Categoria: MrManson

Os Institucionalizados

Quem não tem um amigo que, mesmo formado há um bom tempo, ainda não conseguiu se desvencilhar do ambiente universitário?

Conheci o termo “institucionalizado” no filme “Um Sonho de Liberdade”. Para quem não está lembrado, ou ainda não viu, um pequeno resumo da história: Tim Robins é acusado de ter assassinado sua esposa e o amante. Ele acaba injustamente condenado a muitos anos de prisão, vai para a cadeia, sofre um bocado, faz uns lances maneiros, sofre mais um bocado e neste processo fica muito amigo do Morgan Freeman, outro prisioneiro. Se não lembrou qual é, vai lá no IMDB e tire a dúvida.

Enfim, os personagens usam o termo “institucionalizado” para definir o comportamento de prisioneiros que ficam muito tempo na cadeia (muito tempo mesmo, e não essa moleza de 30 anos no máximo como é aqui no Brasil) e, por terem passado mais anos de sua vida dentro da rotina da prisão do que em liberdade, acabam não se adaptando mais a “vida lá fora”. A “instituição cadeia” acaba se tornando o único ambiente onde essas pessoas se sentem felizes, ou menos infelizes.

Como cadeia é uma instituição que desconheço a rotina (pelo menos por enquanto), nunca tive absoluta certeza se este fenômeno é plausível. Mas há algum tempo venho traçando com amigos um paralelo com uma outra instituição pela qual tive uma passagem: a universidade. Reparei que realmente a “institucionalização” é algo que atinge mais pessoas do que imaginava.

Quem não tem um amigo que, mesmo formado há um bom tempo, ainda não conseguiu se desvencilhar do ambiente universitário? Os anos passam, os calouros crescem, amadurecem e se formam e aquele sujeito fica ali, como uma centenária palmeira imperial, vendo a história se repetir em ciclos.

O processo é o mesmo da institucionalização da cadeia. Por alguma razão o cara esquece que aquilo ali é apenas algo temporário e a força da rotina do ambiente o envolve de tal forma que acaba se tornando o centro de sua vida. Quatro anos de aprendizado acabam sendo inconscientemente estendidos. O institucionalizado, ao perceber que aquela etapa é finita, logo dá um jeito de repetir matérias, trancar a matrícula, fazer um curso de extensão... Como o prisioneiro, que dentro da prisão comete mais crimes e adota um padrão de mau comportamento só para não receber liberdade condicional.

Os sintomas são clássicos e tornarão a compreensão deste fenômeno mais fácil. Para começar, a vítima adquire o hábito de ir na faculdade até mesmo nos dias ou nos horários que não tem aula. O curso começa às 15hs? Então às 10 da matina o cara já ta batendo cartão, para jogar um carteado, almoçar um PF com a galera e depois fazer uma social fumando uma maconha no DCE. Se você passa mais de 30% do tempo útil de aula nas premissas da universidade, comece a se preocupar porque isso pode ser um caminho sem volta.

Um outro indicativo grande é o fato do sujeito ter apenas amigos da universidade. Como se naqueles 18 anos que ele viveu até ingressar na instituição não tivesse sido capaz de forjar nenhuma amizade que valha. Normalmente isso acontece com os caras que eram os mais zoados na escola. Quando passam no vestibular e recebem de presente uma oportunidade de mudar de ambiente e zerar tudo, recomeçam uma nova vida e tentam enterrar de vez apelidos singelos como “cabeção”, “ET” ou “mongol”. Esse é o cara que vai jogar todas as suas fichas no ambiente universitário, se ele falhar ali está fudido para sempre. Este certamente tem o maior risco de se tornar dependente. Se a primeira namorada da vida for arrumada na universidade então... Institucionalização na certa.

A participação excessiva em eventos universitários também pode ser um problema. Uma “chopada” aqui, um “churráscool” ali, um encontro nacional de estudantes acolá... Até aí tudo bem. O problema é quando o sujeito (masculino ou feminino), só se sente capaz de ficar com alguém em eventos do tipo (que, convenhamos, não é nada difícil – visto a quantidade de álcool envolvida). Isso faz com que ele tente preencher toda a sua agenda com orgias etílicas ou bacanais acadêmicas. O institucionalizado monta uma rede de informações complexa, onde ele é capaz de ficar sabendo não só o local onde haverá uma chopada, mas também o número de caixas de cerveja que foram compradas e se no ano passado tinha muita mulher. Quando ele menos percebe, já está freqüentando as festinhas dos cursos mais bizarros, não apenas de outras universidades, mas também de outras cidades: “Chopada de biblioteconomia da UENF? Deve ter muita mulher nessa porra! Tô dentro!”. “Encontro nacional dos estudantes de geologia? Ah, foda-se, vamos lá para ver o que rola!”.

Mas a alegria dura pouco e logo o institucionalizado cai em desgraça. Por mais que se esforce, as matérias que repetiu ou as optativas que resolveu fazer a mais se esgotam, aí ele fica na universidade 8 horas diárias de bobeira para cursar apenas 1 hora e meia por semana. Os amigos, únicos após ter zerado a lista de contatos após passar no vestibular, se formam, se casam, vão trabalhar e arrumam algo melhor para fazer. As calouras, que eram alvo fácil em qualquer festinha, começam a chamá-lo de tio e confundi-lo com algum funcionário da faculdade.

E aí, depois da derrota, as saídas são arrumar um outro curso e começar tudo de novo ou se enforcar no DCE e escrever na parede “Fulano esteve aqui” (o único jeito nobre de abandonar o carma de institucionalizado e tornar-se a maior lenda urbana da universidade).

MrManson
mrmanson@cocadaboa.com

as 08/12/04, 11:37

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