Categoria: Odisseu Kapyn
A moça abre a porta do banheiro de supetão e dá de cara com o marido lendo a Playboy do mês. Na capa da revista, uma assistente de palco de um programa da Globo.
- O que é isso?!! Você está vendo justamente essa revista! Logo essa edição!
- Calma, querida! Não é nada disso que você está pensando. Pode ver: nem estou nu! E o Narigãozinho está em estado de repouso!
A moça abre a porta do banheiro de supetão e dá de cara com o marido lendo a Playboy do mês. Na capa da revista, uma assistente de palco de um programa da Globo.
- O que é isso?!! Você está vendo justamente essa revista! Logo essa edição!
- Calma, querida! Não é nada disso que você está pensando. Pode ver: nem estou nu! E o Narigãozinho está em estado de repouso!
- Você sabe que eu odeio quando você chama o seu pênis de Narigãozinho!
- Calma, meu amor. Deixa eu me explicar...
- Como você pode fazer isso comigo? Tinha que ficar olhando logo essa revista?
- Querida, me escuta. Ela não significa nada pra mim.
- Nada? Então por que você estava trancado para ver a revista?
- Porque eu sabia que você não ia gostar de saber que estou vendo as fotos dela.
- Se sabia, por que olhou mesmo assim?
- Porque eu preciso. É o meu trabalho. Minha obrigação. Eu tenho que ver como elas estão nas fotos. São minhas colegas de trabalho.
- Ah, nem vem com essa coisa Silvio Santos de “colegas de trabalho”. O Silvio chama de colegas de trabalho as macacas de auditório que vão lá nos programas dele e não as vagabundas que ficam rebolando por perto.
- Querida! Não fala assim delas! Não são vagabundas!
- Ah, não? São o quê, então?
- Elas são... elas são... são minhas filhas.
- Como?
- Sim, são minhas filhas.
- O que você quer dizer com isso?
- Eu as vejo como minhas filhas. Não sinto nada diferente por elas... (começa a chorar).
- Você... está chorando? Que foi? Por que você está assim? Você está tremendo!
- Ai, amor. Você nunca vai entender o meu drama. Essa mulher na capa da Playboy é apenas mais uma tortura pra mim. É o jeito de Deus zombar de mim. Ou o diabo, sei lá.
- Como assim?.
- Ah, querida. Se você soubesse como sou um desgraçado. Agora já não lamento tanto, já que nos casamos. Mas imagina a situação quando eu era solteiro, livre, solto pra pegar quem eu quisesse. Tendo meu próprio programa, eu podia ter muitas mulheres, mas nunca consegui ter as que mais eu queria, as que mais ganharam destaque na mídia.
- Querido...
- É isso mesmo. Eu preciso confessar. Primeiro eu criei aquela primeira mulher, que usava chicotinho. Um tesão. Uma loucura, loucura, loucura. Mas quando tive a chance de comer o prato que eu mesmo preparei... nada! Não consegui. Não sei o que deu em mim. O Narigãozinho não respondeu...
- Narigãozinho... (em tom de reprovação)
- Aí eu decidi tentar de novo. Não com ela outra vez, pois não tive coragem de olhá-la nos olhos (por isso eu exigia que ela sempre usasse máscara). Resolvi criar outra mulher, outra fêmea. Outra Eva.
- Você estava brincando de Deus...
- Sim, eu era Deus. E quis brincar, sim. Quis brincar de boneca. Criei aquela outra, meio mulher, meio boneca de plástico. Caprichei no silicone e dei-lhe vida. E quando fui usufruir de meus direitos autorais, de novo o Narigãozinho não correspondeu. O feitiço virou contra o feiticeiro. Eu já estava ficando louco...
- Calma, amor...
- Fiz análise e tudo pra descobrir o porquê dessa impotência. Foi quando descobri que elas eram minhas filhas.
-No sentido figurado, claro.
- Óbvio. E eu tenho idade pra ser pai delas?
- Ehrrr, esquece, eu estou nervosa...
- Elas eram minhas filhas, minhas criações. Por isso eu não conseguia fazer nada com elas. O tempo passou e mais mulheres foram surgindo ao meu redor. Eu não consigo parar de criar mulheres...
- Na verdade, elas não foram criadas por você. Elas já existiam e você apenas as deixou famosas...
- Não! Se elas não eram famosas, elas não existiam! Você não compreende isso? E foi assim, meio sem querer, que criei outra mulher, uma ajudante de palco que foi ganhando projeção. E logo ela foi parar na Playboy também, como as outras duas. Dessa vez nem tentei nada. Só a revista já me deu a indicação que o Narigãozinho também a via como filha. Eu me sentia um banana. Bananinha...
- Bom, isso até é bonito, amor...
- Não! Você nunca vai entender. Você é mulher. Agora vem essa outra ajudante de palco, num ensaio sensacional como este, com direito a genitália aparecendo, e eu não consigo olhar fixamente para a foto. Fico com vergonha, pois sei que ela também é minha filha.
- Ai, amoreco. Não fica assim. Eu entendo o seu problema, querido. Vem cá, me dá um abraço. Você tem a mim. Sou toda sua e do seu Narigãozinho. Você me deu tanta coisa boa. Amor. Um filho. Novas oportunidades na carreira...
- Jura? Você acha que nosso casamento te ajudou na carreira?
- Ah, sempre ajuda. Famosos faturam mais juntos. Casais de celebridades dão certo. Tem os comerciais, a exposição com as fotos nas revistas... O público adora. Eu te amo muito e isso é o mais importante, mas não posso deixar de admitir que você deu novo fôlego à minha carreira.
- Então... Eu te recriei...? Eu refiz você?
- De certo modo, sim... Agora vem cá, vamos fazer as pazes do melhor jeito!
- Acho que não, minha filha.
Odisseu Kapyn
www.revistam.com.br/blog
Envie para um amigo:





