Categoria: MrManson

Citius, altius, fortius

Com a proximidade da Olimpíada é praticamente impossível não pensar no maior combustível da nossa vida moderna de escravo: a busca por recordes.

Com a proximidade da Olimpíada é praticamente impossível deixar de pensar em um dos maiores combustíveis da nossa vida moderna de escravo: a busca por recordes. Para você, incauto telespectador, é só um negão correndo os cem metros rasos um centésimo de segundo mais rápido do que outro negão. Mas para mim, um jovem rapaz com os pensamentos alterados por substâncias químicas (todas elas lícitas – a última coisa que quero é ser flagrado no antidoping), isto é o grande estandarte da filosofia que vem nos sendo vendida ao longo dos últimos 2 séculos de capitalismo selvagem: “tudo evolui, o futuro sempre vai ser melhor do que o passado”.

Poderia ficar aqui discorrendo sobre esta senzala invisível que nos cerca, em um texto chato e maçante falando que a única razão de você acordar, encarar horas de um trânsito escroto e aturar um patrão imbecil é uma certeza subliminar de que sua vida vai ser um pouquinho melhor no dia de amanhã (como se você fosse um negão evoluindo 2 centésimos por década), mas deixo isso para os humoristas que já passaram dos 60. Afinal, os 60 anos estão no meu futuro, e até lá serei uma pessoa melhor, com uma vida melhor.

Prefiro traçar um ponto de vista escatológico sobre esta busca insaciável por recordes, ou “evolução”. Depois de pensar muito, não vejo mais o menor sentido em esperar quatro anos para celebrar progressões medíocres.

Fato: de 1912 até hoje, o recorde mundial do salto em distância evoluiu apenas 1 metro e 34 centímetros. Foram quase 100 anos para essa mixaria. Novos tênis, novos pisos, novas técnicas de preparação física, anabolizantes... e tudo que o malandro consegue são 134 míseros centímetros. Convenhamos, isso é menos do que a medida de quadril de qualquer capa da Playboy que se preze.
Outro fato ainda mais estarrecedor: de 1912 até hoje, o recorde dos 100 metros rasos diminuiu em 86 centésimos. Só 86 centésimos! É tão pouco que tenho minhas dúvidas se eles seriam capazes de medir essa diferença com tanta precisão em 1912.

Agora vamos ao tipo de recorde que realmente interessa e faz a diferença para a humanidade:

O primeiro filme pornográfico que assisti seriamente, há uns 15 anos atrás, contava com um casal praticando sexo normal. Este era o padrão: um pênis, uma vagina. Fim de história.
O tempo passou (Seul e Barcelona) e poucos anos depois a indústria evoluiu para uma nova marca: penetração dupla. Dois pênis, uma vagina e um ânus. Fim de história.
Uma “Atlanta” depois e já não era mais raro ver dois pênis, um ânus e fim de história. Penetração anal dupla.
Em Atlanta já estava sexualmente ativo e passei a depender cada vez menos de filmes pornográficos, assim sendo não tenho mais acompanhado com tanta fidelidade o vertiginoso ritmo de evolução de nossas “atletas”. Mas tenho quase que certeza de que a anal dupla já foi suplantada por alguma marca ainda mais ousada.
Peraí! Quase não, tenho certeza sim! Há um bom tempo atrás vi um vídeo na web onde uma mulher expelia uma bola de futebol americano pela vagina. Ao lado disso, três pênis atochados no rabo é coisa de sub-atletas, como os medalhistas dos jogos Pan-Americanos.

Ou seja, em menos de duas décadas o conceito de “penetração” certamente evoluiu em muito mais de 300%. Já o conceito de “correr 100 metros” ficou só nos 86 centésimos. Não é necessário ser nenhum gênio para perceber qual dos dois vende melhor a filosofia modernista do “dia de amanhã ser melhor do que o dia de hoje”.

A Olimpíada perdeu a sua eficiência de nos dopar com a fé na evolução e progresso da raça humana. Ela continua servindo para vender mais Coca-Cola e Adidas, mas se em um dia futuro acordarmos com a certeza de que tudo acabou e nada mais nos resta a descobrir, que o limite da penetração óctupla nunca será transposto, certamente não teremos mais a força de vontade para encarar horas de um trânsito escroto e aturar um patrão imbecil. E sem isso, nada de dinheiro para comprar mais Coca-Cola e Adidas. Será o fim natural do capitalismo, como previu Marx.

Soviéticos idiotas, estragaram tudo. Investiam nos super-atletas para um dia atingir “o limite” e mostrar que a fé no progresso constante não passa de um “ouro de tolo”. Erraram ao tentar derrotar o sistema usando os jogos olímpicos, se tivessem investido em uma “super Nadia Comaneci” devoradora de múltiplas rolas simultâneas, a história seria outra.

MrManson
mrmanson@cocadaboa.com

as 02/06/04, 02:17

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