado, grudado, embolado em pentelhos, recolhido... Enfim, são milhares de combinações possíveis que fazem com que nunca possamos contar com uma configuração constante para calibrarmos a mira com precisão. Nem mesmo o campeão mundial de tiro ao alvo deve ser capaz de não mijar na tábua, pois ao contrário de sua espingarda, confiável e constante, seu pênis sempre está com um temperamento diferente quando é sacado da cartucheira. A única solução para o problema do xixi no chão do banheiro seria um decreto obrigando os homens a também mijarem sentados. Mas no dia que formos submetidos a isso certamente não seremos mais “homens”.
Mas chega de filosofar sobre a influência do pênis na psicologia humana. Esse lance de ficar pensando no comportamento do caralho por mais de 15 minutos é coisa de viado ou de discípulo da escola freudiana, o que no final das contas dá no mesmo. É hora de aproveitar a já abundante luz do sol para admirar o cerrado brasileiro. Descobri que não há algo melhor para cair no sono, pois a paisagem era quase tão repetitiva como as piadas do Zorra Total . Um Lexotan com uísque não seria tão eficiente. Consegui dar uma boa cochilada até chegar nas proximidades de Brasília.
Fui acordado com os ares, ou melhor, com os odores de nossa capital federal. Respirei fundo e me entorpeci com o pútrido cheiro do poder. Moro na segunda maior metrópole do país, mas confesso que fiquei um pouco assustado naquele momento, como se eu fosse um menino ingênuo da roça prestes a descobrir a crueldade da cidade grande. Meu coração se encheu de insegurança com o que estava por vir .
Comentários (18)
consegui chegar até o 2º capítulo, ainda não li nada de interessante, vamos ler mais um capítulo pra ver se isso melhora...
Postado por vinicius | dezembro 6, 2007 9:54 AM
Posted on dezembro 6, 2007 09:54
ri um pouco. mas bem pouco mesmo.
Postado por tiago | dezembro 6, 2007 11:34 AM
Posted on dezembro 6, 2007 11:34
Porraaa, otima desculpa pra eu dar pra minha mãe:
"eu n acertei o vaso pq estava concentrado em manter limpa minha honra masculina, mantendo minha calça sem resquicio d urina...
alem d q, cada vez q saco minha cartucheira, ela está com uma forma diferente"
Postado por Caram | dezembro 6, 2007 1:18 PM
Posted on dezembro 6, 2007 13:18
(...)Para cumprir todas as minhas obrigações na internet, fico acordado até as cinco ou seis da manhã, quando a tarifa telefônica é mais barata(...)
Elemento que contextualiza o livro a epoca heheheheh Oh epoca triste de pulso unico
Postado por lucas | dezembro 7, 2007 9:28 AM
Posted on dezembro 7, 2007 09:28
Tô chegando...
Postado por Dani | dezembro 7, 2007 6:17 PM
Posted on dezembro 7, 2007 18:17
Tô chegando...
Postado por Dani | dezembro 7, 2007 6:18 PM
Posted on dezembro 7, 2007 18:18
Sinceramente, não vi a menor graça no primeiro capitulo. Sou baiano e já visitei boa parte do Piauí, não acredito que lá seja “cu do mundo”, pra mim o “cu do mundo” teria um significado mais amplo, tipo, as pessoas sem cultura, sem conhecimento, sem maturidade e sem criatividade para fazer livros descentes.
Postado por Levier Felipe | dezembro 12, 2007 2:52 AM
Posted on dezembro 12, 2007 02:52
Cu do mundo, pra mim, é um lugar onde as pessoas nem conseguem escrever deCentemente.
Postado por Renato | dezembro 12, 2007 3:02 PM
Posted on dezembro 12, 2007 15:02
Muito bom... chorei de rir em vários trechos, principalmente na parte em que o baiano fica indignado.
Postado por Guilherme | dezembro 14, 2007 3:53 PM
Posted on dezembro 14, 2007 15:53
A parte do Baiano é boa demais mesmo...
Postado por nem | dezembro 14, 2007 4:19 PM
Posted on dezembro 14, 2007 16:19
hahah "tipo, as pessoas sem cultura, sem conhecimento, sem maturidade e sem criatividade para fazer livros descentes."
malditos dançarinmos de axé.
Postado por Gustavo | dezembro 15, 2007 11:44 AM
Posted on dezembro 15, 2007 11:44
hahah "tipo, as pessoas sem cultura, sem conhecimento, sem maturidade e sem criatividade para fazer livros descentes."
malditos dançarinmos de axé!(nada contra a carla perez ).
Postado por Gustavo | dezembro 15, 2007 11:46 AM
Posted on dezembro 15, 2007 11:46
Cu do mundo pra mim é um lugar onde as PESSOAS não tem senso de humor.
Postado por André Coelho | dezembro 15, 2007 4:27 PM
Posted on dezembro 15, 2007 16:27
cu do mundo é onde vcs estão , onde não se tem NADA pra fazer. Senso de humor? Realmente brasileiro é muito imbecil
Postado por karla | dezembro 16, 2007 9:14 AM
Posted on dezembro 16, 2007 09:14
Chorei de dar risada, que merda
Postado por Paulo | dezembro 17, 2007 8:20 PM
Posted on dezembro 17, 2007 20:20
Consegui terminar o segundo capítulo. Estou lendo este livro, mais para ver mesmo qual a visão do autor sobre o Piauí. Até que consegui rir de algumas coisinhas que eram muito apelativas.
Postado por André Luiz | dezembro 17, 2007 8:36 PM
Posted on dezembro 17, 2007 20:36
da um descontado pro baiano, pra ele entender tem que ajudar ele a pegar no tranco poxa =/
Postado por Caulfield | dezembro 17, 2007 11:04 PM
Posted on dezembro 17, 2007 23:04
da um descontado pro baiano, pra ele entender tem que ajudar ele a pegar no tranco poxa =/
Postado por Caulfield | dezembro 17, 2007 11:05 PM
Posted on dezembro 17, 2007 23:05