Um grande desafio para a imaginação
Quando desci do ônibus, fui direto ao ponto de moto-táxi pedir informações. Antes mesmo que eu abrisse a boca, o primeiro da fila já foi perguntando:
– Tá indo para o parque?
Nem vou dar créditos por ele ter adivinhado. Afinal, o que mais alguém poderia ir fazer em Piripiri ?
– Tô indo, sim. Qual é o esquema para chegar até lá?
– Tem um ônibus que sai às cinco da manhã e volta às cinco da tarde. Mas pra você agora só dá para ir de táxi ou de moto-táxi. Eu te levo até lá por 40 reais.
– Quarenta reais? Tá maluco, rapá? – agora, mais do que nunca, era vital pechinchar.
– É o preço. Pode perguntar ali no centro de informações pro turista . É que a distância é muito grande, quase 50 quilômetros, ida e volta. Lá também posso deixar a minha moto com o guia, aí você entra no parque com ele e visita tudo rapidinho. Se for a pé, você não vai conseguir ver só uma ou duas cidades porque as distâncias entre elas são muito grandes. Pra piorar, já são três horas. O parque fecha às cinco.
– Além dos 40 ainda tenho que pagar um guia?
– Isso. São dez reais pro guia e três pra entrar no parque.
Não estava acreditando que aquela brincadeira toda iria me custar quase 60 reais. Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar, tentando inutilmente conter as lágrimas que ameaçavam cair. Tá certo que para alguns privilegiados 60 pratas é merreca, mas para mim... Fazendo umas contas rápidas, vi que teria que vender mais de 30 exemplares desta merda de livro para as migalhas do direito autoral recuperarem o “investimento” feitos só nessas duas horas de folia. Pensei seriamente em desistir da visita, mas aí me lembrei do meu ditado preferido, que nessa peregrinação através do Piauí foi promovido ao meu mantra: “Já que estamos na porta do inferno, não custa nada entrar e dar um abraço no diabo.”
Sem muito tempo para chorar, fechei com o piloto e parti para o parque. Dessa vez, deixei a mochila num guarda-volumes bem baratinho da rodoviária, o preço de uma cachaça, como disse o zelador.
E lá fui eu, outra vez cortando velozmente o asfalto da Transpiauí na garupa de uma moto. O trajeto realmente era mais longo daquele que eu havia feito na Serra da Capivara, mas o piloto dessa vez deixou a moleza de lado e chegamos lá em pouco mais de vinte minutos. Isso me dava exatamente uma hora e meia para rodar toda a área do parque e conhecer as “sete cidades”.
Na guarita do Ibama, repeti o mesmo ritual do parque anterior: assinar um termo de compromisso e dar três reais para os cofres públicos. Em troca, recebi um folheto com um mapa e uma resumida explicação do que pode ser encontrado no local. Ao contrário da Serra da Capivara, Sete Cidades é muito mais conhecido pelas formações rochosas em formatos intrigantes. Em alguns sítios é possível ver pinturas rupestres também, mas não tão abundantes como as da Capivara.
Os ditos “monumentos geológicos”, ou melhor, “pedras com formato engraçado” se dividem em sete pequenos agrupamentos na área do parque, daí o nome Sete Cidades. Para visitar tudo é necessário fazer uma caminhada de quase oito quilômetros, o que seria tarefa para uma tarde inteira. Por sorte o motoqueiro disse que emprestaria a moto para o guia.
Depois da guarita, ainda percorremos cinco quilômetros através de uma estrada de terra até chegar ao centro de visitantes. A mata na beira da estrada era bem mais densa do que a do sul do estado. Segundo o folheto, “Sete Cidades é o lugar ideal para ver a vegetação típica de transição entre os ecossistemas do cerrado e da caatinga”. O motoqueiro disse que naquela área havia muitos animais de médio e até grande porte. Segundo ele, é bem comum ver onças cruzando a estrada durante a noite. Por mais fascinante que seja esse animal, não estava nem um pouco a fim de ficar frente a frente com um deles. As únicas onças que gosto estão nas notas de 50 reais . Olhei para o relógio e disse:
– Onça? Tomara que o seu pneu não fure...
O centro de visitantes também era muito bem estruturado. Os guias ficam em uma sala aguardando os poucos visitantes que aparecem, se revezando para garantir pelo menos uma saída por dia. Estava na vez de uma garota, mas como nenhum de nós dois sabia dirigir a moto, tive que me contentar com um cara que era o próximo da fila. Ele também não sabia dirigir muito bem, mas era o “menos pior” disponível. Foi uma pena não ter ido com a garota, pois meus comentários jocosos são muito mais brilhantes quando estou em companhia feminina. Não tem nada a ver com interesse sexual, mas isso certamente também pode ser explicado através da ação dos feromônios.
O guia, muito sem jeito, pegou a moto e tentou dar a partida. Depois de várias tentativas, finalmente ela pegou. Olhei para o motoqueiro com uma cara de desconfiança, mas aí vi que ele estava muito mais preocupado que eu. Imagino que, para um cara desses, abrir a mão da moto para outra pessoa é a mesma coisa que “emprestar a namorada”. Ver aquele baixinho trôpego tentando se equilibrar em cima de sua amada não estava o deixando nada animado. Mesmo diante de tanto perigo, me enchi de coragem e subi na garupa. Pelo menos do chão a gente não passava.
Devagar e cambaleantes, iniciamos o trajeto por uma estradinha de terra cheia de pedras soltas, um verdadeiro perigo para quem está sobre duas rodas. Depois de várias derrapadas, seguidas de suspiros de alívio por ainda estarmos de pé, chegamos na primeira “cidade”. Na verdade, não era a primeira, mas a sexta. O circuito não é feito na ordem. Estacionamos a moto e demos alguns passos até uma grande pedra, bem redonda, com quinze ou vinte metros de altura. A sua superfície era bem trincada, semelhante à imagem do solo ressecado do sertão nordestino, parecidas com escamas rústicas. Foi aí que o guia me falou:
– Essa é a Pedra da Tartaruga!
Tartaruga? Tudo bem que a parada era grande, redonda e tinha essa “escamosidade” rústica, mas porra, achei que para aquilo ser uma tartaruga ainda faltava muita coisa. Andamos um pouquinho mais para o lado e vimos uma outra pedra grande, um pouco mais ondulada e com um prolongamento semelhante a um escorregador de parque.
– Essa é a Pedra do Elefante. Repare na tromba!
Elefante? Tromba? Não fode! As pedras eram até legais e não posso colocar em descrédito a sua beleza e imponência, mas acho que a criatividade do indivíduo que as batizou estava “aditivada” com alguma substância química, se é que vocês me entendem.
Esse parque deve ser um paraíso para a galerinha que curte um ácido. Com um selinho de LSD debaixo da língua daria para ver uma tartaruga ninja, um elefante rosa e ainda por cima trocar com os dois altas idéias sobre os magníficos solos do Jimi Hendrix. A merda é que eu não podia nem comprar umas latinhas de cerveja para tentar entrar no clima. Cocei a cabeça, tirei umas fotos e disse que estava pronto para conhecer a próxima cidade. Ele precisou mais uma vez de várias tentativas na hora de dar a partida na moto. Estava sentindo cada vez menos firmeza nas habilidades motociclísticas do guia.
Fomos até a segunda cidade, conhecida por algumas pinturas rupestres curiosas, além de um mirante de onde é possível visualizar todo o parque. Estacionamos a moto no início de uma trilha e caminhamos em direção às formações rochosas. A trilha passava por baixo de um arco de pedra bem alto, com uns quinze metros. Mais uma vez, o cara faz uma intervenção surpreendente:
– Esse aqui é o Arco do Triunfo. Muitas pessoas sentem coisas estranhas quando passam por ele. Há vários relatos de acontecimentos bizarros durante a noite...
Uau! Quanto mistério... Nem me dei ao trabalho de responder. Só fiz uma cara cínica de espantado e continuei andando. O clima de “filme de terror de baixo orçamento” era tão grande que já estava esperando algum moleque contratado pelo Ibama pular de uma moita gritando, só para tentar me assustar naquele estilo mulambento das pegadinhas do João Kléber.
Mais à frente, existe um paredão cheio de pinturas. A maioria era semelhante às da Serra da Capivara, mas o guia fez questão de destacar duas:
– Olha essa aqui. Com o que parece?
– Sei lá.
Ele me olhou com insistência, fazendo questão que eu respondesse algo. Fiquei com pena e acabei fazendo um esforço.
– Um peixe?
– Não.
– Uma ave?
– Não! Você não tá vendo que é um avião? Olha aqui! As asas, o corpo, o leme...
Tirei os óculos escuros, olhei o desenho bem de perto e voltei a olhar para o guia.
– Um avião, né? Tá certo...
– Não é impressionante? Será que há doze mil anos eles tiveram algum tipo de contato com essa tecnologia?
– Porra, cara, não sei. Mas se tiveram, com certeza não gostaram da comida de bordo fria... Devia ser complicado fazer uma fogueira lá em cima para esquentar tudo.
– Re, re, re! É mesmo!
Nossa, que comentário podre! Poderia ter feito muito melhor caso estivesse sendo guiado pela garota que não sabia dirigir a moto. O guia foi até a outra ponta do paredão e disse:
– Olha esse aqui, parece com o quê?
– Com uma mão.
– É, uma mão! Mais olha quantos dedos ela tem...
– Um, dois, três, quatro, cinco...seis.
– Viu só! Uma mão de seis dedos! É uma das coisas mais misteriosas aqui do parque!
Sério, desta vez tinha ficado realmente intrigado. Nunca tinha visto algo tão espetacular. Qual seria a explicação para este enorme mistério? Polidactilia? Homem das cavernas burro que não sabia contar? É claro que não! A única explicação razoável para aquele desenho era a lenda de que o Piauí já havia sido habitado por alienígenas, possivelmente desembarcados de uma espécie de aeronave primitiva. Se não fosse isso, como é que uma pessoa teria a estupenda idéia de desenhar uma mão de seis dedos?
Daqui a dez mil anos, os futuros habitantes deste planeta estarão desenterrando os restos de nossa civilização e tirando sábias conclusões sobre o nosso modo de vida. Certamente haverá uma carreira acadêmica especializada em decifrar as escritas de nossos muros, especulando sobre algum poder místico nas palavras sem sentido escritas pelos pichadores. Imagine o seu tatataraneto visitando num museu arqueológico um desses coloridos murais de grafiteiros, com um monte de humanóides cabeçudos usando gorros e andando de skate. O que será que ele vai pensar da gente?
Depois de tanto mistério, já era hora de fazer algo relaxante. Seguimos por uma trilha que levava até o topo de uma rocha. Lá em cima existe um mirante de onde pude observar o parque inteiro, vendo claramente cada agrupamento de pedras que formava as Sete Cidades. A paisagem era realmente muito bonita e tive vontade de ficar ali mais tempo, mas só faltava uma hora para o parque fechar e ainda tinha que conhecer as outras cinco cidades.
Os sítios seguintes eram bem menores do que os dois primeiros. Vi uma sucessão de pedras em formato de moicano, camelo, lagarto, canhões, mapa do Brasil. Enfim, uma infinidade de coisas para eu tentar exercitar a minha imaginação. Percorremos rapidamente quatro cidades e só faltava mais uma. O guia, fazendo uma cara maliciosa, me garantiu que havia guardado o melhor para o final.
Fomos andando pelo sítio e ele começou a mostrar algumas formações. Falou sobre o “furo solsticial”, um buraco feito pelos homens pré-históricos por onde o sol brilhava no solstício de verão. Depois, apontou para o “Dedo de Deus”, uma rocha supostamente em forma de dedo apontando para o céu. E, finalmente, a “grande surpresa”:
– Olha para aquela rocha ali. É o Segredo da Mulher!
– Ah, tá. – respondi sem entusiasmo.
– Você não tá entendendo! É o “Segredo da Mulher”!
– Tá bom.
– Cara! É o Segredo da Mulher! Segredo! Mulher! Ali na pedra!
– PORRA, MALUCO, EU JÁ PERCEBI QUE COM MUITA BOA VONTADE AQUELA PEDRA SE PARECE COM UMA BUCETA! NÃO PRECISA REPETIR!
O guia me olhou assustado, talvez nunca alguém tivesse sido tão franco ao ser apresentado ao “segredo da mulher”. Para quebrar o silêncio de espanto, olhei para uma outra pedra que ficava ao lado e perguntei:
– E aquele ali? É o “segredo do homem”?
– Não! É o perfil de Dom Pedro I!
Juro que a pergunta foi honesta. O tal Perfil de Dom Pedro parece muito com um gigantesco caralho de pedra apontando para o céu. Como aquela cidade é cheia de coisas eróticas, não seria nada absurdo caso aquela pedra se chamasse o “segredo do homem”. Tive que dar uma sacaneada no carinha, afinal ele já estava há quase duas horas enchendo o meu saco com todas aquelas pedras e suas lendas.
– Fala sério. Você não acha que parece muito mais com um pênis?
– É, olhando daqui parece mesmo.
– Olha só! Ainda tem essas duas pedras redondas na base!
– Tem mesmo.
– Não faria muito mais sentido caso vocês mudassem essa historinha de Dom Pedro e fizessem uma lenda envolvendo o “segredo do homem e da mulher”? Um está do lado do outro! É meio óbvio, não é? Dava para mudar o nome dessa cidade para “cidade dos prazeres”, ia encher de turista balzaqui- ana com fogo no rabo. Não ia demorar pro Fábio Júnior vir gravar um clipe aqui!
– Ia mesmo!
– Porra, o Ibama não tem departamento de marketing? Se vocês fizessem um folheto anunciando que aqui tem um caralho de pedra com dez metros de altura, isso aqui ia encher de turista europeu. O povo lá se amarra!
– É mesmo?
– É, porra! Lá na Europa só tem aquelas estátuas no estilo grego, com carinhas musculosos de pau pequeno. Os viados de lá iam ficar doidinhos com isso aí.
– Eu, hein...
– Tô te falando, rapá... Sugere isso pro teu chefe, com certeza você vai ser promovido.
Não acredito que fiquei mais de cinco minutos falando sobre o suposto potencial daquela pedra fálica. Mais uma vez, lamentei não ter vindo com a guia. Com certeza o meu projeto ficaria muito mais interessante caso pudesse discuti-lo com ela.
Faltavam apenas quinze minutos para o parque fechar e já era hora de voltar. Por alguma razão, o guia não conseguia dar a partida na moto, talvez por ter ficado nervoso com o “segredo do homem”. Ele teve dificuldades em todas as outras paradas, mas nessa estava sendo demais. Ficou mais de cinco minutos “pedalando” naquela manivela de arranque sem conseguir nada. Chegou a ficar com a perna cansada e teve que dar um tempo. Preocupado com a hora, me ofereci para tentar algumas vezes. Nunca tinha feito aquilo na vida, logo o resultado foi meio óbvio. Depois de quatro ou cinco tentativas frustradas, perdi o equilíbrio e quase tombei com a merda da moto.
A noite se aproximava e me lembrei da história das onças. Não queria ficar para conferir. O carinha estufou o peito e tentou mais algumas vezes. A moto continuava sem dar sinal de vida. Mesmo assim, ele insistiu, pois se perdêssemos mais tempo o maior prejudicado seria ele. O ônibus para a cidade saía às cinco da tarde e se ele perdesse não teria como voltar. Como eu estava com o moto-táxi, não precisava me preocupar. Pelo menos não com essa parte do problema.
O tempo passava e o guia ficava cada vez mais desesperado. O maluco já estava todo suado e com a perna doendo. Já quase sem força, ele finalmente conseguiu dar a partida. Subi na garupa e voltamos rápido. Chegamos ao centro de visitantes às cinco e cinco. Para sorte dele, o ônibus tinha atrasado um pouco. O dono da moto andava de um lado para o outro, preocupado com a demora, achando que tínhamos sofrido um acidente. Pra falar a verdade, acho que ele estava mais preocupado com a moto do que com a gente.
Já estava escurecendo quando chegamos na cidade. Nem tive tempo de explorar o centro de Piripiri . Fiquei na rodoviária para comprar a passagem para o meu próximo e último destino: Parnaíba. Dentro de três horas estaria chegando na segunda maior cidade do Piauí e ficaria bem perto de meu objetivo final. Mas a Transpiauí é traiçoeira e, talvez sentindo um mau presságio, não quis cantar vitória antes da hora.
Comentários (9)
Você tá mais para professor de história sacaninha do colegial do que prá geólogo.
Postado por Dani | dezembro 9, 2007 8:41 PM
Posted on dezembro 9, 2007 20:41
Dirigir a moto é foda, hein?
Postado por Lucas | dezembro 15, 2007 10:09 PM
Posted on dezembro 15, 2007 22:09
Esse foi o pior capítulo de todos.
Você ver erotismo(pra não falar sacanagem,p...) em tudo.É falta de sexo?
Postado por Layla | dezembro 20, 2007 9:29 AM
Posted on dezembro 20, 2007 09:29
Dessa vez eu nem me interessei pelo capítulo, fui direto pros comentários e quebrei a cara. Será que os piauienses se cansaram? Logo quando começava a ficar bom?
Postado por Mauro | dezembro 21, 2007 1:49 PM
Posted on dezembro 21, 2007 13:49
Rolei de dar risada, fico imaginado o coitado do guia contando essa estória depois...
Postado por Anonymous Coward | dezembro 22, 2007 2:39 PM
Posted on dezembro 22, 2007 14:39
Bom capítulo. Mas, não precisava sacanear tanto o pobre que só estava fazendo o seu trabalho. Ibama com marketing...
Postado por armando | dezembro 23, 2007 12:10 AM
Posted on dezembro 23, 2007 00:10
Mais um capítulo sem graça.
Postado por Paulo Viana | dezembro 23, 2007 2:03 PM
Posted on dezembro 23, 2007 14:03
Fraco... Sua auto-estima deve ser muito boa pra ter coragem de publicar esse livro. E nem sou piauiense, li por curiosidade mesmo...
Postado por André Fernandes | dezembro 30, 2007 5:19 PM
Posted on dezembro 30, 2007 17:19
Esse foi a melhor descrição de sete cidades que eu já vi. Não li os outros, mas esse capitulo tá perfeito.
A pedra de pedro II mais parece um caralho mesmo!
Postado por Erick | fevereiro 15, 2008 8:51 PM
Posted on fevereiro 15, 2008 20:51