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Capítulo 13: São Raimundo Nonato

Um cordão umbilical conectado à Transpiauí


Acordei sozinho, pontualmente às oito da manhã. O mais impressionante é que não estava mais me sentindo cansado ou dolorido. Estava sem sono algum e pronto para seguir com a minha peregrinação. É muito raro eu acordar tão disposto e de bom humor, principalmente depois de uma curta noite de sete horas de sono. Certamente aquele colchão velho tinha poderes especiais. Quem sabe os seus milhões de ácaros não eram, na verdade, uma grande colônia de duendes, que penetraram em meu organismo (no bom sentido) e reanimaram todas as células exaustas.
Já estava me vestindo quando uma senhora bateu na porta, me avisando que já eram oito horas. Abri a porta e fui bombardeado por uma luz solar extremamente forte, que quase queimou a minha retina. Acho que no Piauí o sol é tão forte que o horário mais saudável para se bronzear é das quatro às seis da manhã. Só não tinha comprovado isso ainda porque passara todo o dia anterior dentro de um ônibus, com vidro fumê e ar condiconado.
Passei um pouco de protetor solar. Apesar de considerar “coisa de viado” , com o sol do Piauí não se brinca. Estava me besuntando com o creme quando comecei a sentir um cheiro estranho, parecido com peixe seco. Ainda dei uma procurada no banheiro, para ver se o lagarsapo tinha exagerado na sessão de bronzeamento, mas logo percebi que o ser fedorento ali no quarto era eu. Olhei a data de validade e vi que aquela merda de protetor tinha vencido há dois anos. Já estava meio atrasado e não achei que daria tempo para tomar outro banho. Também não queria remover o que já tinha passado. Vencido ou não, pelo menos era uma proteção. Seria melhor do que enfrentar aquele sol de cara limpa. Peguei então o repelente de mosquitos e passei por cima, fazendo com que os aromas se neutralizassem e o mau cheiro fosse embora. Não era nenhum Pólo®, mas até que ficou decente.
Após um dia inteiro comendo mal, fui tomar café entusiasmado. Quando cheguei ao refeitório, vi que o buraco era mais embaixo. Tive que me contentar com pão, manteiga, bolo de cenoura e café com leite. Tudo muito modesto, mas um verdadeiro banquete para quem não via comida havia muito tempo. Ainda pensei em comer uma fruta, pois dizem que essas merdas são saudáveis. Na mesa tinha uma melancia e um mamão. Decidi encarar a melancia, mas quando meti a mão para pegá-la vi que aquele monte de coisas pretas em cima não eram caroços. Uma esquadrilha de moscas levantou vôo, me tirando o apetite.
Quando terminei, perguntei para a senhora da recepção como eu fazia para chegar na rodoviária. Ela disse que era um pouco longe para ir a pé, principalmente debaixo daquele sol e carregando uma mochila pesada como a minha. Falou que era mais prático chamar um moto-táxi.
– Moto-táxi? – perguntei com um alto grau de desconfiança.
– É! Moto-táxi! Eu ligo e ele vem te buscar aqui. Te leva até a rodoviária.
– Dá para ir com mochila nas costas?
– Ah, meu filho, tem gente que vai até com uma galinha em cada braço!
– E quanto custa isso?
– Dois reais.
Olhei para o sol, para a mochila pesada e para o relógio. Já tinha ouvido falar dos moto-táxis, comuns nos morros do Rio de Janeiro, mas nunca achei que um dia usaria este serviço, principalmente no interior do Piauí. Fiquei um pouco reticente, mas liguei o “foda-se” e aceitei a sugestão. No final das contas, dois reais era uma quantia razoável para se apostar nessa roleta-russa.
Fui no quarto calçar o tênis e quando voltei o moto-táxi já me esperava. Aquilo que era eficiência! Paguei a conta, coloquei a mochila nas costas e subi na garupa. Me enrolei um pouco, pois não andava de moto havia mais de dez anos. Fomos devagar, até porque os quebra-molas espalhados pela cidade não deixavam o cara correr muito. Em nenhum momento senti que minha vida estava em risco, mas também não achei nada confortável ficar baforando no cangote de um malandro. Ainda bem que a viagem foi rápida: em pouco mais de cinco minutos estávamos na rodoviária.
Já eram quase nove horas, mas nenhum sinal do ônibus para São Raimundo Nonato. Comprei uma água e sentei em um banco, aturando um calor insuportável e uma horda de moscas. Puta que me pariu! Nunca vi um lugar com tantas moscas! Acho que, se elas fossem comestíveis, o Piauí seria o último estado brasileiro a precisar da ajuda do Fome Zero.
São Raimundo fica fora do eixo da Transpiauí. Para conhecer a famosa Serra da Capivara, tive que sair um pouco da minha rota principal de peregrinação e encarar mais uns 100 quilômetros de estrada. Só fiz isso porque ouvi falar que a viagem valia a pena e era extremamente relevante para quem quer conhecer as origens do Piauí. O Parque Nacional da Serra da Capivara é o sítio de pinturas rupestres mais antigo das Américas. Lá, podem ser vistos desenhos feitos por homens das cavernas há mais de doze mil anos. Era imprescindível que eu testemunhasse esse milagre, afinal esta é a prova científica de que em um passado remoto o Piauí já teve algum tipo de civilização.
O ônibus chegou com meia hora de atraso, o que é comum por esses lados. A viagem duraria um pouco mais de uma hora e meia, coisa de amador para quem vinha de duas pernadas absurdas, uma de 17 e outra de 26 horas. Não tinha ar-condicionado, mas viajar com as janelas abertas até que foi relaxante. O vento circulando diminui um pouco a sensação de confinamento. O calor deu um alívio e, melhor, o ônibus estava vazio. Aproveitei a calma para respirar fundo, absorvendo melhor os ares piauienses. Um certo otimismo tomou conta de mim e já estava enxergando todos os sofrimentos do dia anterior como passado. Não tinha mais fome, enjôo, dor ou sono. Aquela manhã de domingo estava linda, o azul do céu combinava perfeitamente com os tons terrosos do agreste do Piauí. Estava pronto para absorver todas as energias daquela terra e fortalecer o meu “eu interior”.
Já passava das onze quando entramos na cidade. São Raimundo era bem simpática, com ruas sinuosas, calçamento de paralelepípedos e casinhas antigas, porém bem conservadas. Desembarquei do ônibus e fui procurar algum canto onde pudesse me informar sobre como chegar ao parque. O guia de viagem dizia que a entrada ficava a 30 quilômetros da cidade e que o acesso para quem não tivesse transporte próprio não era tão simples. Também era necessário que qualquer grupo de visitantes entrasse no parque acompanhado por pelo menos um guia credenciado pelo Ibama.
A poucos metros da rodoviária, havia um ponto de moto-táxi com três motoqueiros. Por analogia, deduzi que aquele seria o local ideal para saber onde ir. Se em qualquer cidade grande os motoristas de táxi são uma grande fonte de informação, nas cidades pequenas esse papel deve ser cumprido pelos pilotos de moto-táxi. Me aproximei deles:
– Fala, grande. Tu sabe me dizer como eu faço para chegar no parque?
– Você tem que arrumar um guia. E, se estiver a pé, tem que arrumar transporte também.
– Os guias não ficam no parque?
– Não. Você tem que sair da cidade com um.
– E onde eu encontro um cara desses?
– Tá falando com um deles.
Nem me espantei com a coincidência. Desde a primeira vez que li sobre esse negócio de “guia obrigatório”, já estava achando que qualquer mané da cidade poderia fazer um cursinho no Ibama, virar guia e faturar uns trocados.
– E quanto você cobra para me levar lá?
– Cinqüenta reais. A gente vai de moto, aí dá para conhecer todos os sítios do parque bem mais rápido, não precisa ficar andando.
– Cinqüenta pratas? Que isso, rapá! – tinha que rolar a tradicional chorada.
– É o preço padrão. Eu sou o único guia que tem moto. Se você for procurar um que vá te levar de carro, vai gastar no mínimo oitenta reais e ainda vai ter que fazer a maioria das trilhas a pé, porque lá dentro não pode circular de automóvel.
– Porra, dá uma aliviada aí, camarada. Cinqüenta contos tá fora de condição...
– Tudo bem. Te levo lá por quarenta...
O desconto não foi lá essas coisas, o preço era pouco convidativo, mas também soava justo. O cara ia ficar à minha disposição, me levando de moto em todos os sítios (que não eram poucos). Sem falar que 30 quilômetros de ida e volta era um bom chão. Também não esperava encontrar nenhuma proposta melhor em pleno meio-dia de domingo. O motoqueiro tinha cara de ser gente boa e honesto. Resolvi aceitar, mesmo sabendo que baforar no cangote do cara por mais de cinco minutos não seria nada confortável.
Subi na garupa com mochila e tudo. Aquela merda estava pesando uns quinze quilos. Ele disse que não tinha problema se eu levasse todas as minhas coisas porque na guarita do parque havia um guarda-volumes. O único inconveniente seria agüentar aquele peso durante o trajeto. Saímos das ruelas da cidade e caímos na estrada. A moto cortava o asfalto a uma impressionante velocidade de 60 quilômetros por hora. Parece pouco, mas sem capacete, com vento na cara e sentado na garupa com um mochilão, perecia que estávamos a 120.
A estrada era muito boa, sem buracos e bem sinalizada. O único problema é que ela liga o “nada” ao “lugar nenhum”. Não via nenhum carro ou outro sinal de vida, só mesmo a caatinga se estendendo até o horizonte. Achava, até então, que aquelas “caveiras de boi” jogadas no chão rachado eram meras caricaturas da seca no sertão, mas no caminho cruzamos com duas. Quando uma delas me encarou, senti uma estranha energia. A morte estava no acostamento daquela estrada e, para o meu azar, parecia querer trocar uma idéia comigo. Meu lado cético me tranqüilizou, mas a minha nascente alma de peregrino se preparou para o inevitável.

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Comentários (6)

Dani:

São Raimundo Nonato... pelo jeito vou ter que comprar o livro para apreciar as fotos.

Rijin:

Sacanagem pechinchar com o coitado do moto taxi

armando:

Guia obrigatório? Até no fim do mundo...

Amanda:

As fotos...deixa pra lá... Vai comprar o livro e me fala onde achou!!!

Concordo com vc em todos os aspéctos, sou do Piauí, de São Raimundo Nonato, essa inesquecível cidade pra quem conheceu e esquecida pelos políticos... realmente é triste morar nesse submundo, onde o descaso está em toda esquina, seu livro deveria virar um best seller! Parabéns!

Martin:

Nossa, estou lendo e olhando no GoogleEarth tudos os lugares dos que fala.

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