Categoria: P.I.R.U.

O último dia de um homem

A virada do século XX para o XXI nos deu o ar da graça da verdadeira liberdade de escolha. A verdadeira androginia, a verdadeira libertinagem...

Um texto dedicado a Sara Berg, Luanda Morena e Cris Rodrigues.


Ao longo desses vários anos de Cocadaboa, eu tive o prazer (e o inigualável desprazer) de conhecer leitores. Dos melhores, dos mais audazes e dos mais burros. Porém, nada se iguala a conversar com as meninas que pensam tal qual o digníssimo PIRUzinho aqui.

É fato que a virada do século XX para o XXI nos deu o ar da graça da verdadeira liberdade de escolha. A verdadeira androginia, a verdadeira libertinagem, a verdade sobre esse homem que queria soltar as frangas mas tinha que recorrer a espaços cada vez mais decadentes e escondidos. Hoje somos o que bem entendemos e ponto final. E é verdade que as calcinhas que lêem o Cocada também tiveram o prazer de diminuírem o cós da calça, deixar o cofrinho aparecer no reflexo de uma sensualidade extrema e andarem de preto e cabelos ruivos olhando fundo nos olhos de qualquer um que passasse.
Tive a sorte de me encontrar com algumas.

Na verdade, eram três, aqui do Rio de Janeiro. Queriam conhecer aquele que “conclamava as mulheres como nenhum outro macho sabia fazer”. Depois de uma dessa, eu não pude resistir. Eu fui.

Uma das políticas de quem escreve no anonimato é evitar a aparição em público, a exposição de seu nome como tentativa de camuflar os outros empregos que são considerados descentes e bla bla bla. O porém. Elas sabiam quase tudo de mim. Meu nome, dois lugares onde eu trabalho como gente normal sobre o codinome de MC e alguns dos meus hobbies. Pinçaram alguns trechos literários naturalistas, alguns de Eça de Queiroz e “foram a luta”, me mandaram o email.

Queriam se encontrar comigo. Saber quem eu era. Local: Tijuca, praça Varnhagem, Um daqueles bares que ali existem. Eu não devia me preocupar com mais nada. Estava tudo arranjado. E lá eu vi três meninas sentadas, duas muito bonitas por sinal, uma era até tradicional, mas de um cabelo bonito. Logo que cheguei, não me deixaram sentar. Disseram que ali não era lugar para uma verdadeira conversa. Entrei num Golf preto, sentei-me atrás da carona (a de cabelos bem pretos e olhos castanho-mel), tocava ao som Billie Holliday (Blue Moon) mas pouco andamos. Em plena rua Torres Homem, em Vila Isabel, entrei em um prédio. Claro, conversávamos nesse meio tempo. Mas do que adianta eu falar da minha cara de bobo, da loirinha que me alisava a perna e rir só de estar vendo o PIRU ali na frente dela? É claro que isso é mero detalhe (deixa de ser sórdido e pensar obvialidades, isso aqui não é um conto erótico).

A carona da frente abriu-me a porta (viu como o mundo mudou?), a outra, a morena de tom de pele bem forte (mais parecia a Byonce) riu e disse que era agora que tudo ia valer a pena. Eu, bem, não vou negar. Flutuava...

Subimos três andares de um prédio branco e de grades também brancas. Chegamos ao andar que fedia a cigarro. Ao abrir a porta de um dos apartamentos (309 pra ser mais exato), deparei-me com um grupo ainda maior de pessoas. Havia mais dois homens e um grupo enorme de meninas. A princípio eu ri. Foi por pouco tempo. O rosto dos caras não demonstrava qualquer sinal de felicidade. Um estava visivelmente nervoso. Sua boca branca, sua testa vermelha e o suor na gola de sua blusa não deveria ser reflexo de mais de três horas de sexo. Sexo?! Quem pensou nisso?

Fui arrastado para uma armadilha. Estava diante de um grupo de extremo-feminismo (percebi isso pelo bigode avantajado de uma das meninas) e que queria me interrogar sobre os meus textos.

Meu júnior foi abaixando a bola, a minha felicidade foi resetada, entrei em simbiose com aqueles outros dois companheiros e deixei que tudo mais acontecesse. Ainda mais, o que fazer?

Byonce me parecia ser a líder. Me chamou pelo primeiro nome (não por esse que vocês conhecem), andava de um lado para o outro, olhando para baixo como se analisasse o chão e não parava de falar. As outras escutavam firmemente as palavras de sua líder. Entre uma ida e outra, vi que duas meninas se acariciavam. Não as que tinham me levado, mas a que tinha um bigode bem vistoso. E falava do poder feminino, a mulher diante do novo mundo e toda aquela balela feminista que estamos acostumados a escutar e dar a mínima por ser demagógica demais. Pode até parecer preconceito, mas muitas delas usavam tênis all star e no fundo, suas calças e seus trajes descolados típico dos skatistas lhes conferiam um ar masculino demais. Nisso eu vi que de feminino Byonce não tinha nada. Seus braços eram grossos, sua voz era proeminente demais e seu cabelo me parecia pesado.

Pensei que dali não sobreviveria mais. Um dos rapazes passou a sofrer de gases e eructava a cada um minuto. Parecia ter comido bosta. Vi que meu fim chegara. Não haveria mais PIRU que resistisse ao feminismo contundente e reflexo do machismo mais antigo.
Isso foi há exatos três meses.

Depois da minha fuga. Consegui restabelecer a minha vida e o meu íntimo. Saí com duas mulheres (que nasceram fêmeas e morrerão fêmeas, ou seja, sabem o seu lugar social) e que me disseram que eu conclamava as mulheres como nenhum outro sabia fazer.

Bem, não estou aqui pra ficar me traumatizando. Sei o que presta e o que não presta em tudo isso. Por isso eu digo, se você chegou até essa parte do texto, é porque sabe pouco do que quer na vida. Agora, eu só fico supondo o que em mim vale por ter aceito o convite daquelas três.

No fundo, no fundo, somos todos iguais nesse século mais retrógrado do que década de oitenta. Depois daquilo, eu não me encontro mais na praça Varnhagem.

P.I.R.U. – que homenageou o texto pois é só disso que tem vivido: de homenagens às mulheres do Orkut.

as 09/08/04, 13:31

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