Categoria: Odisseu Kapyn

Homem de Verdade

Dizem que para ser um homem de verdade, é preciso escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Mas tudo isso já ficou tão fácil que nem deve mais ser considerado.

Dizem que para alguém ser homem de verdade, é preciso ter escrito um livro, ter plantado uma árvore e ter feito um filho. É claro que não devemos levar essas coisas a sério. Afinal, pelo menos antigamente, tinha muito moleque sacana que chegava pra um amiguinho mais novo e dizia que para ser homem de verdade era preciso dar a bunda três vezes. Mesmo assim, essa história da planta, da árvore e do filho ainda mexe comigo. Estou sempre pensando se vai dar para fazer essas coisas antes de empacotar. Ou até se já fiz e não sei.

Essa coisa de plantar árvore é a mais difícil pra mim. Moro em apartamento e a planta dele não comporta um vegetal maior do que os cactos que venho cultivando na varanda. E para mim, não vale ir a um mato qualquer, pegar uma muda e meter lá na terra, deixando pra natureza a tarefa de fazer aquilo crescer. Tem é que acompanhar o crescimento da planta até ela vingar. E desde a semente. Mas já acho que já cumpri minha tarefa nessa área. Lembrem que na escola, muitos de nós tivemos que plantar feijões em um pote com algodão. Aquilo ia crescendo até deixar a nossa mãe de saco cheio do cheiro de podre que o algodão passava a exalar em algumas semanas. E a planta logo morria, deixando a molecada meio decepcionada. Acredito que o objetivo dessa experiência escolar nunca foi nos ensinar ecologia. Era, na verdade, para nos ensinar sobre a morte. Aliás, uma forma bem subdesenvolvida de fazer isso, pois nos filmes americanos vejo as crianças abrindo sapos depois de os asfixiarem. Aqui no Brasil a gente aprende a matar pés de feijões. Mas anos depois, fui mais longe e mudei o objetivo da experiência. Em vez de usar algodão, joguei uns feijões na terra e acompanhei os grão virarem planta até o ponto de darem novos feijões. Colhi, mas não os comi. Um dos motivos é que não sabia como ia cozinhar 16 feijões. A outra razão, devo confessar, é que fiquei com pena dos feijões. Criei um vínculo afetivo com aqueles grãos. Como se faz com filhos.

Filhos. Taí uma coisa mais fácil do que plantar uma árvore. Primeiro porque o ato de enterrar sementes é mais prazeroso. Segundo porque a mulher é um terreno geralmente mais fértil que terra adubada ou preparada com NPK. Basta um pequeno erro no cálculo da tabelinha, um furo na camisinha ou um descuido com a pílula e pinta um fedelho, ainda mais se você não estiver pronto para um. A coisa é tão fácil que até Gugu Liberato teve seu filho. O evento é comprovado em uma pequena pérola da literatura de título “Sou pai, e agora?”, de Gugu.

Pois é. Escrever um livro hoje em dia é algo muito fácil. Ainda mais com o advento dos ghost-writers. Aqui na tranqüilidade do meu lar, no meu escritório, posso olhar para o lado esquerdo e ver, logo acima da minha coleção de latas de cervejas estrangeiras, um monte de livros esquisitos que vieram parar na minha mão. De graça, é claro. Além da obra de Gugu, tenho outra de uma das moças que lhe garantiram uns trocados. Chama-se “Na banheira com Luíza Ambiel”, de Luíza Ambiel, aquela modelo que ganhava a vida se deixando esfregar por celebridades descartáveis e elevando o ibope do “Domingo legal”. Tenho também “Coisa de Louco”, de Ratinho. Sim, Ratinho, o apresentador de TV. Ele, que tem filhos, teoricamente já escreveu um livro e, se já plantou uma árvore, não precisa mais ter dúvida na hora de responder se é um homem ou um rato. Se você também quer dizer que escreveu um livro, basta juntar o monte de besteira que escreveu em seu blog, levar à biblioteca, pagar uns R$ 17 e registrar como obra literária. Pronto. Depois é só dizer “Pois é, escrevi um livro mas ainda não tenho editora. Mas tô aí fazendo uns contatos”.

Tendo plantado feijão, dado susto em namoradas com atrasos na menstruação e publicado alguns textos em revistas e sites, já poderia forçar a barra e dizer que já me sentia um homem de verdade. Mas foi de outra forma que me vi como um verdadeiro homem. O orgulho do primeiro canivete, do primeiro pentelho, da primeira ejaculada, do primeiro ato sexual ou do primeiro orgasmo proporcionado a uma fêmea foi substituído por uma experiência um tanto quanto banal. Me senti homem de verdade quando aprendi a usar uma furadeira. Por anos evitei usar aquela ferramenta, achando que eu pertencia a outra estirpe de homens, aquela que não precisa sujar as mãos para ver uma tarefa doméstica executada, podendo contratar alguém para isso. Mas eis que ganhei de presente uma Bosch Super Hobby 420 W, com duas velocidades. Comecei com um furinho para prender na parede um pato de cerâmica com ganchos para guardar chaves. Senti algo diferente. Era o poder de penetrar algo que oferecia resistência e acabava por ceder diante de meu instrumento viril e pulsante. Desde ali não parei mais e como um pica-pau insano saí pela casa furando paredes para instalar toalheiros, redes, cabideiros, recipientes para papel-toalha, telefones, etc. Quando me dei conta, estava chamando visitas até o escritório para mostrar “minha maior realização como homem”: o lustre no teto, instalado com uns fios que eu mesmo conectei e fixado com buchas que eu mesmo fixei no teto, usando a broca certa para o trabalho. Também entrei em contato com o mundo mágico do rejunte.

Agora sou capaz de visitar a seção de ferragens dos supermercados com o mesmo interesse que tinha ao ver as capas de revistas de mulheres peladas nas bancas na minha cada vez mais distante adolescência. E tenho vontade de comprar ferramentas que são quase tão inúteis quanto os anéis e sapatos que tanto tiram do sério a mente feminina. Sinto que é um caminho sem volta. Mas espero não partir para equipamentos mais pesados, como britadeiras. Em todo caso, precisando de alguém para penetrar superfícies com minha potente e insaciável ferramenta, é fácil entrar em contato comigo.

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

as 11/12/03, 03:05

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