Categoria: MrManson

Carnaval S/A

Já se foi o tempo em que o desfile expressava as raízes da cultura brasileira. A essência das favelas está sendo censurada pelo poder econômico.

Já se foi o tempo em que as escolas de samba expressavam as raízes da cultura brasileira. A essência das favelas está sendo censurada pelo poder econômico. A indústria na qual o carnaval carioca se transformou extingue os espaços daqueles enredos puros, saídos direto do coração das comunidades humildes. Calaram-se as vozes populares que nos relatavam o importante comércio de mirra nas margens do Nilo ou a viagem alucinógena de algum nobre europeu que tomou o chá do Daime quando visitou a Amazônia.

Os artesãos do povo perderam o prazer de trabalhar em regime escravo 10 meses por ano, com os corpos cobertos inteiramente por flocos de isopor em barracões insuportavelmente quentes. Obrigá-los a fazer isso sem deixa-los expressar com plumas de faisão as mazelas da injustiça social brasileira é um verdadeiro genocídio ideológico.

Hoje em dia, o “show” perdeu espaço para o “business”. Só há lugar para os tais “enredos patrocinados”. Carnavalescos prostituem a comunidade para fazerem propaganda turística de algum estado escroto ou divulgarem as maravilhas que alguma corporação proporciona ao povo brasileiro. Atrocidades que fazem visionários como Joãozinho Trinta ficarem entrevados em uma cama de hospital de tanto desgosto.

Quase sempre o enredo é travestido com algum tema nobre (mais ou menos como as figuras na entrada dos bailes do Scala), mas não se engane. Há quase sempre algum interessado (público ou privado) bancado tudo por trás. Seja o Ministério da Saúde em sambas como “Vamos Vestir a Camisinha, Meu Amor” (Grande Rio – 2004) ou usineiros mostrando a sua utilidade para o país em “A Cana que aqui se Planta Tudo Dá, Até Energia... Álcool, O Combustível do Futuro” (Salgueiro – 2004). Também não podemos esquecer das vaidades pessoais, onde para ser homenageada com mais classe a celebridade libera uma boa graninha para reforçar o orçamento da escola. Xuxa, Vera Loyola, Sílvio Santos... Todo mundo já entrou na roda (só lamento pela escola que homenageou o Ziraldo, deve estar esperando a grana prometida até hoje).

Já que é para perder a noção, vamos usar a nossa criatividade para enfiar de vez o pé na jaca. Não vai demorar muito para a Pfizer pagar por enredos como “Viagra mata a cobra e mostra o pau, é a Mangueira levantando o carnaval!”. O tradicional abre-alas da verde-rosa seria substituído por uma gigantesca alegoria fálica, alternando momentos de ereção e descanso. No topo dela algum destaque no estilo Miguel Falabela ou Vitor Fasano, com uma coreografia do não menos “entendido” Carlinhos de Jesus. A velha guarda seria a ala mais animada, com as vovós em insinuantes trajes de madrinhas de bateria, comemorando o renascer sexual dos vovôs. Enfim, seria o prato cheio para os piadistas de plantão, dando um toque a mais na infame “você viu a Mangueira entrando esse ano?”.

Alguma empresa de higiene bucal poderia aproveitar toda atenção popular para a festa e estimular um pouco mais a escovação após as refeições e o uso do fio dental. Afinal, basta dar uma conferida nos integrantes da escola (principalmente nos tocadores de cuíca – por que todos têm que ser banguelas?) para perceber que nas bocas cheias de alegria ao cantar o samba faltam muitos dentes. Baianas, vestidas com calotas de aço escovado e um chapéu pontiagudo, rodopiando como brocas de dentista... Escovinhas como baquetas de tamborim... Crianças fantasiadas de placa bacteriana... As últimas alas, como o fio dental, poderiam mudar de cor, avisando que o desfile está prestes a acabar...

As possibilidades são infinitas. Se os geniais publicitários já promovem verdadeiros espetáculos em 30 segundos, imaginem o que eles podem aprontar em uma hora de desfile com um grande slogan (antigamente conhecido como samba-enredo) se repetindo dezenas de vezes?

Definitivamente é o fim do carnaval arte, do carnaval moleque... Quem mandou enfraquecer os bicheiros e colocar tudo na mão de gente respeitável e empreendedora que paga rigorosamente os seus impostos (deduzido tudo na verba de incentivo a cultura)?

MrManson
mrmanson@cocadaboa.com

as 25/01/05, 15:30

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