Categoria: Odisseu Kapyn
Quem está no topo da pirâmide se beneficia mais, pois colhe a grana de quem está nos níveis inferiores. E se no Céu também for assim? Será que quem chegar lá provando que levou para o bom caminho uns dez indivíduos - que por sua vez levaram outros dez - vai ficar melhor?
Andando pelas ruas, sempre é possível encontrar uma ou outra pessoa bradando mensagens religiosas. Com a Bíblia nas mãos, esses pregadores avisam a todos que devemos nos arrepender de tudo e que é melhor seguirmos o caminho deles, se não quisermos passar a eternidade servindo de passatempo pro Coisa Ruim. O fervor de suas palavras deixa poucas dúvidas de que eles cumprem os Dez Mandamentos à risca e que têm a certeza de que vão para o Céu quando baterem as botas, abotoarem o paletó, esticarem as canelas ou qualquer uma dessas expressões que usamos para deixar a idéia da morte mais simpática. Mas isso não é o bastante para eles. Não lhes importa que já tenham o lugarzinho garantido no bom latifúndio divino. Eles querem levar mais gente com eles. E muitas vezes conseguem.
Os pregadores devem se dar muito bem com isso quando chegam ao Céu. Ficam mais ou menos como alguém que dá início a um esquema de pirâmide, de cadeias de cartas ou de marketing multinível. São aquelas fórmulas nas quais, por exemplo, alguém recruta 10 pessoas que devem lhe dar algum dinheiro e que, por sua vez, arrumam outros 10 recrutados e por aí vai. Quem estiver no topo da pirâmide ou logo abaixo se beneficia mais, pois colhe a grana de quem está nos níveis inferiores. E se no Céu também for assim? Será que quem chegar lá provando que levou para o bom caminho uns dez indivíduos - que por sua vez levaram outros dez - vai ficar melhor do que alguém que apenas foi bom o suficiente para ganhar uma vaga no Paraíso?
Nesse caso, é bom a gente já ir se preparando para reconhecer alguns desses figurões quando passar pelo grande portal. Só para não cometer nenhuma gafe. A dica é ver os programas religiosos da TV. Não importa o segmento. Há diferentes seitas que compram horário na televisão para arregimentar gente para seus templos. Engana-se quem diz por aí que eles querem mais fiéis só para engordar contas bancárias e continuar com cacife para ter programas fixos na TV, entre outras coisas e prazeres mundanos. Tão ligados à vida espiritual, eles sabem que dinheiro não é nada. Devem mesmo estar pensando a longo prazo. Longuíssimo, se levarmos em conta que estamos falando da eternidade.
É bem capaz de você chegar ao Céu e encontrar apresentadores de TV como R.R. Soares, bispo Clodomir e outros missionários da telinha cheios de regalias. Não se surpreenda se eles tiverem asas com penas mais vistosas, auréolas mais brilhantes, harpas afinadas pelos melhores músicos do Céu e dirigindo as nuvens mais brancas. Será justo, pois com os seus programas transformaram milhares de telespectadores em condôminos do Paraíso, enquanto o resto da população do Éden apenas não matou, não roubou, não fez gato de TV a cabo nem cobiçou a mulher do próximo. Ficaremos meio de longe, vendo esse pessoal batendo animados papos com Jesus, contando piadinhas para os apóstolos sobre o Diabo e conseguindo audiências com Deus sem precisar marcar com a secretária. Mas até que não é um panorama tão ruim. Pior é se as teorias dos mal-seguidores de Maomé estiverem certas. Segundo os fanáticos suicidas, os homens-bomba mortos em missão têm garantido o direito a 72 virgens no Céu. Aí tem que ser muito santo para aceitar essa situação sem criar confusão.
Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com
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