Categoria: Autores Convidados
Normalmente as pessoas ligam para o C.V.V. e passam trotes. Mas o que acontece quando um atendente do C.V.V. resolve subverter o sistema?
Em 98 eu (já) era um garoto rebelde, que detestava a vida, a sociedade, as pessoas e as instituições de venda de comida rápida. Com outros alienados do gênero montei a "Coalisão pela Perpetuação do Caos", o CPC. Para encurtar a história, entre as atividades desses marginais estava a de ameaçar professores e depredar suas posses (leia-se "carros"). Não havia líder, mas confesso que as idéias eram por minha conta.
Regina era a professora de português. Nossa luta era contra a gramática. Demos uma surra no filho dela, riscamos seu carro e fomos pegos porque um imbecil mandou um email em nome dele (esqueceu de trocar de usuário no momento do envio) com várias ameaças. Confessou tudo, entregou todos. Foi sério o negócio: foram até a polícia e nos denunciaram. E tive que ir à
delegacia - pela segunda vez na vida, diga-se. Chamaram os pais, uma verdadeira perpetuação do caos mesmo. Imbecis.
Então nos mandaram prestar serviços comunitários. Pior coisa do mundo. Uns foram cuidar de velhinhos, outros foram ajudar a fazer merenda em escola pública. Eu e Ferdando (apelido do cara, meu!) fomos para o CVV, o tal Centro de Valorização da Vida. Quem não conhece, é uma central telefônica que, basicamente, recebe ligações de losers, nerds, punheteiros e
mal-amadas que querem se matar. Sua missão é tentar ajudar essas pessoas - a não se matarem, claro.
Maioria dos atendentes são voluntários, que assistem algumas aulinhas sobre como não deixar o cara do outro lado da linha se matar e que ficam lá algumas poucas horas por dia. Vimos as aulas, anotamos tudo e nos colocaram no cubículo. Sim, são cubículos, pois até quem é voluntário pode querer não ser identificado. Ou seja, o Bozo, sem você saber, pode estar impedindo alguém de se matar nesse exato momento. Sentamos e suávamos esperando a ligação.
Mas eu mantinha firme minhas convicções. Não podia perder a oportunidade de perpetuar o caos. Tomei coragem, respirei fundo e trouxe o aparelho ao ouvido, atendendo a ligação:
- CVV, bom dia?
- Oi, moço.
- Qual seu nome?
- Giovana.
- Olá, Giovana. Posso ajudá-la?
- Sei lá, moço. Estou meio... Meio assim, sabe?
- Sei não. Diga...
- Meio, meio triste...
- Ah, sei... Sei sim...
- E então?
- E então o quê?
- Bom...
- Você não quer mais ficar triste?
- Bem, não...
- O que te faz feliz?
- Hmm... Não sei...
- Quantos anos você tem?
- 25.
- 25? E até agora não sabe o que te faz feliz? Tia, foi mal...
- Como?
- Olha, se todo mundo que me ligar aqui hoje quiser ser feliz sem saber como, foi mal...
- Tá, tudo bem. Obrigada.
Ok, em parte eu havia conseguido. Não segui a cartilha mas também não choquei. Mas já estava feliz por ter sacaneado um pouco. Dez minutos depois, nova ligação:
- Alô!
- É do CVV?
- Pra qual número você ligou?
- Pro do CVV e...
- E ligou pro CVV e quer que atenda quem? O Michael Jackson? É do CVV, pode falar...
[tu tu tu tu]
Hehe, desligou. Eu rachava o bico e ficava falando "Caos, caos, caos".
Infame, mas eficiente dessa vez. Outra:
- CVV, bom dia?
- Bom dia.
- Qual seu nome?
- João?
- João? João de qual bairro?
- Cinco Conjunto.
- Pô, João, quanto tempo?
- Hein?
- Não lembra de mim? Aqui é o Genovevo... Pô, e sua irmã, como anda?
- Er, bem... Acho que lembro de você...
- Pô, vamos marcar aquele chope que a gente sempre tomava...
- Vamos. Mas não diz para a Helena que eu liguei no CVV, por favor.
- Claro, sou seu amigo. Pode deixar. Faz assim, liga aqui na sexta, certo? Aí a gente combina...
- Ligo, abraço. Bom ter falado contigo...
- Até.
Tive que me segurar para não correr até o cubículo do Ferdando e contar tudo para o cara. Eu estava louco de tanto rir, quase morrendo, tossindo. Em meia hora de CVV eu já tinha sacaneado três. Faltava mais uma hora para terminar meu turno naquele dia. Eu precisava ser mais cruel. E fui:
- Oi. O quê?
- Oi, preciso de ajuda...
[voz doce; mudança de planos]
- Estou aqui para ajudar. Diga.
- É que, meu noivo...
- Qual seu nome?
- Sarita.
- Sarita? Belo nome. De onde eu venho há muitas Saritas...
- De onde você é?
- Cascavel. Conhece? Oeste do Paraná...
- Claro! Minha avô é de lá. Mora no São Cristovão. Conhece?
- Mentira! Eu morei do lado... Que coincidência.
- Hehe, é mesmo. E o que faz aqui?
- Ah, eu tenho uma empresa de informática, sabe? Então me mudei para cá, depois que abri uma filial aqui.
- Poxa, que bacana.
- Pois é...
- Mas o que faz no CVV?
- Bom, eu sou formado em psicologia e ciências sociais. Todo dia de manhã venho aqui, ser voluntário...
- Poxa, que bacana. Difícil conhecer empresários como você...
- Que isso. Faço o possível. Mas e então? Tudo bem com você?
- Melhor agora.
[bingo]
- Viu, eu saio daqui ao meio dia. Quer almoçar comigo?
- Seria uma boa. Vamos sim.
- Olha, vou almoçar ali no Tatanka, conhece?
- Sim, conheço. Do lado do meu trabalho.
- Vou estar de paletó cinza, sou ruivo.
- Uau! Gosto dos ruivos...
- Que bom. Te espero lá...
- Ah, uma coisa, qual seu nome?
- Lucas.
- Ok, Lucas. Bom, Lucas, te vejo lá pelo meio dia e meio, combinado?
- Combinado, Sarita. Beijo.
- Beijo.
Agora eu pegara pesado. Inventei uma história louca, a mulher acreditou e ainda vai quebrar a cara. E isso me deixou mais feliz ainda. Só precisava de mais uma ligação e meu turno iria acabar, eu iria reunir o CPC a tarde e contar meus feitos. Ali, sim, eu seria um líder. E o sucesso me subiu à cabeça (antes mesmo dele existir). Faltava pouco: um pequeno passo para um marginal, mas um grande passo para o caos. E a vítima surgiu, indefesa e desprotegida:
- CVV, em que posso ajudar?
- Oi. Ando meio deprimida, pensando em me matar...
- Mesmo? Por que? Brigou com o namorado?
- Não, mas um cara com quem eu fiquei, não quer mais me ver...
- Olha, eu aposto que você conheceu ele no Cinema Café, né?
- Como você sabe?
- Você tem voz de patricinha e problemas de patricinha...
- Mas...
- Faz assim, filha: antes de se matar, leva mais alguém com você, certo? E não fica ligando aqui para encher o nosso saco, beleza?
[soluços do outro lado da linha]
- E procure por uma morte que incomode o mínimo de pessoas possível, certo? Mas eu sei que você tá ligou aqui esperando que o doutor Jairo atendesse, pois se matar você não vai...
[choro]
- E tem mais, esse cara aí foi mais é esperto de não te querer mais. Menina chorona não dá certo...
[soluços; choro]
- Decidiu quem vai levar com você?
- Seu estúpido [snif, snif, chuife, chuife]. Eu só queria ajuda.
- Eu deveria cobrar pela ajuda que tou te dando. E olha que você tá recebendo de graça.
- ...
- Você sabe o que é napalm?
- Não.
- Faz assim: pega gasolina e muito isopor. Vai jogando no isopor até saturar... Quando saturar, vira napalm. Joga isso na cara do cara e tudo ficará bem...
- Tá bom, obrigada.
Perfeito.
Depois descobriram, pois outros cornos voluntários ouvem as gravações dos atendimentos (E DISSO OS ATENDENTES NÃO SÃO AVISADOS) a noite, e eu me ferrei mais ainda. Levei comida da mulher que cuidava do CVV de Londrina, do delegado, de meus pais, teve até notinha no jornal da cidade. Coisa do interior, compreende?
Por isso me fizeram ir cuidar das merendas das creches de periferia, pois disseram que fazendo isso eu não poderia sabotar, já que ficavam supervisionando tudo.
Bom, isso é o que eles devem achar até hoje.
[risada malévola]
Rafael Spoladore
http://www.rafainc.com
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