Categoria: Autores Convidados
Todo final de ano é igual. As pessoas promovem ações beneficentes, as crianças ficam eufóricas com as possibilidades de presentes, a humanidade semeia a paz...

Escrever é uma tarefa difícil. Encontrar um tema bom para fazer um texto é bastante complicado. Sobre o que poderia eu escrever neste espaço? Pensei com calma e decidi. Escrevei sobre bocetas, afinal todos gostam de ler sobre bocetas.
Mas algo aconteceu e me fez mudar o texto.
Todo final de ano é igual. As pessoas promovem ações beneficentes para ajudar outras pessoas, as crianças ficam eufóricas com as possibilidades de presentes, a humanidade semeia a paz, o Fantástico faz aquele quadro para que os telespectadores adivinhem quem é o misterioso Papai Noel (este ano aposto que será o Rodrigo Santoro), cartomantes, numerólogos, adivinhas e macumbeiros disputam a tapas a chance de aparecer na TV e ir no Domingo Legal falar que algum cantor sertanejo vai morrer e que todos nós, brasileiros, teremos inúmeras alegrias no próximo ano. Sem contar das matérias do Jornal Nacional, demonstrando como ganhar dinheiro nesta época do ano com uma atividade paralela.
Na minha família sempre foi diferente. Enquanto que no resto do mundo todos se uniam para celebrar o Natal, na minha família era feita uma celebração parecida: Tinhamos carne de coelho na mesa, presépios e até enfeites nas janelas, meus tios, primos, primas e todo o tipo de chato aparecia lá em casa.
Porém no Natal meu pai nunca apareceu.
Eu era criança, tinha 7 ou 8 anos, e não tinha mentalidade suficiente para entender a situação. Tudo que me interessava naquele momento era abrir os presentes, conferir quantas cuecas havia ganhado e depois ir tomar sorvete na frente da TV até a hora do E.T. O extra-terrestre começar.
Só depois de algum tempo descobri a verdade sobre tudo isso. Não era nenhuma crise familiar, nem motivos de doença. Descobri que meu pai, aquele cara que me deu a vida, a pessoa que me educou, o ser que molhava minha chupeta na vodka e dava para eu beber quando eu só tinha 3 anos...
Descobri que meu pai era o Papai Noel.
Sim, pode parecer bobagem. Eu sei que milhares de pessoas já devem ter falado que Papai Noel não existe, mas eu não, eu sabia da verdade, sabia que o bom velhinho era o meu pai.
Passei a me portar de maneira diferente com meu amiguinhos, afinal, eu era o filho do Papai Noel. Poderia ter qualquer presente do mundo que pedisse. Eu era a criança mais feliz do meu bairro e meus amigos me invejavam quando eu contava esta história para eles.
Em 1988 comecei a organizar listas de presentes. Por uma quantia de dinheiro razoável as crianças do bairro podiam entregar para mim seus pedidos que eu repassaria tudo para meu pai na noite do Natal. Estaria eu montando um negócio natalino?
Não, para minha tristeza Papai Noel, meu pai, naquele ano não apareceu e nenhuma criança da minha rua ganhou o que havia pedido. Todos se sentiram lesados por mim e me desferiram pancadas que acompanham minha pele até os dias de hoje. Decidi esquecer essa história sobre meu pai.
Agora tenho 20 anos, universitário, trabalhador, escritor e músico. Uma vida pacata e bem formada na minha pequena cidade. Ontem vasculhando um guarda-roupa antigo achei a vestimenta de Papai Noel que meu pai usava nos natais. Sim, meus amigos, minha teoria de criança estava certa. Finalmente descobri a prova que esclarecia tudo. Eu sou, realmente, o filho do Papai Noel.
Mas agora não existe mais aquela magia de antigamente. E.T. O extra-terrestre já não passa mais na Globo e ser filho do Papai Noel não é tão importante assim. Me restou apenas sentar no meu sofá e recordar de todos os natais que passei com minha família.
Hoje pela manhã, quando acordei, não tive dúvida. Logo pensei: "Que se fodam as bucetas, vou escrever sobre o Natal".
moskito
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