Até mesmo o mais forte dos
peregrinos precisa de um descanso
Mais atrasos do que tínhamos sofrido era impossível. Já passavam das onze e meia da noite e estava ansioso para chegar em Canto do Buriti. Sabendo que eu desceria lá, a mulher da poltrona da frente me recomendou uma pousada na saída da cidade, a cerca de dois quilômetros da rodoviária. Segundo ela, era o melhor lugar para se hospedar em Buriti.
Não agüentava mais ficar sentado. Já eram quase 26 horas dentro de um ônibus, dormindo e comendo muito mal. Quando estávamos chegando, fui lá para a frente avisar ao motorista. Ele confirmou que a pousada era o que de melhor tinha na cidade. Antes, fizemos uma parada de cinco minutos na rodoviária. Procurei me informar sobre os horários dos ônibus que iam até São Raimundo Nonato, cidade base para se visitar a famosa Serra da Capivara. Havia um que saía às nove da manhã, os outros só depois do almoço e à noite. Iria no primeiro. Só não comprei a passagem na hora porque me disseram que não havia necessidade.
Embarquei novamente no ônibus, muito bem-humorado, pois apenas dois quilômetros me separavam da mais completa redenção. Nem voltei para a minha poltrona, fiquei na cabine do piloto. Nos arredores da rodoviária, passamos por vários bares, com uma galera animada tomando uma cervejinha. Comentei com o motorista e ele me disse que os embalos de sábado à noite em Buriti eram convidativos. Mas só conseguia pensar em uma coisa: cama. Nunca pensei que fosse dar tanto valor à possibilidade de me esticar na horizontal.
O ônibus parou no meio de uma estrada muito mal iluminada. O motorista apontou para uma grande casa que ficava no fundo de um extenso terreno com muitas árvores e disse que a pousada era ali. Me despedi e desejei boa sorte no resto da viagem. Ele precisava, pois ainda restavam oito ou nove horas até chegar em Teresina.
Fui andando por um caminho escuro, me guiando por uma longínqua luz de televisão na varanda da casa. Quando estava quase na metade, fui recepcionado por um cachorro latindo, que bloqueava a passagem. Ignorei e segui em frente, mas me preparei para dar um bico no filho da puta caso ele resolvesse atacar. O barulho acordou o homem que estava assistindo televisão. A cara do coitado estava toda amassada. Ele deve ter desmaiado de sono durante o Zorra Total. Cumprimentei-o com o tradicional “boa-noite” e perguntei se tinha algum quarto livre.
– Tem sim. Com ar ou sem ar?
Ar? Uhu! A parada era boa mesmo! Nunca achei que poderia gozar do conforto de um ar-condicionado em uma pousada no interior do Piauí. Perguntei a diferença de preço:
– Com ar é vinte. Sem ar é quinze.
Porra, demorou! Seriam os cinco reais mais bem gastos de minha vida!
Ele me deu um pequeno formulário para fazer o meu registro. Fui escrevendo normalmente até chegar no campo “profissão”. Naquele momento eu travei. Fiquei longos segundos sem saber o que escrever. Tenho diploma de economista, mas na verdade me sustento fazendo alguns bicos e administrando um site de humor. Sou economista, biscateiro ou humorista? Mas agora também estou escrevendo um livro. Que merda! Sou economista, biscateiro, humorista ou escritor?
Ó dúvida cruel! Tudo seria muito mais simples se eu tivesse uma carteira de trabalho! Naquela cadernetinha azul estaria marcado algum nome específico para a minha profissão, legitimando para o universo o ofício que realizo para sobreviver. O problema é que sempre rejeitei essa porra. O apelido carinhoso que dou para a carteira de trabalho é “Certificado de Escravo”, e quando morrer quero que em minha lápide esteja escrito: Orgulhoso por nunca ter visto um episódio de Jornada nas Estrelas e por deixar este mundo sem preencher uma linha de sua carteira de trabalho.
Não é vagabundagem, até gosto de exercer alguma atividade produtiva de vez em quando. Afinal, tenho que ganhar um pouquinho de dinheiro para subsistir e outro montão para comprar várias coisas e ser feliz. O grande problema é aquela horrível sensação de estar sendo explorado por alguém mais burro e incompetente que você . Por enquanto, a melhor solução que encontrei foi tentar ser o meu próprio patrão. Assim, a pessoa que me explora é tão burra e incompetente quanto eu, evitando qualquer complexo. Não sei se vai funcionar, pois é bem provável que depois de um tempo eu passe a me odiar por estar explorando a mim mesmo e tente me vingar da maneira mais suja: comendo a mulher do patrão para depois contar para todo mundo que ele é um corno.
Se eu viajei até o Piauí sem nenhuma pergunta em mente, mas disposto a encontrar uma resposta, deu tudo errado. Acabei ficando com a pergunta e sem a resposta. Qual é a minha profissão? Adoraria ficar filosofando até o sol raiar, mas a cama me intimava. Para encerrar o assunto, escrevi: Geólogo.
O recepcionista me entregou a chave, um lençol e uma toalha de banho furada. Depois, me acompanhou até a “suíte 105”. Descarreguei minhas tralhas e, antes que ele fosse embora, pedi para ser acordado às oito da manhã.
O quarto tinha duas camas de solteiro bem antigas, uma escrivaninha, um ar-condicionado velho e uma janela coberta com uma cortina feita de toalha de mesa. Não era o lugar mais confortável do mundo, mas como não passava a noite em uma cama desde que saí do Rio, dois dias antes, estava plenamente satisfeito. Só não chapei na cama direto porque estava imundo. O ar contaminado que saía do banheiro do ônibus tinha penetrado em cada um de meus poros. O banho era absolutamente necessário.
Tirei a roupa e fui para o banheiro. Abri o registro e a água começou a cair em todas as direções, menos na minha cabeça. Tive que me transformar em um contorcionista para aproveitar os três filetes que pingavam. Além disso, a água estava gelada. Felizmente me recordei de uma prática de RAM, muito útil para aumentar a resistência ao frio: O EXERCÍCIO DO CONGELAMENTO.
O EXERCÍCIO
DO CONGELAMENTO
Ao entrar debaixo de uma cachoeira ou chuveiro muito frio, coloque a cabeça debaixo da corrente de água e comece a saltitar e cantar o “Abecedário da Xuxa” em voz alta. Conforme a música for avançando, desenhe mentalmente cada letra e imagine-as caindo do céu lentamente, como se fossem flocos de neve. Quando você chegar ao “Z”, o choque térmico já terá passado.
Aliviado, comecei a sentir as gotas caírem sobre o meu corpo nu. Adoraria iniciar aqui um relato sensual daquele momento, descrevendo detalhes de meu corpo ensaboado, do banheiro iluminado por velas e do delicioso aroma do incenso de lavanda que tomava conta do ambiente, provocando assim “calores” inexplicáveis em minhas leitoras, mas é melhor não. Até porque na hora de descrever um “membro pulsante e rijo” teria que apelar para a ficção, pois a primeira reação à água gelada batendo no meu corpo foi protagonizada por “ele”, que se escondeu como uma tartaruga amedrontada.
De repente tive uma forte impressão de estar sendo observado. Será que o recepcionista era um voyeur e estava me espionando pela janela basculante? Usei a mão para cobrir o meu púbis, tentando preservar um pouco de minha intimidade. Aos poucos virei a cabeça, tentando conferir se o ambiente estava seguro. Tomei um tremendo susto! Dois olhos esbugalhados estavam acompanhando meus movimentos. Era um sapo grudado na parede! Fiquei desesperado, não por sentir nojo de sapos, mas porque estava completamente surpreso com aquilo. Nunca tinha visto um sapo grudado na parede! Estava diante de um ser mutante, um perigo desconhecido! Aquilo era um híbrido de uma lagartixa com um sapo! Um lagarsapo !
Assoprei espuma na cara da criatura para tentar espantá-la, mas ela permaneceu imóvel. Enchi a boca com água e apelei para um poderoso cuspe, mas também não funcionou. O lagarsapo estava determinado a espiar o meu momento íntimo. A solução foi tomar o resto do banho virado de frente para o bicho, ficando alerta a qualquer sinal de ataque ou excitação.
Mesmo com tantas dificuldades, consegui lavar até a minha alma. Estava me sentindo limpo e pronto para cair nos braços de Morfeu. Bom, me senti limpo até deitar naquele colchão velho, mas pelo menos foram poucos segundos. Como medida preventiva, passei o repelente de mosquitos. Foi a última coisa que me lembro ter feito. Morri por algumas horas, como se aquela cama fosse um caixão. Muitos dizem que quando a morte se aproxima é possível sentir a sua presença. Naquele instante não dei importância para isso, mas no dia seguinte mudaria de idéia.
Comentários (15)
Graças a Deus n continuou com a pessima ideia do relato do banho...
mas o sapo gay foi interessante
Postado por Caram | dezembro 6, 2007 3:07 PM
Posted on dezembro 6, 2007 15:07
chorei de rir com seu exercício de RAM
PQP!!!
Postado por Lucas | dezembro 7, 2007 2:53 AM
Posted on dezembro 7, 2007 02:53
Lagarsapo foi foda cara...muito bom!
Postado por Marcelo | dezembro 7, 2007 11:18 AM
Posted on dezembro 7, 2007 11:18
a pousada ficava a 2 km da rodoviária? porra, cidade grandinha hehe...
e o anfíbio que vc viu provavelmente é uma perereca. que eu saiba, sapos não grudam na parede.
Postado por marcel | dezembro 7, 2007 8:42 PM
Posted on dezembro 7, 2007 20:42
Extremamente erótico o sapo na parede, antes fora uma perereca, hã.
Postado por Dani | dezembro 8, 2007 8:34 AM
Posted on dezembro 8, 2007 08:34
Putz, o Manson nunca viu uma rã??
Também conhecida como jia??
Essas coisas realmente não devem existir em apartamento de nerd criado pela avó. :)
Lagarsapo?! Eu hein!!
Postado por PG | dezembro 8, 2007 11:57 AM
Posted on dezembro 8, 2007 11:57
O Manson flertou com a Honey e teve medo da perereca...sei não!
Postado por Felix | dezembro 10, 2007 6:44 PM
Posted on dezembro 10, 2007 18:44
Ihhh... o carioca não conhece uma perereca nem quando vê uma!
Postado por Mario Chaves | dezembro 11, 2007 12:55 PM
Posted on dezembro 11, 2007 12:55
veja e analise a parte deste livro que fala do nosso canto do buriti.
Postado por DETINHA | dezembro 17, 2007 10:24 PM
Posted on dezembro 17, 2007 22:24
Bela análise do trabalho no/para o sistema capitalista. Normalmente, é isso mesmo: se trabalha pra alguém mais estúpido que o próprio escravo...
Postado por armando | dezembro 22, 2007 4:53 PM
Posted on dezembro 22, 2007 16:53
eu nao concordo com a analise. se ele fosse + estupido do que vc, seria ELE que trabalharia pra vc.
ele que é o esperto, o patrao.
mas foda-se pra analise, o livro é bacana. mas o capitulo 9 foi de longe o melhor ate agora.
Postado por jackson | dezembro 28, 2007 11:48 AM
Posted on dezembro 28, 2007 11:48
Mora em apartamento criado pela avó?
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAH
Pobre, fudido e burro!
Postado por ana | janeiro 6, 2008 10:20 AM
Posted on janeiro 6, 2008 10:20
Sou de canto do buriti e gostei do seu ponto de vista sobre o hotel, más você tem medo de sapo e essa ea verdada, sua moça.
Postado por joselio viana | janeiro 26, 2008 6:15 PM
Posted on janeiro 26, 2008 18:15
Sou de canto do buriti e gostei do seu ponto de vista sobre o hotel, más você tem medo de sapo e essa ea verdade, sua moça.
Postado por joselio viana | janeiro 26, 2008 6:15 PM
Posted on janeiro 26, 2008 18:15
Sou de canto do buriti e gostei do seu ponto de vista sobre o hotel, más você tem medo de sapo e essa ea verdade, sua moça.
Postado por joselio viana | janeiro 26, 2008 6:15 PM
Posted on janeiro 26, 2008 18:15