O Templo dos Heróis
É claro que a mulher nua não existiu! Quando falta conteúdo, o segredo é apelar para o sexo, e não existe cidade mais “sem conteúdo” do que Teresina. Se você se deixou enganar e começou a leitura deste capítulo aguardando algo picante, em todos os sentidos, só lamento. Mas também, tem que se muito mané para acreditar nessa história inconsistente e cheia de falhas:
Mulher bonita no Piauí?
Convidando para sexo aplicando corretamente uma ênclise na frase “possua-me agora”?
Taras sexuais com geólogos?
E em Papai Noel? Você também acredita?
Acordei cedo para dar uma última volta por Teresina antes de partir para Piripiri , onde fica o Parque Nacional de Sete Cidades. Não podia deixar a capital sem conhecer o Centro Municipal de Artesanato e o Museu do Piauí.
Caminhei até o museu, ansioso para descobrir os segredos que cercam a história desse curioso estado. Como era cedo, fui um dos primeiros visitantes a entrar. Não tinha nenhuma visita guiada, pelo menos naquele horário. Tive que me virar sozinho e fiquei meio perdido, sem saber o que ver. O acervo do museu é até legal, com muita coisa sobre o “passado pré-histórico” do estado, como fósseis encontrados na Serra da Capivara. Também vi muitos documentos e fotos representando o seu “presente pré-histórico”.
Não me prendi muito nos fósseis e pinturas rupestres, afinal já tinha visto isso no domingo. Meu maior objetivo era descobrir a origem do Piauí, como o estado foi fundado e porque ele tem esse formato tão peculiar. Existem várias teorias sobre o assunto. Uma delas diz que o Piauí foi fundado por alienígenas que fizeram clones de si mesmo para povoar o estado. Não sei se é verdade, mas pelo menos era o que estava escrito num folheto que um carinha com um corte de cabelo esquisito e vestido todo de branco distribuía pelos corredores.
Também dizem que o Piauí foi criado para corrigir um erro de cálculo, já que nos primórdios da colonização não havia nenhuma menção ao estado. Existiam apenas as capitanias hereditárias do Ceará e do Maranhão, que ocupavam uma faixa horizontal do território que ia do litoral até o meridiano de Tordesilhas. O problema é que a cartografia da época era muito imprecisa, principalmente os mapas do interior brasileiro.
Depois desse primeiro período de colonização, os cálculos de distâncias tornaram-se mais precisos e os portugueses perceberam que havia um “grande hiato” de terras desocupadas entre o Ceará e o Maranhão. Quanto maior a distância do litoral, maior eram os erros de cálculo. Por isso o estado é muito estreito no litoral e vai progressivamente “engordando” em seu interior. A coroa portuguesa resolveu, então, dar o nome de Piauí para esse enorme pedaço de território misteriosamente surgido do nada. Esse episódio também é o que melhor explica a origem do nome “piauí”, pois no idioma dos antigos índios locais, os Tabajaras , “pi” significa “marcar” e “auí” significa “vazio”. Até hoje a imprecisão nos cálculos das distâncias feitos pelos portugueses ainda causam problemas na região. A fronteira leste, dividida com o Ceará, é motivo de uma grande tensão regional. Em vários mapas, inclusive o do meu guia de viagem, é possível ver uma dupla demarcação em torno de uma faixa de terra que é disputada pelos dois estados.
Mas tudo isso não passa de especulação. A versão mas aceita para o surgimento do Piauí é a da povoação através das comitivas de gado. Uma lei impedia que os grandes rebanhos ficassem no litoral, obrigando os criadores a conduzir o gado pelo sertão em busca de pastagem, praticamente como nômades. Com o passar do tempo, essas rotas formaram importantes estâncias no interior do Nordeste. Essas estâncias originaram cidades, que por sua vez acabaram constituindo um estado, o primeiro da colônia a nascer e crescer do interior até o litoral. Meio sem graça, como todas versões oficiais. Ainda prefiro acreditar no folheto dos alienígenas.
Saí do museu consciente de que tinha aprendido um pouco mais sobre o estado mais esquecido do Brasil. Agora só faltava comprar algumas lembrancinhas. Fui até o Centro de Artesanato, onde se agrupam várias lojas vendendo aquelas típicas bugigangas para turistas. A coisa mais interessante que vi foi uma barraquinha que vendia literatura de cordel. Comprei mais de dez, dentre eles vários falando sobre temas recentes como Osama Bin Laden, George Bush e Lula. Não sei se alguém já pesquisou isso, mas tenho a impressão do cordel ser a literatura perfeita para se ler no banheiro . Investi uma boa grana só para animar as minhas cagadas durante as semanas seguintes.
De resto não me interessei por nada. Qualquer cachacinha com um bicho estranho afogado dentro da garrafa custava mais de dez contos, o que estava completamente fora do meu orçamento. Para não ficar apenas no cordel, resolvi comprar também uma camiseta com a bandeira do Piauí e a frase “100% piauiense”. Achei que ia ser legal se a usasse no Rio, nem que fosse para brincar com os amigos.
Vi que o lado turista já estava desvirtuando o meu espírito peregrino. Estava na hora de voltar ao hotel, fechar a conta e partir para a rodoviária. Tinha que voltar urgentemente a sentir o calor do asfalto da Transpiauí.
Já era quase meio-dia quando cheguei na rodoviária. O ônibus para Piripiri sairia em dez minutos.
A tradição de catar todos os cornos na beira da estrada se repetiu. A cada quinze minutos, alguma figura bizarra subia ou descia do ônibus. Isso deixava a viagem mais longa e aumentava o meu medo de não ter tempo suficiente para conhecer o Parque das Sete Cidades.
A paisagem tinha se modificado em relação às viagens anteriores. Os campos eram menos secos e havia muitas palmeiras de carnaúba, a árvore que movimenta a economia local. Em quase todos os pequenos vilarejos que passávamos, pequenos galpões anunciavam a compra e venda da folha de onde se extrai a cera. Já estava no último terço da Transpiauí e era a primeira vez que avistava algum esboço de agricultura organizada. Indícios que confirmam que a região norte do estado é economicamente mais desenvolvida, ou melhor, menos atrasada do que a sul.
Depois de uma hora e meia de viagem, entramos na cidade de Campo Maior. Uma placa imensa informa: “Campo Maior, terra de heróis”. O slogan se espalha por quase todas as esquinas. Paramos na rodoviária e desci para comprar uma água. A mesma coisa estava escrita nos muros, bancos e até mesmo nos banheiros. Quando voltamos à estrada, logo passamos por um grande monumento, muito semelhante ao Monumento aos Pracinhas da Segunda Guerra que fica no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro.
Achei que o mistério estava desfeito. Provavelmente a nomenclatura “cidade de heróis” devia-se a algum pelotão de soldados piauienses que foi convocado para sair de Campo Maior e lutar com a Força Expedicionária Brasileira da Segunda Guerra Mundial. Daí a semelhança entre os dois monumentos e tanta propaganda na cidade.
Mas estava errado. Depois descobri que os heróis de Campo Maior não lutaram na Segunda Guerra, mas sim na época da independência do Brasil. Taí uma coisa que ninguém se preocupou em me explicar nas sete mil vezes que me ensinaram história do Brasil. Provavelmente a Batalha do Jenipapo é um fato que até mesmo os meus professores ignoravam.
Enquanto a declaração de independência foi recebida com certa tranqüilidade no Sudeste, sem grande contestação ou derramamento de sangue, no Piauí a porrada comeu. Por algum motivo obscuro, os portugueses não queriam abrir mão tão facilmente do estado que hoje é desprezado pelo resto do país. As tropas da coroa portuguesa ocuparam a região norte do Piauí, combatendo as tropas separatistas formadas por cidadãos piauieses e alguns voluntários do Ceará. No dia 13 de março de 1823, nas margens do Rio Jenipapo, em Campo Maior, foi travada a mais sangrenta (e provavelmente única) batalha entre brasileiros e portugueses pela independência. Nela, os soldados piauienses defenderam a soberania da nação com suor e sangue, se transformando em verdadeiros heróis. Mas tudo que receberam como recompensa foi uma réplica tosca de um prédio do Oscar Niemeyer e o desprezo dos livros de história editados no Sudeste.
Pensei em todas aquelas vidas desperdiçadas. Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar, tentando inutilmente conter as lágrimas que ameaçavam sair de meus olhos. Com um peso enorme no coração, comecei a arrumar as minhas coisas. Já eram quase três horas da tarde e estávamos chegando em Piripiri.
Comentários (20)
"tem que se muito mané para acreditar nessa história inconsistente e cheia de falhas:" seria "tem que ser muito mané para acreditar nessa história inconsistente e cheia de falhas:"
Postado por Anselmo Braga | dezembro 5, 2007 5:08 AM
Posted on dezembro 5, 2007 05:08
Por enquanto, o capítulo mais chato do livro...
Postado por Thiago | dezembro 6, 2007 1:29 PM
Posted on dezembro 6, 2007 13:29
Não é "terra de heróis", é "berço de heróis" o slogan que um ex-prefeito de Campo Maior mandou pintar na cidade inteira. De resto, está tudo certinho.
Postado por PG | dezembro 7, 2007 12:03 AM
Posted on dezembro 7, 2007 00:03
quanto tempo desperdiçado.
Postado por Tiago | dezembro 7, 2007 9:25 AM
Posted on dezembro 7, 2007 09:25
Agora sim... as fotos!
Postado por Dani | dezembro 9, 2007 8:29 PM
Posted on dezembro 9, 2007 20:29
fazia tempo que vc não cravava a unha...
Postado por marcel | dezembro 9, 2007 10:43 PM
Posted on dezembro 9, 2007 22:43
Esse foi dose de ruim, viu...
Postado por nem | dezembro 15, 2007 3:57 PM
Posted on dezembro 15, 2007 15:57
Tudo certo, PG?
~> “pi” significa “marcar” e “auí” significa “vazio”
Fala sério. Todo mundo sabe que é uma referência ao peixe que era comum: Piau.
~> "Mulher bonita no Piauí?"
Passou por Teresina e não viu o melhor.
~> "o primeiro da colônia a nascer e crescer do interior até o litoral."
Essa foi a primeira teoria proposta e aceita pelos historiadores. Mas sabe-se hoje que há uma outra além dessa, que é das Expedições dos Sertões de Fora. Essa relatada é a dos Sertões de Dentro. Foi constatada que a dos sertões de fora aconteceu antes.
~> "foi travada a mais sangrenta (e provavelmente única)"
Até chegar aí teve confusão em Parnaíba e Oeiras. Sem falar das outras batalhas que aconteceram nas províncias da Cisplatina, Bahia e do Pará.
É Mr. Manson, criticar sem conhecer é teu forte mesmo. Eu sou piauiense e tava até sabendo lidar com as tuas críticas e tudo mais porque você é livre pra pensar e dizer o que bem quiser, mas criticar sem saber do assunto já é avacalhar.
Postado por Lucas | dezembro 15, 2007 9:52 PM
Posted on dezembro 15, 2007 21:52
Acredito que você adora criticar de forma avulsa, sem ter nenhum conhecimento do que se fala. Viu algo, não achou interessante CRITICA. Da mesma forma estou aqui, para deixar criticas a você, antes de resolver falar de alguma na forma escrita, deve-se primeiro escrever corretamente e aprender o uso de concordancia. No Brasil tudo é mesmo muito bagunçado, todo mundo poder ser cantor, basta gravar um CD em casa, assim há exemplo de escritores como você.
Obrigado pelo espaço das criticas.
Postado por NeF | dezembro 18, 2007 9:01 AM
Posted on dezembro 18, 2007 09:01
Mulher feia em Teresina??....ahhh só no seu livro mesmo
Postado por Jairo Moura | dezembro 19, 2007 12:37 PM
Posted on dezembro 19, 2007 12:37
mulher feia em Teresina?
tá loucooo?
eu sou linda e que nem eu tem muitas, inteligentes e lindassss!!!!!!!!!
você fala muito em "c...", em "p...", deve ser gay, sem preconceitos, mas você deve ser gay.
Postado por Layla | dezembro 19, 2007 5:56 PM
Posted on dezembro 19, 2007 17:56
hahaha, não ter mulher bonita em teresina foi demais, é o que menos falta por aqui.
esse livro tem que ser encarado como uma piada grande, engraçadinho de vez em quado, mas sem qualquer valor cultural
Postado por Guilherme | dezembro 19, 2007 8:16 PM
Posted on dezembro 19, 2007 20:16
MrManson, eu concordo que no Piaui nao tem mulher bonita. Alguém tem que concordar com você! Mas se você falar que em Florianópolis não tem mulher bonita num próximo livro, aí sim eu concordo que você é viado
Postado por Rodrigo | dezembro 21, 2007 5:47 PM
Posted on dezembro 21, 2007 17:47
Taí, finalmente, informações interessantes sobre o Piauí.
De que independência v. falou? Da norte-americana? Aqui não houve isso não...
Postado por armando | dezembro 22, 2007 11:51 PM
Posted on dezembro 22, 2007 23:51
Porra Mr Manson,
O "livro" fica cada vez mais chato.... vc já inventou tanta merda para escrever que agora se perdeu...PQP
Postado por Paulo Viana | dezembro 23, 2007 8:32 AM
Posted on dezembro 23, 2007 08:32
A cada capitulo que passa o texto fica mais chato e desconexo.
Ainda bem que não gastei meu suado dinheirinho na época pra comprar.
Será que chegarei em sã conciência no ultimo capitulo? Ou vou vomitar em cima do teclado?
É muito besteirol, e olha que eu não sou piauiense e nem tenho descendente, sou paulista e descendente de italianos.
Postado por Luciano | dezembro 31, 2007 2:58 PM
Posted on dezembro 31, 2007 14:58
Ae Manson...
Mulher feia é normal no nordeste e se duvida, faz um tour por QUALQUER cidade. Tamanha a verdade que eles acham a Joelma do Calpyso, que é de Belém do Pará, uma rainha.
Deusulive!!!
Du caralho esse livro.
Tá valendo essa tarde de trampo "matada"
Postado por Pedro e Bino | janeiro 3, 2008 3:13 PM
Posted on janeiro 3, 2008 15:13
"Rio Jenipapo, em Campo Maior, foi travada a mais sangrenta (e provavelmente única) batalha entre brasileiros e portugueses pela independência."
Não foi a unica,tambem teve a batalha de pirajá na bahia, que foi sangrenta.
Postado por jim | janeiro 5, 2008 12:40 AM
Posted on janeiro 5, 2008 00:40
Caro Mr. Mason, não ligue. O Piauí nem Miss tem, eles arrumam alguem de fora e ajeitam uma certidão de nascimento. O lugar nem saída para o mar tinha. Era uma Bolívia. Resolveram ESBULHAR A POSSE, criaram uma Cavalaria de Bodes e resolveram que aqueles 70 km de mar, o menor trecho de litoral no Brasil seria deles.
Se lascaram, o poder central determinou que o Ceará deveria receber algo em troca. Deram Crateús e outras porcarias. Mulher bonita no PI? conheci Piauienses , a maioria são esquisitas. Pequenas, pernas curvas e finas, sem bunda e sem peito e a cara dispensa comentários. Este é o retrato do Piaui.
Permita-me a licença poética:
TERESINA, TERESINA, CAPITAL DO PIAUÍ, SE O MUNDO TEM CÚ, O CÚ DO MUNDO É ALÍ.
Postado por Geraldo Nunes Filho | janeiro 26, 2008 4:17 PM
Posted on janeiro 26, 2008 16:17
O livro me deu vontade de conhecer o norte, sempre viajo pro sul. Ótimo trabalho Mr. Manson. Se resolver escrever sobre outro lugar, venha pra Curitiba. Adoramos rir de nós mesmos.
Postado por Hannibal | fevereiro 12, 2008 4:21 PM
Posted on fevereiro 12, 2008 16:21