Categoria: Autores Convidados
A menos que, como Michel Melamed, você não tenha tv e nem internet em casa para se dedicar à literatura, você deve saber que a onda agora é fazer filmes de super-herói.
Batman, X-Men, Justiceiro, Elecktra, Quarteto Fantástico, Super Homem, HellBoy, Zico, Bob Esponja… basta vestir collant, ter poderes estapafúrdios e apetrechos que deixem dúvidas sobre a orientação sexual dos personagens que Hollywood compra os direitos e joga na telona.
Por isso, o Cocadaboa, um periódico lido regularmente pelas maiores mentes do cinema, quer abrir a oportunidade do seu super herói virar filme. Mande pra gente uma pequena história e lembre-se: quanto mais ridículo, mais chances de ser publicado aqui.
E a primeira história é do colaborador Jean Pixote, que criou uma misteriosa equipe de heróis formada por Frella Boy, Sérgio Manoel, Bill Raio Beta (ou Silva) e Chiken McNugget que, reunida sob o camando do Professor Magal, querem destruir o vilão BibleMan, que mergulhará o mundo em trevas e conservadorismo cristão.
Algo estava mais errado do que homem-bomba islâmico com plano de saúde. Nunca, na história de nossas reuniões em nosso QG móvel na unidade 438 da viação Itapemirim (Linha Nova Iguaçu-Nazaré) nosso grupo esteve tão distante. Desde que o Feitor Cigano, nosso mentor e líder, nos reuniu para alterar um futuro desolador - em que a "Porta da Esperança" distribuía sucrilhos sugar-free e shows do Sandy e Junior na versão sexagenária - jamais pensaria que perderia meu pulso sobre o grupo.
Eu, o primeiro integrante, Freela Boy, detentor de um intelecto que me permite realizar os mais bisonhos trabalhos freelancer sem ultrapassar o valor total mensal de R$1650 - que ainda me faz ser considerado isento para o imposto de renda – , ainda lembro vividamente de quando essa equipe se formou.
Quando o Rei Sandra Rosa Madalena me encontrou, fazia meus freelas de sempre: era violoncelista beat box em orquestras depauperadas, ascensorista para festas na cobertura do Benjamin Constant, ordenhador de plantas para a produção do leite de rosas e comentarista do programa Momento do Esporte ao lado do Pastor Juarez Santana, o líder espiritual de Gramacho. Naquela época, minha contribuição para a história estava apenas começando.
Com o novo freela dado pelo Lorde Amante Latino - em que ganhava R$3,32 a hora! – tive como missão reunir o mais ridículo esquadrão de super-heróis já visto, com o objetivo de tomar toda a atenção das crianças e fazê-las esquecer daquele que arquitetaria o futuro obscuro que queríamos evitar: o ícone pop cristão infanto-juvenil BibleMan (www.bibleman.com). Mas para derrotar um sujeito que ganhou seus poderes da palavra de Deus e usa um sabre de luz chamado "Espada da verdade", eu precisaria reunir um grupo que fizesse o Wagner Montes parecer um sério e contido campeão de amarelinha.
Depois de muito refletir lendo ícones do ridículo, como Paulo Coelho, Renato Maurício Prado, o The Sun editado pelo Bono Vox e a biografia não autorizada do ghostbusters Geléia intitulada "Foda-se as pernas se eu posso voar", selecionei minha equipe de colegas. São eles Bill Raio Beta, um rapaz que tem os poderes do Thor, a roupinha do Thor, tem cara de cavalo e se chama Bill, apesar de ter nascido a galáxia de distância do Texas; Sérgio Manoel, um meia-esquerda de 37 anos que há 11 anos foi campeão pelo Botafogo e hoje é a principal contratação do mesmo time e Chicken McNuggets, um objeto inanimado sabor frango, que graças à sua natureza transmorfa pode assumir as formas do Chiken McBuger e do Franlitos, nas oportunidades em que age como espião no Bob’s.
Juntos, essa equipe tinha um entrosamento perfeito. Silva, o apelido do Bill em território nacional, tinha o poder nível Super-Homem e poderia ser facilmente controlado quando eu oferecia um catálogo do Haras Santa Helena com éguas em idade madura para reprodução. Até hoje fico confuso se a força que tem nos braços era graça aos catálogos ou ao martelo que carregava até quando fazia palavras cruzadas.
Além do Silva, Sérgio Manoel era o espírito da equipe. Não importava quão mal estivesse, ele conseguia receber propostas do Independiente da Argentina, do Figueirense e do Volta Redonda, além de cozinhar, passar e cantar canções de ninar, provando que "impossible is nothing" e finalmente Chiken McNugget, o elemento calado e agressivo, disposto a questionar minha liderança se recusando a se locomover ou a falar.
Jamais tive tantas dificuldades de me relacionar com um objeto inanimado, mas foram inúmeras as vezes que ele salvou nossas vidas explodindo em fúria, liberando as milhares de almas penadas de penosas que concentra em seu interior. E é justamente McNugget que me fez iniciar essa vasta reflexão em nosso QG Móvel Itapemirim: abandonado pelo namorado, o rotundo personagem Variguinho - que abdicou do emprego na equipe de festa do Tio Carlos para gritar palavras de ordem diariamente frente ao prédio do BNDES – nosso integrante de superfície frita está contaminando o ambiente da equipe com sua imoblidade sepulcral.
Desde que partimos de Nova Iguaçu, McNugget não retira os olhos da janela umedecida pela chuva, numa cena que me lembra aquele clipe do Bon Jovi, Midnight em Chelsea. Chalalalála, Midnight em Chelsea. Mas em pequenos rompantes de movimento, o ameaçador nugget estufa seu corpo, como se dezenas de litros de óleo quisessem escapar e queimar a todos, numa clara metáfora dos demônios interiores que Nuggets não consegue conter. Tenho pena dele e juro que essa equipe fará aquele palhaço maldito pagar, mas logo depois da Copa do Mundo, porque esses sanduíches temáticos dos países muito me apetecem.
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