Categoria: Odisseu Kapyn

Pendurando chuteiras douradas

Não importa onde estavam jogando, cidadãos comuns respeitavam os jogadores de futebol como heróis. Mas de alguns anos para cá estamos vendo essa história mudar.

Tenho a impressão de que se formos vasculhar bem o livro do Apocalipse na Bíblia ou as profecias de Nostradamus vamos encontrar alguma dica de que o final dos tempos se dará quando os jogadores de futebol forem considerados gente comum no Brasil. Só isso explica o que está acontecendo hoje em dia com o tratamento que estão recebendo nossos craques: estamos próximos do fim do mundo.

Antigamente, era comum ouvir histórias de jogadores de futebol contando, orgulhosos, que estavam sendo assaltados quando de repente o bandido os reconheceu, pediu desculpas e devolveu o que estava levando. Os caras eram mais respeitados do que o presidente da república. Não importa para que time estavam jogando, cidadãos comuns respeitavam o sujeito como se fossem heróis. Afinal, ele realmente carregava certa dose de heroísmo, sendo geralmente um homem que saiu da pobreza para ganhar um lugar de destaque entre gente importante, com a turma chique tendo que engolir que aquele rapaz humilde podia ter do bom e do melhor, assim como os nascidos em berço esplêndido. Era o representante da classe pobre ou da classe média entre os ricaços. Nosso vingador. Nada mais natural que seus bens materiais fossem intocáveis, até para os assaltantes.

Mas de alguns anos para cá estamos vendo essa história mudar. Começamos a ver notícias de jogador de futebol que teve seu carrão levado ou sua mansão invadida. E não foi só bandido que quebrou o tabu de afanar as coisas dos craques. Até celebridades estavam dando a volta nos atletas, como afirmavam os rumores posteriormente desmentidos de que Pedro Bial bateu uma bola com Suzana Werner, noiva de Ronaldinho na época da Copa de 1998. Pois é, mesmo em boatos, não estavam respeitando mais nem as mulheres dos nossos heróis. Aconteceu até de um jogador do porte de Edmundo ser condenado na Justiça por atropelar e matar umas pessoas inferiores (incapazes de fazer mais de 50 embaixadinhas). A coisa ficou ainda mais incrível quando recentemente passaram a seqüestrar mães de jogadores! Onde já se viu? Isso não se faz nem com mães de juízes de futebol, que já estão sempre preparadas para o pior.

Como foi que isso aconteceu? Quando foi que nossos homens de ouro deixaram de ser intocáveis? Quando passaram a ter a mesma vulnerabilidade que nós que não conseguimos correr mais de cinco minutos atrás de uma bola? Sei não, mas suspeito que foram eles mesmos que abriram mão de seus superpoderes. Foi quando deixaram de se portar como heróis e passaram a agir como estrelas. Quando nos demos conta, os nossos craques estavam andando em carrões de astros de cinema, morando em palácios dignos de políticos corruptos, usando chuteiras douradas e pegando mulheres já famosas. Aliás, este último item é um capítulo à parte. Jogador de futebol bem sucedido sempre teve direito de pegar mocinhas bonitas, como qualquer pessoa de dinheiro. Eles faziam isso com Marias Chuteiras, namorando e até casando com beldades que se tornariam conhecidas apenas como a mulher do craque Fulano. Era mais uma forma de distribuição de renda através do futebol, beneficiando não só o pobre sujeito bom de bola, mas também a pobre gostosa boa de cama. Mas ultimamente os atletas passaram a pegar mulheres já famosas. Estão fazendo que nem artistas de TV ou cinema, que copulam entre si. Os jogadores estão entrando definitivamente para o clubinho VIP das celebridades. Isso é péssimo para nosso ecossistema. Se antes uma beldadezinha qualquer quisesse tirar o pé da lama desposando um jogador de passe valorizado, bastava aparecer nos pontos de abate habituais desses predadores, como boates e churrascarias. Agora elas vão precisar primeiro se tornar famosas para só então poderem chegar até os atletas. Isso gera um número maior de famosos, acentuando o desequilíbrio de nosso já frágil meio ambiente, saturado de pessoas conhecidas pelo público.

Agora já era mesmo. Temos jogadores de futebol participando de reality-shows, posando pelados, se envolvendo em escândalos... Não tivemos outra escolha senão cassar a imunidade que lhes conferimos no passado, fosse diante do poder legalmente constituído ou do tal do poder paralelo. Jogamos criptonitas nos nossos super-heróis. Eles agora serão presos, serão assaltados, serão ridicularizados em programas de TV, serão corneados, terão suas mães seqüestradas, terão nomes profissionais feios (compostos de nome e sobrenome em vez de um apelido carismático), suas roupas sairão de moda e passarão a sofrer efeitos das drogas que tomarem. É a era Maradona, que vê ídolos se fragmentando à luz do dia, agonizando em praça pública, pensando em fazer uma cirurgia de redução de narina para que a coisa toda deixe de cheirar tão mal. E por falar em jogadores argentinos, acabamos de ver um hermano, Desábato, do Quilmes, que jogava contra o São Paulo, sendo preso por chamar um de nossos craques de “negro”, justamente o Grafite, que tem apelido aludindo à cor de sua pele. Se bobear, foi o Grafite que começou com a provocação, chamando Desábato de argentino, mas isso não vem ao caso. O episódio mostrou que realmente os jogadores de futebol agora são seres comuns, uns pobres coitados como nós: um foi preso em pleno local onde pensávamos vigorar apenas as regras de futebol, onde a penalidade máxima era cobrada com um tiro livre ao gol, sem barreira, de dentro da grande área. E o outro se tornou mais uma vítima de preconceito racial, se juntando a uma lista que contém o nome de atletas negros ou mulatos que foram comparados a macacos por torcedores europeus. Há mesmo algo de muito estranho acontecendo quando nem o dinheiro consegue mais encobrir a cor da pele. E nem mesmo a morte respeita mais os jogadores de futebol, levando-os embora no meio da partida. Sejamos bem-vindos ao fim dos tempos. Que venha a prorrogação.

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

as 18/04/05, 14:06

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