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Capítulo 15: Nossos ancestrais

Você é filho de um piauiense e não sabe


Quando chegamos ao parque da Serra da Capivara, já me sentia plenamente revigorado. Se a lição que as divindades quiseram me dar foi no intuito de passar a levar tudo ainda mais na sacanagem, conseguiram. Mas, se o intuito era outro, a gente se acerta no pós-vida.
Logo na entrada há uma guarita, onde um fiscal do Ibama não deixa ninguém entrar desacompanhado de um guia. Também é preciso pagar uma taxa de três reais e assinar um termo de compromisso, declarando que você tem consciência de que a área é protegida e mais um outro monte de besteiras. Mesmo assim, li tudo com atenção. Queria ter certeza de que não havia nenhuma cláusula me impedindo de fazer piadas imbecis sobre o patrimônio da humanidade protegido pelas cercas do parque. A última coisa que quero na vida é arrumar problemas com o Ibama. Ainda tenho esperanças de conseguir uma licença para criar pingüins em casa.
O local é muito bem estruturado, com placas de sinalização por todos os lados e um centro de visitantes que não perde para nenhum outro que já tenha conhecido no Brasil. Tomei mais água e passei no banheiro, o mais limpo que já tinha entrado em solo piauiense. Realmente impecável.
Fomos até o primeiro sítio com pinturas, que fica logo atrás do centro de visitantes. No caminho fui conversando com o guia e vi a sorte que tinha dado ao encontrá-lo logo de cara. Na verdade, não é qualquer um que pode fazer um cursinho e se habilitar como guia do parque. Eles são só treze, todos universitários. Somente em períodos de grande visitação é que eles apelam para a ajuda de guias “menos credenciados”, que acompanham os grupos grandes para se certificar que ninguém vá depredar algo, mijar nos paredões ou fazer alguma outra merda. O cara era gente fina e muito bem articulado, explicava tudo direitinho e respondia com segurança qualquer pergunta que eu fizesse, por mais absurda que fosse. Quis saber, por exemplo, se eles encontraram algum fóssil da família Flintstone, onde ficava o tiranossauro rex... Ele demorou um pouco para entender que eu estava de sacanagem, mas mesmo assim perdia tempo respondendo.
Ele contou que a Serra da Capivara é o local onde se encontraram os mais antigos sinais de ocupação humana nas Américas. Os fósseis e pinturas que existem lá são de um período que se estende entre sete e doze mil anos atrás, com processo de datação comprovado por vários institutos internacionais. Por um tempo cheguei até a desconfiar da precisão do carbono quatorze, mas logo vi uma inscrição feita numa árvore que dizia “I Love Engenheiros do Havaí”. Depois disso tive certeza: estava diante de pinturas pré-históricas.
O guia continuou sua explicação, dizendo que as evidências encontradas ali colocam em xeque a teoria de que o povoamento das Américas aconteceu do norte para o sul, durante a era glacial, com os asiáticos cruzando o oceano através do Estreito de Bering . Para ser mais claro: é bem provável que toda a civilização ameríndia tenha se originado no Piauí! A charada está resolvida! Agora dá para entender como essa raça foi dizimada tão facilmente por idiotas como portugueses e espanhóis.
A caminhada até o primeiro paredão é curta, menos de 300 metros. Logo pude contemplar a arte dos homens das cavernas. Quando vi os primeiros desenhos, fiquei muito emocionado. Eles lembravam o meu passado no jardim de infância. A habilidade de um homem primitivo com as tintas se assemelhava à minha habilidade nas aulas de pintura a dedo com a Tia Carmem, minhas preferidas. Acho que o contato direto entre a pele e a tinta guache é, tirando alguns eventuais encontros com o padre do bairro, a coisa mais sensual que pode acontecer na vida de uma criança de cinco anos. Lembro até hoje o imenso prazer que sentia ao espalhar aquela tinta gelada sobre uma grande cartolina branca, ficando horas fazendo arte com os dedos.
Nas minhas aulas, eu desenhava árvores, nuvens e paisagens em geral, mas os homens das cavernas não eram tão ingênuos. Logo nas primeiras pinturas podíamos ver vários homenzinhos de pau duro correndo atrás de animais , dançando, fazendo acrobacias e até mesmo fodendo. Porra! Achei esse troço de um mau gosto terrível! Se eu quisesse me informar mais sobre a apimentada vida sexual de um homem jurássico, não viria até o Piauí. Seria muito mais simples ficar em casa lendo a biografia do Jorginho Guinle.
Olhei os desenhos com cuidado. Em todos os painéis tinha pelo menos um homenzinho de pau duro. Acho que foi daí que nasceu o termo homo erectus. O painel que mais me impressionou foi um que representava uma fila. Vários homenzinhos de pau duro aguardavam por algo, alinhados pacientemente um atrás do outro, igual a um gafanhoto. Poderia perder tempo para enunciar uma teoria provando que a profissão mais antiga do mundo é muito mais antiga do que pensávamos, mas prefiro usar esse indício para provar o quanto aquela civilização era avançada. Uma sociedade de bárbaros, como playboys da Barra da Tijuca, donas de casa em liquidação de calcinhas ou artistas famintos na mesa de frios de uma mostra cultural, é incapaz de conseguir entender os conceitos psico-socio-econômicos que existem por trás de uma fila. Já os homens pré-históricos do Piauí se mostraram mestres no domínio dessa tecnologia. Nem mesmo a mais repressora das forças seria capaz de conter uma dúzia de homens excitados à espera de um alívio por mais de cinco segundos.
Tentei descobrir o que motivava aqueles homens das cavernas terem pintado uma porção de coisas em todas as paredes que aparecessem pela frente. Será que o ser humano, mesmo em seu estado mais primitivo, seria capaz de possuir uma “veia artística”? Ogros, que usavam clavas e arrastavam as mulheres pelos cabelos, teriam sensibilidade para captar todas as nuanças do mundo ao seu redor e transferi-las com destreza para imagens desenhadas na pedra? Creio que sim. A abundância, o detalhe e o entusiasmo utópico com o qual o órgão sexual masculino era representado naquelas pinturas funcionava como um grande indicativo de “sensibilidade latente” na pré-história. Não é um exagero afirmar que a viadagem nasceu com a arte e vice-versa.
Já estava um pouco enojado de ver tanta piroca. Tirei algumas fotos só para não fazer papel de homofóbico e disse para o guia que podíamos ir para outro sítio. Ele falou que me levaria até a “pedra furada”, a formação rochosa mais famosa do Piauí. Algumas centenas de metros depois, chegamos numa pedra imensa. Ela era alta, com a aparência de uma muralha. No meio dela existia um grande furo provocado pela erosão eólica. Não sei se foi por causa do meu lado maldoso que já estava à flor da pele depois que vi as pinturas eróticas, mas achei que aquele buraco era muito parecido com um certo orifício. Olhando de um determinado ângulo dava para ver rachaduras que pareciam pregas castigadas por milhões e milhões de anos de penetração, digo, erosão. Achei extremamente curioso o fato da formação geológica mais conhecida do Piauí ser semelhante àquela monossilábica parte da anatomia humana. Nada melhor para simbolizar um estado considerado por muitos como o cu-do-mundo.
Ainda tive a oportunidade de conhecer outros sítios mais distantes da sede do parque. A cada passo que dava na trilha que cortava a mata fechada, via um calango sair correndo debaixo dos galhos secos. Nunca vi tantos calangos na vida. Foi aí que lembrei daquele lance da cadeia alimentar. O Piauí tem muita mosca. Calangos comem moscas. Logo, a população de calangos possui uma grande margem para crescer e se reproduzir. Já os nativos do estado poderiam se beneficiar das proteínas do calango e acabar com o problema da fome. Fiquei sabendo que o motivo disso não ser feito nem é por causa do nojo. Vontade até que não falta, o problema é conseguir um arroz e uma farofinha para acompanhar. Calango puro não desce de jeito nenhum.
Outro animal da fauna da caatinga que pude ver de perto foi o mocó. É uma espécie de cotia e até que tem uma cara simpática. O problema do mocó são as fezes, que parecem piche, cobrindo as pedras do parque com uma viscosa camada preta. Vivendo e aprendendo! Eu nem sabia que mocó era um animal. Para mim era apenas o sobrenome do Didi.
O guia já tinha me dito que as pinturas nesses sítios mais distantes eram apenas repetições das do sítio principal próximo à sede, mas mesmo assim valeu a visita. Nas escavações feitas nesses locais, foram encontrados vários objetos usados pelos homens primitivos, como pontas de flecha, ferramentas de pedra lascada e até mesmo um videogame Atari.
Ainda passamos por uma caverna e um mirante que ficam fora do parque. Admirei um pouco a paisagem, mas logo tivemos que partir. Entre uma caminhada e outra, gastamos a tarde inteira e logo iria escurecer. Voltamos pela mesma estrada, mas não vi nenhum sinal do velho na bicicleta.
Quando cheguei na cidade, estava me sentindo um novo homem. A experiência espiritual que vivi naquela estrada tinha realmente lavado a minha alma. Mas o corpo estava completamente imundo e precisava urgentemente de um banho. O moto-guia me deixou em frente a uma pousada, onde eu poderia negociar uma ducha rápida com o dono por um ou dois reais. Paguei as 40 pratas satisfeito com o serviço e nos despedimos.
O dono da pousada tentou me empurrar um quarto, dizendo para eu dormir um pouco, mas eu só queria o banho. Não podia perder tempo e dinheiro pernoitando em São Raimundo Nonato. Tinha um ônibus para Teresina que saía às nove da noite e se eu pegasse poderia economizar uma diária de hospedagem dormindo enquanto viajava.
Olhando de fora, a pousada até parecia decente. Mas lá dentro, que buraco! O banheiro ficava no fim de um corredor escuro, sem qualquer ventilação. O chuveiro e o vaso dividiam um pequeno cubículo de três metros por um e meio. O cheiro de mijo era insuportável e as teias de aranha no teto eram inacreditáveis. A água caía fraca, nem chuveiro tinha. Ela saía direto de um cano enferrujado. Me esforcei ao máximo para tomar um banho sem encostar em nada, mas ainda tenho sérias dúvidas se eu consegui sair mais limpo do que entrei.
Contrariado, paguei os dois reais. Enquanto não chegava a hora de pegar o ônibus, fui dar uma volta na cidade. Encontrei uma praça bem tranqüila, com um coreto e vários bancos convidativos. Fiz da mochila travesseiro e me estiquei feito um mendigo. Tentei fechar os olhos para dar uma cochilada, mas os mosquitos não deixaram.
Quando a noite caiu, percebi um movimento em volta da praça. Vários bares abriam as portas para receberem os fiéis que em breve sairiam da missa de domingo. O cheiro dos petiscos gordurosos e a cor dourada da cerveja que reluzia nos copos me fizeram perder o sono. Troquei o banco de praça por uma mesa de bar. Pedi uma cerveja e fiquei observando a praça se encher cada vez mais. Era a primeira cerveja que tomava em solo piauiense. Estava ansioso para descobrir com o que o cu-do-mundo se pareceria sob o olhar ébrio de um peregrino.
Várias moças prendadas desfilavam pela rua com seus vestidinhos de domingo, capturando a atenção dos marmanjos com uma encantadora ingenuidade. Ao contrário das meninas da cidade grande, elas não estavam ali para receberem uns amassos e serem descartadas assim que a noite terminasse. Conseguia perceber nos seus sorrisos envergonhados que a intenção ali era encontrar o primeiro e único namorado.
A beleza da paisagem melhorava a cada gole. Me sentia aconchegado naquele bar amigo enquanto observava a aprazível cena de “fim de domingo”, que provavelmente se repetia há décadas. O ambiente estava tão perfeito que novamente adotei a postura de “documentarista do Discovery”, procurando não interferir em nada, pois qualquer comentário ou atitude poderia contaminar o curso natural das coisas.
Fiquei triste com a hora da partida. Só tinha tempo para mais uma cerveja e um petisco rápido. O dono do bar, gente fina pra cacete, me recomendou a porção de salaminho. Fui na dele e fiz disso o meu jantar: três garrafas de cerveja e um prato de salaminho.
Estava quase cedendo aos meus impulsos para perder o ônibus de propósito e ficar ali a noite inteira. Mas em um momento de sobriedade achei que provavelmente aquele movimento não duraria a madrugada inteira. Logo todos voltariam para casa a tempo de assistir os gols do Fantástico. Matei o último salame, virei o meio copo de cerveja que faltava e fui em passos largos até a rodoviária.
Quando cheguei, logo vi que tinha muita gente para um ônibus só. No guichê, o vendedor me informou que o carro já estava lotado. Eu só tinha duas opções: esperar o do dia seguinte, que sairia depois do almoço, ou viajar de pé nesse mesmo durante uma hora e meia até Canto do Buriti, onde haveria um ônibus extra nos esperando. Estava tão “alegre” que achei que a viagem de pé não seria problema. Nem pensei na probabilidade de não haver ônibus em Buriti, por causa da precária logística das empresas de transporte do Piauí. Minha falta de racionalidade era tanta que provavelmente toparia viajar dez horas em pé até chegar em Teresina.

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Comentários (11)

Jose Antonio:

..."seus sorrisos envergonhados que a intenção ali era encontrar o primeiro e único namorado".

Piada de bom gosto! :D


Criar pinguim em casa foi foda!!
huahuahuah

Caram:

n importa o cu de mundo q vc esteja..

um buteco, umas breja e mocinhas andando pra la e pra ca sempre deixam a gente mais familiarizado com o local...
topa ate busao a pé

Dani:

E lá no cu-do-mundo você tomou sua primeira cerva piauiense.

marcel:

mais uma cerveja e vc arrumava uma namorada piauiense.

PG:

Por aqui se costuma pedir cerveja "gelada que nem cu de jia". Jia = rã, perereca. Como o Manson parece que nunca viu uma perereca na vida...

Layla:

Realmente a das meninas, foi de muito bom gosto. E deu vontade até de aplaudir.Aqui no Piauí, sendo o "cu" do mundo ou não, cervejas são sempre servidas bem geladas. Da próxima vez, tenho certeza que você fica.

Layla:

ah...e me deu vontade até de criar pinguins em casa,rsrs...adorei essa observação.Ainda mais pq minha filha adora aquele desenho antigo do Pingo...
rsrs

Monica:

Tô achando muito bom o livro. Só tem um detalhe: "O chuveiro e o vaso dividiam um pequeno cubículo de três metros por um e meio."

Pegue uma trena e veja quanto espaço ocupa um retângulo de um metro e meio por três. Vai ver que provavelmente o banheiro imundo que você enfrentou tinha bem menos do que isso. :)

Um e meio por três dá um banheirinho bem legal, sô... Se esse lugar em que você tomou banho tiver um por um já é muito.

Abraços e parabéns.

Monica:

Ah, se bem que é retângulo. Então um por um não dá. Mas mede aí pra ver. :)

Bom, é isso. Lá vou eu pro próximo capítulo da viagem. ;)

armando:

O carioca esssperto só pensa no objeto de trabalho de proctologista. Bom capítulo. Boa tirada, comparando o Guinle com um ogro, ou algo que o valha. Pior para o ogro.

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