Categoria: Odisseu Kapyn

Um conto de Natal

Estava sozinho em casa, fazendo hora para sair para a ceia natalina. Eis que sinto um calafrio pelas costas. “Não está me reconhecendo? Sou o Espírito do Natal! Vim lhe dar os parabéns, pois você está há oito meses longe da tentação!”.

Estava eu quieto no meu escritório, tentando adiantar uns textos encomendados pra poder viajar tranqüilamente no Natal. Eis que sinto um calafrio pelas costas. Foi quando uma voz doce disse que eu não me preocupasse e que virasse para ver quem estava ali. Devo confessar que estava com medo, pois a patroa tinha viajado pra passar a ceia com meus sogros e eu estava sozinho em casa, fazendo hora antes de ir pra casa da minha mãe. Quando olhei para trás vi uma figura branca, meio transparente. Ele perguntou: “Não está me reconhecendo?”. “Não. Mas presumo que seja um fantasma. Gostaria que se retirasse, pois devo confessar que já estou me destravando e quase sujando a calça”, respondi, com surpreendente calma e poder de argumentação. “Engraçado. Era para você me reconhecer. Os bons de coração sempre me reconhecem...”, disse a assombração boazinha. “Olha, eu não sei se vou conseguir manter esse meu ar engraçadinho por muito tempo. Podes me dizer logo quem és tu?”, disse eu, usando a segunda pessoa do singular numa tentativa patética de mostrar algum respeito. “Ora, sou o Espírito do Natal! Não é óbvio que eu venha lhe visitar no dia de hoje?”. “Caramba, o Espírito do Natal? É parecido com aquela história do Charles Dickens? Poxa, então você vai me levar para passear pelos tempos? Eu vou morrer? Você não pode esperar mais uns meses? É que meu filho vai nascer no início do ano que vem e eu queria estar aqui, pra dar aquela força para a patroa na hora de trocar as fraldas, sabe como é?”.

Àquela altura eu já tinha até abandonando meus planos secretos de não trocar fraldas. Prometeria até fazer a comida do moleque se fosse preciso. E até cortar as unhas dele, idéia que me dá uma inexplicável aflição. “Não se preocupe. Não é como nos livros e filmes. Só vim dizer que você está no caminho certo. Tem sido uma ótima pessoa, um extraordinário marido e tem tudo para ser um exemplar pai. Um belo ser humano. Parece que se livrou mesmo daquela tentação”, disse o Espírito. “Que tentação? A Minori Aoi? Ou alguma amadora desinibida? Na verdade eu continuo vendo sites de pessoas fazendo amor...”, respondi. “Não, rapaz. Não há nada de errado nisso. Você não magoa ninguém com isso. Estou falando daquela coisa horrível. Já são oito meses...”, sorriu a doce figura. “Desculpe, não estou entendo...”, murmurei, confuso. “Já são oito meses que você não escreve para aquele site, o Cocadaboa. E também já são anos desde que deixou de postar comentários diários! Isso mostra que seu lado bom está vencendo o lado mal!”, comemorou. Fiquei pasmo. O Espírito de Natal estava ali para me parabenizar por não estar escrevendo no Cocadaboa. E o pior é que ele estava enganado em vários níveis. Tentei contornar aquela situação constrangedora: “Olha, Espírito do Natal. Há um mal-entendido aqui. Na verdade, eu ainda escrevo para o Cocadaboa. A seção SACaneie sou eu quem organiza. E também faço o texto de introdução e as perguntas do Calúnia & Difamação. E de vez em quando ainda faço alguma coisa no Cocadaboa News...”. “Ah, é? Não sabia... Então os anjos me deram informações incompletas...”, declarou, decepcionado. “É, eles não devem acessar muito o site. Nem devem ler direito os créditos. E nem tudo é assinado. É justo que não soubessem”, respondi, tentando livrar a cara dos anjos, afinal, sou um cara legal.

“Bom, mas mesmo assim, você já está há quase um ano sem escrever um texto para sua seção. Isso significa alguma coisa!”. “É, significa que estou meio sem tempo. Fiquei com um cargo muito atribulado no jornal. E também porque estou escrevendo uma coluninha lá nesse periódico, com meu nome verdadeiro. Aí acabo usando as poucas idéias que tenho lá na tal coluna, que é remunerada, é bem lida, está num veículo mais conhecido, etc. Mas como algumas coisas mais pesadas não podem sair lá, estou pronto a voltar a escrever mais no Cocadaboa. Um dia até me ligaram do jornal para pedir para eu mudar um negócio no texto, dizendo que aquilo lá não era Cocadaboa. E tem mais. Pedi demissão lá do jornal, ficando só com a coluninha. Deve dar pra participar com comentários diários no site agora. O Cocadaboa ainda pode render muita coisa. Viu aquela história do Xaxim que o Manson inventou? Então, estou com umas idéias...” “Basta!”, gritou o Espírito do Natal, cortando minha empolgação. “Será que não vê o absurdo que está proferindo? Em plena véspera de Natal, você está me dizendo que vai voltar a escrever em um site que estimula a discórdia, engana as pessoas e ridiculariza profissionais?”, enfureceu-se o Espírito do Natal. Curioso como em vez de me acovardar, deixei a raiva do Espírito me contagiar. Também elevei o tom de voz.

“Peraí, Espírito! Você tá sendo burro como uma dançarina de axé que virou apresentadora de TV! Eu não ataco ninguém. Eu só reajo. Quando sacaneio alguém é uma forma de revidar o que esses aproveitadores que poluem a mídia estão fazendo com a sociedade”, disse eu, numa frase que já tinha bolado há algum tempo, mas nunca tive a oportunidade de usar para alguém além da minha esposa, que não gosta muito do meu lado Odisseu. “Ah, é? Então você acha que está fazendo um bem para o mundo? Digamos que realmente as pessoas que você critica e ridiculariza são prejudiciais para o desenvolvimento da mente do público. O que lhe dá o direito de atacá-las? Esqueceu que Cristo disse para oferecer a outra face?”. O Espírito usou um golpe baixo. Sabia que eu era cristão. Mas eu tinha um trunfo contra essa suposta frase de Jesus (como são supostas todas as frases da Bíblia), que vi num documentário do Discovery. “Pense um pouco, Espírito. Jesus disse que quando nos batessem na face direita, que oferecêssemos a esquerda. Levando em consideração que a maioria das pessoas é destra, para bater na face direita de alguém é preciso que se dê um tapa com as costas da mão. Isso quer dizer que a pessoa bateu como se julgasse superior. Quando oferecemos a face esquerda, estamos pedindo que bata com a palma da mão. Jesus não estava dizendo pra nos fazermos de bonzinhos. Pelo contrário, estava falando para que pedíssemos para ser tratados como iguais. Levando em consideração que pregava para judeus dominados por romanos, estava praticamente conclamando a galera pro confronto”, declarei, com ar vitorioso.

O Espírito de Natal ficou meio sem graça. Talvez já conhecesse esse lado da história que convenientemente esqueceu. Então tentou partir para minha ética profissional. “Mas e nas notícias falsas que vocês inventam? Vocês estão enganando pessoas inocentes! Você é jornalista e não pode prestar um deserviço de comunicação. Você fez um juramento para receber o diploma, não?”. Esse espírito já estava me enchendo o saco. E já não me parecia tão sábio, pois mostrava que não sabia muito da minha vida. “Pra começar, não fiz juramento nenhum. Por causa do estágio no jornal, não consegui me formar com minha turma. Fui parar numa formatura conjunta com gente de tudo que era curso, com um juramento padrão que não falava nada em ética jornalística. E assim mesmo, já que não tinha ninguém me olhando, nem amigos, nem família, não abri a boca durante o tal juramento e ainda fiquei de dedos cruzados. E quanto às notícias falsas, não são notícias. São textos humorísticos publicados num site de humor. Quem transforma em boato são os leitores que repassam aquilo pros outros sem avisar que é do Cocadaboa. E ainda assim, o efeito causado é o de educar as pessoas, que aprendem a não confiar em qualquer coisa que lêem na internet. E nem em jornais, já que as redações acabam reproduzindo as informações. É até um jeito de melhorar a qualidade do jornalismo”, declarei, triunfante.

Fui convincente. Fiquei até com pena do Espírito de Natal, pois ele ficou sem resposta. Continuava ali parado, me olhando sem palavras, numa mistura de sentimento de derrota e decepção. Deixando mais uma vez meu senso crítico nublar minha fama de bonzinho, dei um golpe de misericórdia no Espírito de Natal: “Você vai ficar aí parado? Não tem mais o que fazer? Não tem nenhum shopping para visitar? Nenhuma vitrine para enfeitar? Em vez de se preocupar com essa coisa em que o Natal se transformou vem aqui me dizer o que eu devo ou não fazer? Vai dar sopa para os pobres! Ou prefere brincar de Papai Noel e ficar todo suado nesse verão tropical, com fantasia vermelha idealizada pelos marqueteiros da Coca-Cola? Presta atenção! Você tem mais a fazer do que vir aqui me dar lição de moral!”. O pobre espírito não parecia acreditar no que estava ouvindo. Me olhava com raiva e foi desaparecendo. Antes de sumir, ainda lançou uma espécie de maldição: “Você não me engana! Ainda vai errar a mão! Quero ver, quando chegar sua hora, como você vai explicar o diabinho no logotipo do site! Rá rá rá rá!”. O Espírito de Natal se foi, me deixando com a pulga atrás da orelha depois daquela risada meio satânica, altamente imprópria para um ente natalino. Até me preocupei com essa história do diabo no logotipo do Cocadaboa, mas como não acredito em Satã (deixava minha mãe maluca quando era criança e desafiava Belzebu a tomar meu corpo, ajoelhado no carpete de casa, com o tronco curvado para trás), relaxei. E se até o Espírito de Natal é capaz de se irritar e demonstrar rancor, por que eu não escreveria mais no Cocadaboa?

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

as 25/12/05, 16:45

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