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Capítulo 10: A maldição

Anos vão se passar e, quando eu menos esperar, uma tragédia vai acontecer e eu me lembrarei daquele dia


Estava aliviado por chegar em Corrente, pois acreditava que já tivesse vencido o pior trecho da Transpiauí. Passava da hora do almoço e os “Ruinzitos” com coca não sustentavam mais a fome. Quando desci do ônibus, dei uma manjada nos arredores e agradeci sinceramente o conselho do vendedor de passagens de Barreiras que havia me dito para seguir até Buriti. Corrente parecia uma cidade fantasma, com alguns mortos-vivos circulando pelas ruas de terra debaixo de um sol escaldante. A chegada do nosso ônibus devia ser o acontecimento mais importante do dia.
A rodoviária também era muito simples. Um guichê para venda de passagens, um boteco, camelôs vendendo frutas e um restaurante que fez meu apetite ir embora novamente. Apelei mais uma vez para o boteco, comprando um biscoito doce e outra coca. Já tinha me convencido de que não comeria nada melhor durante o resto do dia. Se comida em beira de estrada já é perigosa, imagine comida na beira da Transpiauí, que de estrada tinha bem pouco.
Quando coloquei a mão na carteira para pagar a conta, senti um grupo de pessoas se aproximar. De repente alguém segurou meu braço, me dando um enorme susto. Virei rapidamente e me vi cercado por quatro ciganas, todas desdentadas e pronunciando palavras indecifráveis. Mesmo sem entender porra nenhuma, percebi logo que o interesse delas estava na minha carteira.
Tentei me afastar com educação, falando que não estava interessado em nada, mas aparentemente elas também não entendiam a minha língua, pois continuavam a me segurar com firmeza. Fiquei nervoso e acabei falando mais grosso. Com um movimento brusco me livrei da cigana, que naquela altura do campeonato já me agarrava com as duas mãos. Enquanto me afastava, puto da vida, ainda ousei dar uma olhada para trás. Uma das ciganas, aparentemente muito ofendida, resmungava algumas palavras e fazia sinais estranhos. O frio que senti na espinha me deu a certeza de que estava sendo amaldiçoado.
No dia 25 de janeiro de 2003, na cidade de Corrente, Piauí, me tornei um ser amaldiçoado. Até hoje não sei qual será a mancha que em algum momento se esparramará sobre a minha “linha da vida”, só sei que ela está lá, aguardando pacientemente o seu momento de vingança.
Perdido, sem saber o que fazer, fui até o banheiro lavar o rosto. Lá, vi o primeiro exemplo do idioma local, o “piauiês”. Eram duas portas: em uma estava escrito “MASCUINO” e na outra “FEMENINO”. Deduzi que tinha que entrar na primeira (para minha sorte, o piauiês é bem menos complicado que o alemão ou chinês). Logo ao lado do banheiro, tinha uma placa com a data de fundação da rodoviária. Aquele populismo de sempre: nome do prefeito, do secretário de obras, agradecimentos... Fiz questão de ler tudo, me certificando que a placa estava em português. Deve ter sido importada.
Quando peguei a máquina para bater uma foto das portas, vi Mirian Honey. Ele estava saindo do banheiro “femenino”. Fiquei confuso. Fui no “mascuino” de novo só para me certificar que havia visto um mictório lá dentro, me isentando de qualquer gafe. Realmente erao que parecia ser. Mirian tinha assumido o seu lado mulher, fazendo questão de mijar sentado .
Passei a prestar mais atenção nele e vi que ser gay no Piauí era uma coisa complicadíssima. Se ele quisesse usar o “mascuino”, provavelmente seria repelido pela galera homofóbica com medo de ser vítima de uma “manjada de rola”. Mas se ele entrasse no “femenino”, seria hostilizado pelas mulheres, que se queixariam com seus homens: “Olha que viado abusado!”
Deve ser menos doloroso escutar um comentário desses do que tomar uma porrada de algum macho incomodado com a manjada de rola. Para sorte de Mirian, o banheiro do ônibus já estava sendo consertado. Era um verdadeiro santuário unissex, onde o traveco poderia tirar uma água do joelho sem se preocupar com as conseqüências.
Essa parada era longa. O motorista deu meia hora para o almoço.Como era impossível comer naquele restaurante, resolvi minha vida em cinco minutos. Não podia voltar logo para o ônibus porque ele estava sendo limpo. Resolvi, então, matar o tempo numa pracinha em frente à rodoviária. Me escondi do sol embaixo de uma árvore e deitei, tomando o cuidado para não cochilar. Se dormisse, correria o risco de perder o ônibus e ficar ali naquele fim de mundo.
O tempo passou extremamente devagar. O único movimento à vista era o dos passageiros do meu ônibus entrando e saindo do restaurante. Um vira-lata bem magricelo se aproximou e acabou ganhan-do um biscoito de presente. Mostrando gratidão (ou interesse), se sentou ao meu lado e me fez companhia naquele doloroso momento de solidão. Me amarro em cachorros de rua. Estão sempre dispostos a nos dar um pouco de atenção em troca de um farelo. Em menos de três minutos, já tinha construído um sólido relacionamento com meu novo amigo canino e já tinha até pensado em um nome para ele: Piauí. O seu olhar era profundo, quase hipnótico. Provavelmente ele estava apenas agindo como um cachorro pidão, mas mesmo assim sentia que ele estava enxergando no fundo de meus olhos a minha alma perdida naquele lugar distante.
O cão é realmente o melhor amigo do homem e até hoje lamento nunca ter podido conviver com um, pois sempre morei em apartamentos. Acho que tenho um talento nato para dar nomes a bichos de estimação. Um pastor alemão preto e outro branco poderiam se chamar Pagão e Cristão; um Labrador creme, Soja; um São-Bernardo, Birita (com direito ao barrilzinho de conhaque na coleira); um cão-guia de cegos, Bússola, um gato cinza, Nicotina. Enfim, são tantos nomes que nunca vou conseguir concretizar este sonho. Por isso fico extremamente revoltado com pessoas idiotas que não imaginam a sorte que é ter um animal de estimação e dão nomes como nomes como Rex ou Totó.
Outro empecilho: a compra de um cachorro exige um compromisso de pelo menos uma década. Os riscos de se investir nesse tipo de relação são enormes. Pensando nisso, inventei uma agência que alugava animais de estimação. Fiz um site com fotos, biografias dos bichos e formulário para contato. Depois divulguei-a sutilmente no Cocadaboa, sem contar para ninguém que era mentira. O texto e o design estavam muito bons e convenceram até os meus amigos mais próximos.

Agora ficou fácil ter um bicho de estimação!

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Se não perdesse tempo tentando ser humorista, provavelmente iniciaria o empreendimento para valer. O número de clientes interessados foi absurdo. Em poucas semanas, o falso site virou até notícia de TV e atraiu milhares de visitas. Infelizmente, fui incomodado por alguns malas que se dizem “protetores dos animais”. Suas mentes pouco evoluídas não foram capazes de compreender este conceito revolucionário.
Estava tão distraído contando minhas aventuras para Piauí que mal percebi quando o pessoal começou a embarcar. Quase perdi o ônibus. Fui chamado para prosseguir com a tortura, digo, viagem. Levantei e me despedi de Piauí, que ainda ameaçou me seguir até o ônibus. Antes que ele desse o segundo passo, falei:
– Piauí, é melhor você ficar por aqui. Despedidas são muito tristes, mas tenho certeza que algum dia nos encontraremos novamente.
Joguei um outro biscoito e ele entendeu a mensagem. Meu coração estava se partindo, mas tinha que deixar “meu cãozinho” para trás. Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar, tentando inutilmente conter as lágrimas que ameaçavam cair. Quando sentei em minha poltrona, aquele amigo do “galego” perguntou:
– O que foi, padre?
– É o Piauí, meu filho. Não queria abandoná-lo.
Quando o ônibus deixou o pátio da rodoviária e contornou a praça, ainda pude dar uma última olhada em Piauí. Ele estava urinando na árvore que estava encostado, provavelmente demarcando seu território na esperança de um dia encontrar novamente seu amigo.
Percebi que Mirian Honey estava tão abalado quanto eu. Acho que o episódio do banheiro “femenino” havia mexido com ele. Mas ao invés de ficar na sua, a bicha começou a se expandir e contar lorotas ainda mais picantes do que as anteriores. Logo ele voltou a ser o centro das atenções, remediando assim a sua baixa auto-estima.
Com a platéia formada, Mirian falou que estava viajando para se encontrar com um amante milionário que tinha uma fazenda no interior do Maranhão. Aproveitou a oportunidade para se vingar das mulheres que o haviam discriminado no banheiro, dizendo em alto e bom som que a maioria dos homens que o procuram são muito bem-casados, mas que suas mulheres são muito incompetentes e não sabem segurá-los na cama. A putaria foi ficando tão avançada que a senhorita Honey já estava quase cedendo às pressões populares para mostrar os seus seios que, segundo ele, tinham sido “artesanalmente siliconados”.
As provocações foram ficando mais pesadas, fazendo com que uma das mulheres vestisse a carapuça e rebatesse as insinuações do traveco. O clima esquentou e quando vi a mulher estava de pé, defendendo calorosamente o charme feminino. Mirian não deixou barato e pegou ainda mais pesado. A platéia não ajudava. Queria ver sangue e botava ainda mais lenha na fogueira. Fiquei na minha, mais uma vez usando a tática do documentarista do Discovery, mas confesso que estava torcendo para rolar uma porradinha básica, só para colocar um pouquinho de sal naquele dia horrível.
Em poucos minutos, o corredor do ônibus já havia se transformado numa cópia do Programa do Ratinho. Gritos, palmas, batucadas... O vulcão estava prestes a entrar em erupção quando uma criança que estava cruzando o corredor para ir até o banheiro não conseguiu segurar o vômito e largou tudo bem no meio da galera. O líquido era bem alaranjado e, apesar do aspecto quentinho, funcionou como uma verdadeira ducha de água fria nos ânimos exaltados. Ainda bem que o moleque vomitou longe de minha poltrona, limitando meus prejuízos apenas ao fim do espetáculo de porradaria. A turma do “deixa disso” aproveitou para entrar em ação, afastando a mulher e fazendo o traveco ficar na dele.
E lá se foi a minha chance de desfrutar de um dos melhores entretenimentos da face da terra: a briga de mulheres. Tudo bem que o traveco não era exatamente uma mulher, mas se briga de viado também é maneiro de assistir, uma briga entre uma mulher e um viado não deve ficar muito atrás. Frustrado, resolvi voltar para meu walkman. Não sei se as pilhas estavam fracas ou se havia alguma perturbação no campo magnético daquela região, mas a música estava soando de um modo estranho, como um aviso de que algo surpreendente iria acontecer.

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Comentários (11)

vinicius:

1 real pra quem descobrir 1º quantas vezes o MrManson cita a frase:

"Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar"

vinicius:

1 real pra quem descobrir 1º quantas vezes o MrManson cita a frase:

"Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar"

PG:

Dois reais pra alguém cravar com força a unha do indicador na raiz da glande do comentarista.

Caram:

ele nem deve ter notado q na fatidca o Manson trocou o dedão pela glande...

lucas:

Ele devia ter comprado em alguma das paradas alguma FITA sahusahusa de algum cantor local

Dani:

Olha aqui, preciso fazer outras coisas na minha vida. Me seggggggguuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuraaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!

Pausa para os comerciais.

marcel:

"defendendo calorosamente o charme feminino." haha. já imagino o naipe dessa charmosa representante feminina...

Felix:

Esse traveco devia ser um freak show ambulante.

[ ]s

armando:

Cachorrada de sua parte. Em vez de prestar atenção no povo, fica de putaria com um cão...

Lívio "Piauí":

É muita emoção saber que o Mr.esteve em minha cidade(Corrente).
Pow,mas o cara de Barreiras tbm sacaneou heim,tem uns hotelzinho até mais ou menos por lá.
O foda é que agora lá por aquelas bandas tem asfalto novo.Vai encarar a viagem de novo????

Ana:

1 real, 2 reais, 3 reais? No RIO é assim? Nossa!!! Tão pouco... Tão pouco...

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