Quando você é convocado pelo
destino, não há como escapar
De repente, a moto ficou mais lenta, até parar. O guia olhou para o pneu traseiro e fez uma cara nada contente:
– Furou. E agora?
Desci da moto, olhei para um lado, olhei para o outro e constatei que estava na maior merda do mundo. Mas, mesmo assim, não deixei de dar uma resposta cretina para uma pergunta imbecil.
– E agora, malandro? Por um acaso você costuma carregar o estepe em algum orifício oculto do seu corpo?
Tivemos que rir para não chorar. Ele deu uma olhada no pneu e constatou:
– Do jeito que está, acho que dá para chegar até a cidade. Mas para isso tenho que ir com a moto leve. Quando chegar lá, posso pegar a moto do meu irmão e voltar aqui para te encontrar e seguir até o parque.
Acho que nenhuma pessoa normal aceitaria ficar sozinha no meio do semi-árido nordestino esperando um motoqueiro ir até a cidadebuscar outra moto. E isso se ele conseguisse chegar até lá. Mas eu, idiota que sou, achei que estava sendo protegido pelas “divindades do humor”. Me convenci que aquela montanha de merda que havia caído sobre a minha cabeça só poderia ser mais um teste para tornar a minha peregrinação ainda mais edificante.
– Quanto tempo você demora?
– Uns dez minutos.
– Então vai! Mas aí, maluco, vai voando!
E lá foi ele, aos poucos se distanciando, até sumir no horizonte.
Sentei em uma pedra bem na beira da estrada e comecei a sentir aquele sol de meio-dia fritando o meu coco. Ainda olhei para o céu para me certificar se estava sendo castigado por apenas um sol, pois o calor era de no mínimo três. Olhava para os dois lados insistentemente, na esperança de ver algum movimento, mas parecia uma cena do Mad Max, só que sem a Tina Turner de tanguinha. Estava no meio do deserto, sozinho e sem água.
Os dez minutos se passaram e nada da moto voltar. Peguei um chapéu na mochila para me proteger melhor. Dei uma ligada no meu celular só para ver se estava dando sinal. Sinal? No meio do agreste do Piauí? Com certeza o sol já estava me fazendo delirar. Tirei algumas fotos de mim mesmo sentado na estrada, para depois servirem como prova do que eu sofri.
Vinte minutos. Nada de moto. Nada de veículos passando pela estrada. Já estava de pé, andando no meio da pista de um lado para o outro. Minha diversão era atirar pedras numa placa de “proibido ultrapassar”. Ficava xingando em voz alta o imbecil que colocou aquilo ali:
– Proibido ultrapassar!?!? Proibido não, IMPOSSÍVEL ULTRAPASSAR!!! Para que uma ultrapassagem aconteça, É NECESSÁRIO DOIS CARROS AO MESMO TEMPO, SEU IDIOTA!!! E NESSA ESTRADA ISSO É IMPOSSÍVEL!!!
Meia hora. Comecei a ficar um pouco paranóico. Até então estava torcendo para que alguém passasse por ali para me dar uma ajuda, me levar até a cidade ou pelo menos me dar um gole d’água. Mas o meu lado “morador do Rio de Janeiro” se manifestou intensamente. Estava sozinho, no meio do nada, sem qualquer garantia de segurança. Se por um acaso passasse um carro com um marginal dentro, ele poderia parar e ver que eu estava na merda. Seria moleza roubar todas as minhas coisas e “queimar o arquivo”, deixando meu corpo jogado no meio do mato. Depois de uns meses, as equipes de busca encontrariam a minha ossada no meio do solo rachado, como uma caveira de boi. Saí da beira da estrada e fiquei um pouco mais recuado, para que não fosse visto de longe. Mais do que nunca, eu torcia para que o guia voltasse logo, antes de qualquer outra pessoa.
Quarenta minutos. Nada. O sol castigava e a sede era absurda. Comecei a sentir fraqueza e enjôo. Percebi que o problema estava ficando muito sério. Meu lado “bem-humorado” foi embora e a partir dali considerei as opções que tinha para salvar a minha pele. Estava há exatamente quinze quilômetros da cidade, a distância para o parque também era a mesma. Qualquer caminhada longa era impossível, principalmente debaixo daquele sol, sem água e carregando uma mochila de quinze quilos. Mas também, se ficasse ali por mais 30 ou 40 minutos, correria sérios riscos de desmaiar por causa de uma insolação. Para resumir: se eu ficasse, o bicho comia; se eu corresse, o bicho pegava.
Cinqüenta minutos. Nada.
Uma hora! Nada!
A dor de cabeça e o enjôo eram tão grandes que eu só conseguia ficar sentado na pedra, bem encolhido e olhando fixamente para o horizonte. Peguei a minha toalha de banho na mochila e a usei para me proteger melhor do sol, tapando as partes descobertas do meu corpo. Para aumentar ainda mais a série de clichês, três urubus voavam em círculo em cima de mim . Eu só conseguia repetir incessantemente: “Isso não pode ser verdade!”
Já tinha perdido toda a minha fé nas tais “divindades do humor”. Para mim, a brincadeira tinha definitivamente acabado. Se pudesse, sairia dali direto para a minha casa sem pensar duas vezes. Foda-se livro, foda-se peregrinação, foda-se o Piauí! Como eu pude ser tão idiota a ponto de achar que conseguiria sair de casa sozinho, mergulhar no cu-do-mundo sem plano ou estrutura e sair ileso? Todo mundo que me chamou de maluco, me alertou, se preocupou e disse que eu não precisava fazer isso para escrever um livro estava certo. A minha mania de ser sempre “do contra” e a minha arrogante pretensão de querer estar sempre nos “limites do humor” tinham me colocado nessa merda. Me convenci de que o pior desfecho possível para essa viagem era a coisa mais provável e lógica que poderia acontecer. Qualquer ser de bom senso seria capaz de prever isso.
Uma hora e dez minutos. Finalmente eu vejo uma moto no horizonte! Estava puto com aquele arrombado, mas não poderia esconder a minha felicidade em vê-lo. Senti um alívio, mas logo percebi algo estranho. Ela se aproximava muito lentamente. Aos poucos percebi que não era uma moto, mas uma bicicleta! Quando já estava bem perto, vi que se tratava de um velhinho com chapéu de palha e cachimbo na boca!
Não sei quem achou esse encontro mais surreal, eu ou o velho! Ele estava diante de um cara fritando no meio do deserto. Eu via um coroa surgido do nada e pedalando debaixo de um sol escaldante rumo a lugar nenhum. De longe, os nossos olhares já se cruzaram. Não con-seguíamos parar de nos encarar. Quando chegou bem na minha frente,
ele parou. Ajeitou o chapéu, tirou o cachimbo da boca e ficou olhando para mim, aguardando uma explicação.
– Eu estava indo para o parque de moto-táxi, só que o pneu furou e o guia teve que voltar até a cidade para buscar outra moto. Já estou há mais de uma hora esperando aqui e nada...
O velho colocou o cachimbo na boca, deu uma tragada, abriu um sorriso meio sacana e disse com uma voz bem falha:
– Ôxe, menino! Sai desse sol, tá muito forte. Aproveita que tá com a toalha na mão e vai ali naquele riacho se refrescar...
Riacho? Estava rodando ali há mais de uma hora e não tinha visto nenhum sinal de riacho. Mesmo assim, talvez sofrendo mais um delírio por causa da insolação, me virei e olhei para os dois lados procurando a merda do riacho. Quando me dei conta que poderia estar sendo vítima de uma grande sacanagem, me virei de volta, já puto da vida, e perguntei para o velho:
– MAS QUE RIACHO, PORRA!?!?
Tarde demais. Ele já estava pedalando de novo, se afastando lentamente enquanto sacudia a cabeça num sinal de negação. Negação é o caralho! Aquilo era um sinal de afirmação. Afirmação da minha idiotice, isso sim!
Estava quase apedrejando aquele velho sarcástico filho de uma puta quando escutei um barulho de motor. Era o “guia motoboy” surgindo milagrosamente no horizonte. Ele já chegou estendendo um cantil com água geladinha e dizendo desesperado:
– Pôxa, amigo, desculpa! Meu irmão tinha saído com a outra moto, tive que procurá-lo pela cidade inteira. Desculpa mesmo!
– Cara, tu não imagina a merda que tu me deixou! Já tava passando mal aqui, com sede e insolação!
Foram xingamentos, praguejamentos e resmungos para todos os lados. A sorte do cara é que a água que ele tinha trazido funcionou como um calmante, senão ele ficaria escutando minhas reclamações a tarde inteira. Meu mal-estar foi passando aos poucos. Molhei a nuca e consegui me recompor para seguir viagem.
Logo ultrapassamos o velho e a sua bicicleta. Ele acenou para mim e deu um sorriso. Nos quinze quilômetros restantes, refrescando a cabeça com o vento, fiquei pensando naquele episódio inusitado. Será que as “divindades do humor” colocaram aquele velho no meu caminho para me mostrar algo? “Elas” armariam essa situação toda para me provar que, mesmo você estando desesperado, na maior merda do mundo, pode chegar alguém e fazer uma piada?
Provei do meu próprio remédio. Era exatamente isso que eu fazia com os outros desde o começo do Cocadaboa. Senti na carne que uma piada recheada com sarcasmo, por mais simples que seja, pode ter um gosto amargo e tirar qualquer um do sério. Mas também tive a oportunidade de descobrir que quando a dificuldade vai embora, a piada fica. E que piada! Aquele velho piauiense mandou bem pra caralho! Durante o resto do caminho fiquei rindo da minha própria miséria, sem conseguir tirar aquele sorriso bobo da cara.
Tudo que eu escrevia no site passou a fazer sentido. Um velho surgido do nada, numa estrada vazia no interior do estado mais esquecido do Brasil, me ensinou uma coisa que vai me acompanhar para o resto da vida. Revelação mais poderosa do que essa era impossível, nem mesmo se eu fumasse muita maconha nas margens do Rio Piedra ou me embebedasse com chá de cogumelo no cume do Monte Cinco. Agora sim, tinha certeza do sucesso de minha peregrinação. A Transpiauí estava disposta a me dar as respostas para todas as perguntas que eu nunca achei que teria necessidade de fazer.
Comentários (13)
Realmente, o velho mandou muito bem!
Postado por Marcelo | dezembro 5, 2007 10:53 AM
Posted on dezembro 5, 2007 10:53
Melhor capitulo até agora!!!
Postado por Anonymous | dezembro 5, 2007 6:02 PM
Posted on dezembro 5, 2007 18:02
Parabéns pelo livro, realmente muito bom. Acabo de ler amanhã, tendo começado ontem. Mas só uma pergunta: por que os comentários moderados?
Postado por Gustav Meirinho | dezembro 5, 2007 10:13 PM
Posted on dezembro 5, 2007 22:13
Melhor capitulo até agora!!![2]
Postado por vinicius | dezembro 6, 2007 12:15 PM
Posted on dezembro 6, 2007 12:15
ahuahauhauha o velhin te fudeu!!
Postado por Caram | dezembro 6, 2007 3:38 PM
Posted on dezembro 6, 2007 15:38
Old man rulez!
Took one with Manson's face.
Postado por PG | dezembro 6, 2007 11:23 PM
Posted on dezembro 6, 2007 23:23
E o riacho..........
Postado por Dani | dezembro 8, 2007 8:51 AM
Posted on dezembro 8, 2007 08:51
pois é... e o riacho?
Postado por Layla | dezembro 19, 2007 5:28 PM
Posted on dezembro 19, 2007 17:28
Babaca da cidade grande passado para trás por um experiente vivente da terra...
Postado por armando | dezembro 22, 2007 5:14 PM
Posted on dezembro 22, 2007 17:14
hahehaehh, chorei de rir com o capítulo. Chorei mesmo, literalmente aeuhea
Postado por Micox | dezembro 26, 2007 9:58 AM
Posted on dezembro 26, 2007 09:58
Acho q alguém não entendeu a piada do velhinho...não tinha riacho!!
Postado por Amanda | janeiro 16, 2008 12:47 AM
Posted on janeiro 16, 2008 00:47
Porra!! OWNED!!!!!!
Chorei de rir! Caralho!
Postado por Rauen | janeiro 22, 2008 11:44 PM
Posted on janeiro 22, 2008 23:44
Muito engraçado o capítulo mesmo! Ótimo livro, ninguém descreveria tão bem uma "peregrinação" dessas quanto o MrManson! Agora precisa ir pro Acre, isto é, se de fato o Acre existir.
Postado por Pablo | janeiro 29, 2008 2:24 PM
Posted on janeiro 29, 2008 14:24