A melhor explicação para o
inexplicável é admitir a dúvida
A estrada continuava péssima, mas já demonstrava pequenos sinais de melhora. Segundo meu mapa, ainda restavam cerca de três horas de viagem até chegarmos em um povoado que já tivesse descoberto a maravilhosa tecnologia do asfalto.
O ônibus continuava se embrenhando pelo cu-do-mundo e raramente algum casebre se infiltrava na paisagem de arbustos com galhos secos e retorcidos. A tarde foi passando bem devagar. Tive o desprazer de saborear cada segundo daquele longo dia. Anoitecia quando paramos numa cidadezinha. Já estava animado para descer, mas a parada foi para pegar mais passageiros. Três pessoas já tinham subido no ônibus, mas continuamos parados por quase dez minutos. O motivo: um dos passageiros, cansado de esperar ali na praça, voltou para casa e pediu para ser avisado quando o ônibus chegasse. Mais de 40 pessoas ficaram à disposição do infeliz, que provavelmente ainda tomou um café e deu uma cagadinha antes de sair. Desfrutes típicos de cidade pequena.
Após 20 minutos de espera, o arrombado chegou. Quando achei que voltaríamos ao ritmo normal, o motorista encostou novamente uns 700 metros adiante. Era a nossa parada, 20 minutos para lanchar. Porra! O imbecil fez a gente perder 20 minutos esperando o cara quando poderíamos ter feito isso já na parada! Cada vez mais me surpreendo com a capacidade que alguns seres humanos têm de ser burros.
Já estava tão puto que nem me surpreendi quando não encontrei nada comestível. Encarei mais uma coca com biscoito. Fui o último a embarcar no ônibus, logo atrás do “galego”, e percebi que ele tinha comprado mais uma garrafa de cachaça. A noite prometia.
Turbinada com a pinga, a roda de conversa do corredor ficou mais animada. A noite foi avançando e finalmente a estrada melhorou. Mal pude acreditar quando o ônibus parou de pular e começou a ganhar velocidade. Fiquei tão emocionado que quase pedi para o motorista encostar para que eu pudesse dar um beijo naquele asfalto abençoado. Não demorou muito para o meu atrasadíssimo sono se manifestar e em poucos minutos desmaiei. Mas antes de apagar, ainda consegui ver algumas velhas que estavam nas primeiras poltronas se queixarem do barulho feito pelos cachaceiros.
Dormi, ou melhor, fiquei em coma por quase uma hora e meia. Já passava das nove da noite quando abri os olhos e vi que estávamos em mais uma parada. Continuei dormindo. De repente, acordei com uma gritaria. Eram dois homens discutindo. Tirei a camisa que cobria o meu rosto e levantei a tempo de ver o motorista falando para o “galego”:
– Vai já pra tua cadeira! Eu já disse pra tu ficar quieto!
O “galego” ainda tentou resistir ao empurrão, mas não foi páreo para a bifa que levou na cara. Caiu no corredor, nocauteado. Os amigos ainda tentaram ajudar, mas o motorista estava “possuído” e ameaçou encher de porrada todo mundo que entrasse na frente. O cara nem era forte, mas a firmeza nas palavras era tanta que ninguém ousou desafiá-lo.
Me belisquei para ver se não estava sonhando. Aquela pancadaria só podia ser mais um presente divino. Não era possível uma simples viagem de ônibus ser recheada com tantos eventos inusitados, quase cômicos.
Mais uma vez os babacas do “deixa disso” entraram em ação. O motorista voltou ao seu posto e colocou o bonde em movimento. A turma do “galego” começou a encher a cabeça do mané, falando que aquilo era uma agressão, que tinham que fazer um exame de corpo delito, dar queixa na empresa, testemunha pra cá, meu tio é da polícia pra lá. Aquele típico papo “pós-rebu”, quando todos viram doutores em direito num passe de mágica.
Mas, para espanto geral, quem parou na porta da delegacia por livre e espontânea vontade foi o motorista. Ele que iria dar queixa. Por causa deste fato inesperado, os passageiros se dividiram claramente em quatro grupos distintos:
1º - Os velhos: putos com a bagunça e dispostos a depor a favor do motorista. Aparentemente, a briga havia começado após uma das senhoras exigir que o motorista tomasse providências para acabar com o barulho.
2º - A turma do “galego”: como a viagem era longa, se sentia no direito de bater papo. Alegavam que o motorista “perdeu a razão” ao agredir o amigo, pois tudo poderia ser resolvido sem que ninguém “partisse para a ignorância”.
3º - Os passageiros figurantes: não davam razão nem para um nem para outro. Estavam putos com mais um atraso, pois certamente teriam que ficar mais de uma hora parados na frente daquela merda de delegacia.
4º - EU: sorrindo de orelha a orelha. Acho que eu era o único a me divertir com a confusão. Agradecia aos céus por ter me dado a oportunidade de fazer uma peregrinação por um local tão mágico e estava pouco me lixando para quanto tempo perderia ali. Naquele momento tive a certeza de que a Transpiauí tinha tudo para se transformar em uma grande rota de humoristas em busca de “sua essência interior”.
Os velhos e a turma do “galego” desembarcaram do ônibus para depor. Como não sou otário, aproveitei para descer também e ver o circo pegar fogo mais de perto. Conversa vai, conversa vem, mas nenhum sinal de resolução. Na verdade, aquele bate-boca na porta da delegacia não estava valendo nada, pois o delegado não estava lá. Foram chamá-lo em casa para resolver o assunto.
Depois de meia hora a viatura chegou com o sujeito. Ele saiu do carro e veio andando devagar, como se fosse o senhor da situação. Fiquei entusiasmado, pois seria ali, no interior do Piauí, que teria a oportunidade de presenciar uma conciliação de conflito no mais puro estilo da “justiça do Rei Salomão”. Estava tudo nas mãos do delegado. Ele ouviria os dois lados e com uma palavra sábia daria fim à discussão.
Infelizmente, o episódio não se desenhou tão justo e romântico. A primeira coisa que o delegado fez foi cumprimentar o motorista com um caloroso aperto de mão e um tapinha nas costas. Os dois aparentavam ser amigos de longa data e na mesma hora vi que os amigos do “galego” estavam na merda. O delegado perguntou:
– Qual é o problema?
O motorista apenas apontou para o “galego” e mais três amigos. O delegado, sem dizer nada, fez um sinal para os quatro entrarem. Quinze minutos depois, o motorista saiu da delegacia com um sorriso de satisfação. Logo em seguida, saíram os quatro rapazes, todos com a cabeça baixa. Eles só voltaram ao ônibus para pegar as mochilas. Perguntei para o que me ordenou padre o que tinha acontecido:
– Vamos ter que ficar por aqui, o motorista disse que não levaria mais a gente. A solução vai ser voltar para a parada na beira da estrada e pegar o próximo ônibus, que deve passar amanhã de manhã.
Dos males o menor. Pelo menos eles não entraram na porrada (o que seria normal, caso o assunto fosse resolvido numa delegacia do Rio de Janeiro). Também não ficaram no prejuízo financeiro, pois o motorista endossou as passagens atuais para que eles seguissem viagem no ônibus seguinte. A única merda seria ficar a madrugada inteira jogados ao relento na maravilhosa cidade de Cristino Castro, problema facilmente contornável com um baralho e uma garrafa de cachaça.
Antes da partida, o “galego” se despediu do pessoal do ônibus, se desculpando por qualquer incômodo. Disse que ele só estava tentando se divertir para o tempo passar mais rápido. Olhou para mim, que já estava acomodado em meu refúgio, abriu um sorriso e acenou com a mão. Não entendi o porquê daquilo e fiquei ainda mais confuso quando ele falou:
– Boa sorte aí, carioca, espero ter ajudado.
Caímos na estrada novamente e a calma passou a dominar o ambiente, mas ainda fiquei um tempo sem dormir. As últimas palavras do “galego” me deixaram intrigado. Por que elas foram dirigidas a mim? Em que ele achava que tinha me ajudado? Será que, no fundo de sua embriaguez, ele estava consciente de todo o episódio e do importante papel que ele assumiria em meu relato, ou aquilo foi apenas mais um delírio de bêbado? Mistério e comédia. A Transpiauí estava novamente me mostrando ser um lugar especial, contendo os ingredientes perfeitos para fazer um peregrino refletir.
Comentários (8)
hahahah
bizarrice!!!
Postado por Lucas | dezembro 7, 2007 2:43 AM
Posted on dezembro 7, 2007 02:43
(...)Cada vez mais me surpreendo com a capacidade que alguns seres humanos têm de "ser" burros.
Não seria "Serem"?
Postado por lucas | dezembro 7, 2007 10:58 AM
Posted on dezembro 7, 2007 10:58
Ahhhh... estes cariocas... como são cismadinhos.
Agora eu tô dando uma pausa respiratória.
Volto djá!
Postado por Dani | dezembro 7, 2007 7:35 PM
Posted on dezembro 7, 2007 19:35
será que era o mesmo motorista desde o começo da viagem? se for, esse cara é um herói.
Postado por marcel | dezembro 7, 2007 8:34 PM
Posted on dezembro 7, 2007 20:34
Mas...e a velha? Aquela que entrou bêbada no busão?
Postado por Felix | dezembro 10, 2007 6:34 PM
Posted on dezembro 10, 2007 18:34
decifrei o enigma do galego.
certamente ele sabia que nosso protagonista não se tratava nem de padre nem de mago, porque padre não fica rindo da desgraça alheia, mas foi graças a ele que essa imagem foi vendida ao resto de seus conterrâneos. pense que uma interrogação do galego serviria pra suscitar a dúvida em todo o ônibus. um "mas tu é padre mesmo?" poderia ter-lhe ferrado a viagem, mr.manson.
Postado por bruno | dezembro 19, 2007 6:24 PM
Posted on dezembro 19, 2007 18:24
O que o galego comprou foi pinga mesmo. Cachaça não encontrariam num lugar daqueles.
Boa narrativa, boa lembrança do que aconteceria numa delegacia "de verdade"...
Postado por armando | dezembro 22, 2007 10:41 AM
Posted on dezembro 22, 2007 10:41
A velha tava no busão até Barreiras imbecil.
Postado por Igor | dezembro 22, 2007 3:33 PM
Posted on dezembro 22, 2007 15:33