Categoria: Eddie Torres
Apesar da quantidade de informações que recebemos diariamente através das milhares de mídias por aí, o papo furado ainda é inevitável.

- O que você faz mesmo?
- Sou artista.
- Ah...legal...
- É.
- ...
- ...
- Mas, tipo assim, você trabalha na televisão, tem banda, é modelo?
- Não, não. Sou poeta!
- Ah...legal...
- É.
- ...
- ... e você?
- Trabalho com contabilidade!
- Po, legal...
- É.
- ...
- ...
Apesar da quantidade de informações que recebemos diariamente através das milhares de mídias por aí, o papo furado é inevitável! Pensando melhor, acho que a quantidade de informação que temos acesso nos transforma em pessoas especialistas em alguns tipos de assuntos. Não é raro você ficar boiando na conversa alheia. Uns falam de scripts, spy-ware, C++ (?); outros de escalas pentatônicas, tonais e atonais, sustenidos e harmonia funcional (??); outros de teoria evolutiva, matas primárias e fagocitoses (???). Bons tempos aqueles em que a a gente ficava em pé no ônibus ouvindo a conversa do pessoal sentado no banco a nossa frente sobre a escalação da seleção, do governo que é uma merda ou da vizinha genérica que dá pra rua inteira. Mas voltando ao que interessa, o que eu quero dizer é que hoje em dia não é difícil você ficar sem assunto com alguém apesar de saber tantas coisas inúteis. Nada é mais constrangedor do que encontrar uma pessoa conhecida numa festa e ficar sem assunto ao lado dela, principalmente porque você sempre tem que usar uma artimanha suja pra deixar o cara lá e procurar algo melhor pra fazer tipo:
- E aí cara! Beleza!
- Tranquilo! E aí, o que tem feito?
- Po, nada demais, tô na pista! e você?
- Porra nenhuma também.
- É.
- ...
- ...
- ...
- Aí, vou lá por que tem uns E.T.s pousados ali no jardim e eles estão usando poderes psíquicos para me abduzir.
- Valeu então, té mais!
- Falou!
Isso acontece, mas não se sinta mal por isso. Esse seu amigo uma hora fará isso com você também numa próxima ocasião. Mas isso está longe de significar que ele não seja mais seu amigo! Nada disso! É porque geralmente vocês só tem um tipo de assunto em comum, como a maioria das pessoas. Geralmente os amigos de trabalho só se encontram pra falar mal do chefe, da estagiária gostosa ou que está ganhando mal. Já amigos de colégio falam dos professores, das garotinhas mais putas da escola ou dos meninos mais lindos. Os amigos do futebol falam do Flamengo, que fulano é perna de pau, do gol que beltrano fez no último jogo. É isso aí. Não dá pra fugir disso.
Numa sociedade tão hermética como a nossa a solução pra falta de assunto é mentir. Claro que não precisa ser daquelas mentiras cabeludas tipo, que você comeu duas loiras lésbicas no banheiro da boate ou que você foi pra Paris e tomou café com Jack Nicholson. Pode ser uma mentirinha leve, daquelas pra animar o bate papo.
- Sabe a Roberta, aquela recepcionista do 3o. andar?
- Sei.
- Então... disseram que pegaram ela pagando boquete pro Raimundo, servente, na escada da garagem.
- PUTZ! Sério!
- É.
- CARALHO...
A partir daí o papo rola solto sobre como a tal é gostosinha, ou sobre táticas pra tentar ganhar um boquetinho também ou até mesmo, pro mais chegados, sobre o tamanho da vara do Raimundo. Nenhum assunto é mais empolgante do que sacanagem.
Esse diálogo também pode ser adaptado para as mulheres, mas eu não faço idéia do que se desenrola daí, porque esses papos de banheiro, só elas é que sabem. Alias, papo de banheiro é coisa única e exclusiva das mulheres. Homens "sérios" não vão ao banheiro acompanhado, muito menos jogam conversa fora num momento tão íntimo. Só para as mulhers terem uma idéia, o banheiro masculino é como um elevador no centro da cidade: sempre cheio, silencioso e com um cheiro esquisito no ar. Mas chega de papo sobre banheiro...
Embora eu trenha citado alguns exemplos da falha na comunicação da sociedade moderna, não significa que nós somos sempre alheios aos demais por conta da nossa informação particionada (bom, nem eu sei o que eu quis dizer com isso...). Não sou antropólogo, nem sociólogo, nem nada do tipo, mas uma coisa que eu venho notando pelas minhas perambulanças em diversos "grupinhos" é que a linguagem está deixando de ser aquela coisa padronizada que usamos para nos comunicar com qualquer cidadão do nosso país ou que domine o idioma. Está cada vez mais complicado entrar em uma tribo (urbana) por conta da linguagem própria de cada uma. E não adianta a revista Veja fazer essas matérias tão interessantes sobre as vestimentas e gírias dos clubbers, funkeiros, punks ou patricinhas, porque enquanto eles fecham a edição, tudo já está diferente. Esse mundo globalizado é uma merda mesmo. Fuck yeah!
eDDIE tORRES (a falta de assunto me levou a escrever isso...)
eddietorres@cocadaboa.com
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