Não havia mais como negar que o
Piauí já estava grudado em mim
Com a experiência adquirida em milhares de quilômetros de asfalto, procurei um lugar no fundo do ônibus. Enquanto na frente a maioria do espaço estava ocupado, as proximidades do banheiro estavam bem vazias. Nem sempre ficar no fundão é ruim. Esse ônibus, por exemplo, vinha da garagem, ou seja, o banheiro estava inodoro como um copo de água mineral. Também esperava visitar bastante o “escritório”, pois as três garrafas de cerveja tinham que ir para algum lugar.
Na última poltrona, viajava uma jovem mãe de família com três filhos entre sete e doze anos, mais ou menos. Ela até que era enxuta, com um jeitão de nordestina, mas dava um bom caldo. Muito parecida com uma ex-patroa minha. Meu espírito estava tão extrovertido que logo comecei a contar piadas e brincar com os moleques. E, por incrível que pareça, estava mandando bem. Todo mundo em volta acabou entrando na pilha e rindo também. Quem diria... MrManson, a alegria da criançada!
Estava falando algumas besteiras quando ligaram a TV do ônibus. Ia rolar um filminho. Esperava algum velho enlatado da Sessão da Tarde, mas, para a minha surpresa, era um filme novinho: Stuart Little 2, versão legendada. Não sei se as legendas foram de grande utilidade, pois os índices de analfabetismo no Piauí são gigantescos. Também achei a escolha ousada, poderiam exibir um filme menos complexo. Porra, se até hoje eu não consigo entender o universo do Stuart Little, imaginem um inocente morador do interior do Piauí.
Veja bem: um rato que fala e é compreendido pelos humanos, que por sua vez chegam ao extremo de tratá-lo como um membro normal da família. Tudo bem, é a liberdade criativa do filme. Mas porra, o gato que mora na casa consegue falar com o rato e não consegue se comunicar com os humanos. Isso não tem a menor lógica! Se o rato fala com os humanos e com o gato, nada mais justo que todos possam se comunicar livremente entre si! Ou alguém vai falar que naquele universo apenas o rato é bilingüe? E se o rato chegasse para seus “pais humanos” e falasse que bateu um papo com o gato? Provavelmente seria internado num hospício. Não suporto mais as lógicas desses filmes e desenhos infantis novos. Por isso que as crianças de hoje são todas mongolóides.
Os personagens dos desenhos atuais são muito neuróticos. Não dá para assistir cinco minutos de Cartoon Network sem ficar histérico com tantas cores piscando e animais esquisitos que se comunicam uns com os outros berrando. Isso é um absurdo! Não sobrou mais nenhuma figura sensual para as crianças desenvolverem suas fantasias de maneira saudável. Eu cresci achando que um dia namoraria a Penélope Charmosa da Corrida Maluca. Esses merdinhas do século 21 estão criando tesão por uma vaca desajeitada que anda com a bunda de fora ou uma esponja que é “interessante” só porque usa uma calça quadrada! Se coisas simples como os desvios comportamentais dos personagens do Snoopy já conseguiram mandar uma legião de crianças da minha geração para o divã do psicólogo, imaginem o estrago que essa maluquice do Cartoon vai fazer.
O filme estava fazendo a minha cabeça doer tanto que decidi sentar no chão. Me encostei num canto limpo, um espaço para que última poltrona se reclinasse. O efeito sonífero da cerveja me fez tirar um rápido cochilo até chegar na rodoviária de Canto do Buriti.
Estava meio apreensivo, achando que o “ônibus extra esperando em Buriti” fosse sacanagem do cara do guichê para vender mais passagens e deixar o problema na mão do outro fiscal de linha “mané” que nos receberia na outra cidade. O pessoal que estava viajando em pé também estava bolado, comentando que nunca tinham ouvido falar nesse esquema.
Mas, para alívio geral, realmente havia um carro esperando. O problema era que ele já estava cheio e para mim só havia sobrado a boa e velha última poltrona ao lado do banheiro. Acho que já é destino. Ao meu lado sentou-se um soldado da Polícia Militar do Piauí devidamente uniformizado. Vi que a noite seria longa...
O ônibus era bem antigo e a merda da última poltrona não tinha espaço para reclinar. Tive que viajar quase na vertical, sem a menor condição de encontrar uma posição confortável para dormir. A estrada não tinha muitos buracos, mas a toda hora o ônibus encostava para deixar ou pegar algum passageiro. Fomos catando todos os cornos na beira da Transpiauí.
Não conseguia dormir. Em duas horas já estava com torcicolo e frio. O ar-condicionado estava ligado no máximo e, apesar de várias pessoas reclamarem, o motorista dizia que não tinha como regular a temperatura. Acho que aquele ônibus tinha sido fabricado antes da invenção do termostato. O PM ao meu lado era uma pessoa muito espaçosa; pegou num sono pesado e foi roçando a perna no meu joelho a noite toda. Resumindo: até Teresina seriam oito horas de um inferno gelado. Impressionante! Bastou a minha rota de peregrinação voltar para a Transpiauí que todo o bem-estar que tinha acumulado em São Raimundo foi embora.
Já estava ficando puto com aquela merda de perna roçando no meu joelho. Deu vontade de cutucar o malandro para ele acordar e tomar vergonha na cara, mas lembrei daquela recomendação de nunca acordar um sonâmbulo, principalmente se ele estiver com uma arma na cintura. Acabei conseguindo dormir em pequenos períodos de quinze minutos, sempre interrompidos por alguém indo ao banheiro ou pelo incessante embarque e desembarque na beira da estrada.
Estava tão ocupado tentando encontrar uma posição para dormir que nem notei quando o ônibus passou por Floriano, uma importante cidade que fica mais ou menos no meio da Transpiauí. Ela seria uma espécie de marco, simbolizando que estava na metade de minha peregrinação. Na minha cabeça era um ponto tão importante que, quando saí do Rio, tinha planos de descer lá e dar uma volta antes de ir para Teresina. Mas as dicas que colhi durante a viagem não recomendaram a escala, dizendo que não havia muito para se ver ou fazer na cidade.
Posso afirmar que depois daquela noite a Transpiauí ficou moldada em minhas vértebras. Certamente me lembrarei dessa história para contar para os meus netinhos quando estiver reclamando de uma dor de coluna crônica.
Cheguei em Teresina às cinco e meia da manhã. Quase tive um choque térmico quando saí do gélido ar-condicionado e dei de cara com o bafo quente da rua. Fui até o banheiro da rodoviária tentar remediar o meu estado de indigência. Cabelo em pé, barba malfeita, cara amassada e olheiras gigantescas. O visual estava tão decadente que, se eu pedisse esmola, provavelmente conseguiria alguns trocados. Nada melhor do que isso para me misturar à população local, disfarçando a pinta de turista.
Depois de escolher um hotel no guia, tentei me informar sobre onde poderia pegar um ônibus para o centro, pois não tinha a menor intenção de morrer em mais de dez contos num táxi. Me falaram para atravessar para o outro lado de uma grande avenida e perguntar para alguém no ponto. A parada era muito longe, tive que andar pra cacete e ainda subir uma passarela carregando o peso da mochila. Quando cheguei lá, fiquei mais perdido ainda. Era raro passar um ônibus, e quando isso acontecia ninguém sabia dizer qual servia para mim.
Um pouco mais à frente havia uma tendinha com várias motos estacionadas. Logo deduzi que era um ponto de moto-táxi e resolvi ir até lá sondar o preço.
– Fala, grande. Quanto é para você me levar até a Praça Dom Pedro II?
– Quatro reais.
Fiz uma cara de quem estava levando uma facada, só para tentar pechinchar um pouco, mas na verdade achei o preço excelente. Já estava esperando o ônibus havia quase 20 minutos e nada. Alem disso, encontrar o hotel de moto seria muito mais fácil do que ficar circulando pelo centro da cidade com uma mochila nas costas. A partir daquele momento, passei a ser um grande fã dos moto-táxis. Eles são, de longe, a instituição mais eficiente de todo o Piauí, um verdadeiro presente para os peregrinos solitários.
Estranhei um pouco quando o piloto me deu um capacete, mas como até então só tinha andado de moto no interior, achei que era apenas norma para circular na cidade sem arrumar encrenca com a polícia. Ledo engano. Assim que a moto saiu, vi que aquele capacete era mais do que necessário. Era vital.
O cara foi voando pelas ainda escuras ruas de Teresina. Desviava bruscamente dos buracos, fazia curvas fechadas e avançava os sinais vermelhos. Tudo que eu podia fazer era segurar ainda mais firme no banco e torcer para que a lei da gravidade ainda não tivesse sido inventada naquele atrasado recanto do universo. Foram quinze minutos de terror até chegarmos ao hotel, mas assim que pus os pés no chão vi que a corrida tinha valido a pena. Foram dois serviços em um. Com apenas quatro reais, paguei uma carona até o centro e de brinde ganhei uma descarga de adrenalina superior a de qualquer montanha russa da Disney. Definitivamente o moto-táxi é o transporte do futuro, pois é capaz de combinar perfeitamente a “utilidade” e o “entretenimento”. Não me surpreenderia caso algum marketeiro de óculos coloridos e gravata estampada com personagens de quadrinhos inventasse esse revolucionário conceito: o “transportainement”.
Entrei no hotel e mais uma vez me deparei com a incisiva pergunta do formulário de registro. Perguntei para o recepcionista:
– Tem desconto para geólogos?
– Infelizmente não. Mas se o senhor pagar à vista, podemos fazer um abatimento de 20%.
– Beleza, então. Será que alguém pode levar meus equipamentos até o quarto? – disse, apontando para a mochila.
– É claro, senhor.
Aquele “senhor” me soava bem. Nunca estaria sendo tratado assim se tivesse dito que era humorista. Provavelmente seria olhado com incredulidade e logo ele falaria: “Humorista? Sei... Então conta uma piada aí”. Acho que as pessoas confundem um pouco as coisas. Quem tem obrigação de fazer rir é “palhaço”, e mesmo assim só quando estiver exercendo as suas funções circenses. Dizendo que sou geólogo posso pelo menos me livrar desses chatos, pois raramente algum deles vai duvidar de mim e falar: “Geólogo? Sei... Então me diz de que tipo é essa rocha aí”.
O hotel não era nenhuma maravilha, mas se fosse comparado aos onde tinha ficado até então, mereceria receber cinco estrelas. Roupa de cama limpa, chuveiro forte e quente, ar-condicionado e frigobar. Pretendia apenas tomar um banho e esperar o comércio abrir para dar uma volta pela cidade. Mas não resisti a tanto conforto e acabei dormindo até onze da manhã, quando o movimento das ruas de Teresina me acordou. A capital do Piauí me convidava solenemente para que eu descobrisse seus mistérios.
Comentários (8)
q porra vei...
viciei nessa merda..
e ta na hora de ir embora...
la se foi um dia de trabalho..
amanha eu termino!
Postado por Caram | dezembro 6, 2007 4:58 PM
Posted on dezembro 6, 2007 16:58
Manson enfeitando cada vez mais as histórias pra fazer o livro render. Esse veinho tá menos com cara de miragem do que com pataquada do Cocada.
Daqui a pouco vai dizer que as meninas de São Raimundo Nonato são virgens.
Postado por PG | dezembro 6, 2007 11:34 PM
Posted on dezembro 6, 2007 23:34
Também não exagera. A parada de ônibus em frente à rodoviária não fica tão longe assim. E a grande avenida em frente à rodoviária é uma BR de pista simples. Pô, não começa a inventar senão vou acabar achando que aquela história do velhinho te sacaneando na estrada é criação sua. (biduzão)
Postado por PG | dezembro 7, 2007 12:12 AM
Posted on dezembro 7, 2007 00:12
Um humorista sendo chamado de "senhor" só lá em Piauí mesmo.
Postado por Dani | dezembro 8, 2007 3:04 PM
Posted on dezembro 8, 2007 15:04
Cheguei até aqui e tenho q dar linha do trampo... senão acabava hoje mesmo.
Apesar de alguns exageros e momentos de chatice aguda, o livro é muito bom!
Amanhã termino.
Postado por nem | dezembro 14, 2007 7:57 PM
Posted on dezembro 14, 2007 19:57
claro, o MrManson tinha que enrolar devido a merda da editora pedir um minimo de pag.
Se ele foisse sucinto iria escrever isso em umas dez, mas como tem que enrolar...
Mas a enrolada ta ficando chata,.... Ta aumentando bizarramente algumas e esquecendo de outras...
Postado por robson | dezembro 15, 2007 11:56 AM
Posted on dezembro 15, 2007 11:56
Mas que coisa,sô! O cara passa tudo isso para circular em Teresina?
Boa "conversa" sobre Stuart Little...
Postado por armando | dezembro 22, 2007 5:47 PM
Posted on dezembro 22, 2007 17:47
porra, queria ver tua cara de "cagão" quando tava na moto...hahaha....
Postado por Paulo Viana | dezembro 22, 2007 11:08 PM
Posted on dezembro 22, 2007 23:08