Categoria: Odisseu Kapyn

Os novos rivais das ciganas

Enche um pouco o saco ter que ficar se desvencilhando das ciganas pelas ruas. E acho que muita gente pensa igual, pois o número dessas tradicionais nômades está diminuindo. Talvez seja porque cada vez menos gente pare para falar com elas e lhes pagar para saber seu futuro. Mas acho que as ciganas na verdade foram expulsas por um outro grupo, que usa as mesmas táticas dessas profissionais da abordagem.

De vez em quando aparece pelas ruas do Centro um grupo de ciganas, daquelas tradicionais, com vestidos típicos e jeito misterioso. Sua atividade principal é andar displicentemente pelas calçadas, olhando atentamente para a cara dos cidadãos que vão passando. Como um lince, ficam à espreita de alguém que elas achem que vão parar quando for abordado. É quando elas partem para cima, muitas vezes já partindo para o contato físico, segurando até o braço da pessoa. Dizem algo como "me deixa ler sua mão", ou suas variáveis utilizando a palavra "sorte" ou a enigmática "linha da vida". Se você acredita nos poderes premonitórios das ciganas, não custa parar e ouvir o que essas tradicionais nômades têm a lhe dizer. Ou melhor, custa. Pouco, mas custa. Convém dar a elas, depois da rápida consulta, algum trocado. Se o pagamento não vier, o sujeito fica à mercê da famosa praga de cigana, cujos terríveis efeitos ficam por conta da imaginação do freguês (há quem acredite que a maldição pode fazer um ser humano se curvar todo e ficar olhar eternamente para a ponta dos próprios pés).

Mas quem acha que praga de cigano nada mais é do que uma canção irritante dos Gipsy Kings (Djobi, djoba! Cada día que te quiero más!) e não tem medo de superstições nem acredita em leitura de mãos pode dizer que essas mulheres só fazem perturbar os transeuntes. É curioso e tal, mas enche um pouco o saco ter que ficar se desvencilhando das ciganas pelas ruas. Me desculpem as ciganas, mas é chato mesmo. E acho que muita gente pensa igual, pois o número dessas tradicionais nômades que circulam pelo Centro está diminuindo. Talvez seja porque cada vez menos gente pare para falar com elas e lhes pagar para saber seu futuro. Mas acho que as ciganas na verdade foram expulsas por um outro grupo, que usa as mesmas táticas dessas profissionais da abordagem: os jovens anunciantes de empréstimos pessoais.

Reparem bem nesses rapazes e moças que andam uniformizados pelas ruas à procura de clientes. Eles fazem exatamente como as ciganas. Ficam de tocaia até passar alguém que eles achem que ouvirá o seu papo furado. Aí vão atrás do alvo, andam junto das vítimas e vão soltando o verbo para tentar empurrar uma verba. É ou não é uma abordagem cigana? Só falta pegar pelo braço e pedir para ler a sua mão. A sua testa, eles já leram e estava escrito "devedor". É, pois eles só vão em cima de quem eles acham que têm cara de duro, de que está sem grana. Se você passa incólume por um desses profissionais de firmas de empréstimos pessoais, sem ser amolado, é porque está com cara de quem está bem de vida, de que não está devendo na praça.

Aí alguém vai me dizer "ah, mas essas firmas são ótimas, quebram o maior galho de quem está precisando de dinheiro rápido". Ok, ok. As empresas podem ser boas, honestas, sinceras e limpinhas, mas cometem o terrível erro de usar esses ciganos modernos para captar clientes. Sempre que vejo a loja de uma dessas instituições financeiras na mesma hora me lembro desses chatinhos que ficam atrás de você querendo lhe emprestar dinheiro. Por que não apenas anunciam seus serviços na mídia? Antigamente, no século 20, era muito mais simples e confortável saber dos préstimos de alguma empresa, bastava ler um jornal, ver televisão, ouvir o rádio ou olhar o outdoor. Mas agora temos que fugir dos anúncios, pois eles se apossaram do corpo de jovens desempregados e andam atrás de você pelas ruas. Só tenho medo que um dia os anúncios se apossem dos corpos dos ciganos. Já pensou ser perseguido por uma cigana dizendo que sua mão está devedora e que sua linha da vida está precisando de uma linha de crédito? Quem é que praga pra ver?

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

Texto publicado originalmente na edição de novembro de 2006 no jornal Avenida Central.

as 14/01/07, 22:07

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