Categoria: MrManson

Experi-minta! Experi-minta!

A piada do lançamento da “Nova Schin” foi tão forte que pouca gente conseguiu perceber a revolução que estava acontecendo no universo publicitário.

A piada do lançamento da “Nova Schin” foi tão óbvia e poderosa que pouca gente conseguiu perceber a revolução que estava acontecendo no universo publicitário. Tudo indica que a moda dos “reality shows” foi completamente assimilada por este ofício que sempre teve como objetivo nos enrolar com sonhos e fantasias. Os “paulistas de gravatas malucas e óculos de aro colorido” da Fischer América enfiaram o pé na jaca e resolveram criar o primeiro “Reality Advertise” da história.

Mas você, que é um leitor esperto e antenado, certamente dirá: “Peraí... Pessoas em um bar repetindo insistentemente uma palavra como se fossem zumbis? Hordas de ‘bebuns de boutique’ andando pelas ruas, tomando Schincariol e fazendo cara de prazer? Não há nada de real nisso!”

Mas aí eu digo: a verdadeira mensagem dos comerciais não está no roteiro, mas sim nas suas entrelinhas. O que os “paulistas de gravatas malucas e óculos de aro colorido” estão vendendo quando mostram um carro super-potente com design arrojado cortando estradas vazias em um cenário paradisíaco? Certamente não é um meio de locomoção para ir em segurança do ponto A até o ponto B... Subliminarmente estão te vendendo um estilo de vida. “Compre esse carro e sua vida ficará assim”. Na verdade você nunca vai dirigir este carro em uma estrada vazia em um cenário paradisíaco, principalmente se morar em São Paulo. Mas você o compra mesmo assim. Mas enfim, esta é uma outra conversa. Voltemos a realidade por trás do comercial da Schincariol.

Pela primeira vez uma empresa gastou milhões de Reais em uma campanha publicitária para dizer: “Tudo bem, nós reconhecemos que a nossa cerveja era uma merda, mas nos dê uma nova chance!”. O argumento por trás do filme é exatamente esse! Pessoas olham a marca, fazem cara feia e sacodem a cabeça negativamente como se dissessem: “Tá maluco malandro? Isso é Schincariol! Não bebo essa porra nem fudendo!”. O garçom insiste, mas nem do alto de sua sabedoria (Sabedoria sim! Pois em última instância o garçom é o sommelier do buteco!) consegue convencer o cliente. Isso reforça ainda mais o argumento: “Não adianta, Schincariol é uma bosta! Você é uma vergonha para a classe dos garçons! Usando o seu prestígio para desencalhar cerveja ruim!”

Mas aí entram em cena as celebridades com cachês exorbitantes. E o pobre bebum começa a titubear. Seu preconceito, ou melhor, seu conceito (pois a essa altura já temos a confissão assinada pela fábrica admitindo que a Schincariol era de fato uma merda) começa a ser ludibriado pelas “estrelas globais”. Ele certamente pensa: “Porra, vou dar uma nova chance pra esses caras... Afinal, se eles gastaram milhões contratando estes 'artistas' para me convencer, certamente investiram alguns centavos no produto, não o fazendo mais com cevada velha e água de poço”.

Ledo engano. O maluco prova a “nova cerveja” e sente aquele “velho gosto” de cera de ouvido. Mas e agora? Que ser humano teria a personalidade para contrariar um bar inteiro repleto de figurantes? “Ora bolas, se todo mundo diz que é gostoso é melhor eu dizer que está gostoso também, se não fico deslocado. Vão me achar um careta sem paladar apurado! E eu não quero ficar mal na frente dessa gostosa que é a Fernanda Lima!”

A história tão é comovente que até você, mero espectador, se envolve. A realidade por trás daquele bar cenográfico enche seu coração de indulgência e faz você querer dar mais uma chance para os cervejeiros de Itu. É a tradição cristã: “perdoar sempre que o pecador admite a culpa”.
Mas isso só até você exprimentar e sentir aquele mesmo gosto de band-aid usado. Lá se vai por água abaixo todo o “mundo perfeito” pintado pelos “paulistas de gravatas malucas e óculos de aro colorido”. Mas ele compensou, pois só nessa “primeira experimentada” já foram vendidas latinhas suficientes para bancar este mega-circo. Aí é só pensar na próxima. Qual vai ser o argumento da “Nova Nova Schin”? Aposto que vão colocar a culpa no recentemente falecido Sr. Schincariol, dizendo que a receita de família com o característico sabor de cabelo queimado era sagrada, mas agora, com o velho no caixão, finalmente eles fizeram uma cerveja que vale a pena ser experimentada.

MrManson
mrmanson@cocadaboa.com

as 12/09/03, 02:49

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