Categoria: MrManson

República das Laranjas

O Tio Bush disse que vai rever a tarifa dos produtos agrícolas! Boas notícias, estamos na ALCA!

Brasileiros e brasileiras, é com muito orgulho que vos informo: estou convicto de que somos o país do futuro! Finalmente, depois de quinhentos anos dominados por oligarquias retrógradas e escravizados pelo imperialismo, um homem do povo chegou ao poder e teve a coragem de fazer aqueles porcos yankees reconhecerem o nosso valor!

Em 2006, quando estivermos entorpecidos com as comemorações do hexacampeonato, vamos poder colher os frutos do primeiro ano de livre comércio com nossos irmãos americanos. O maior entrave para a nossa entrada na ALCA já foi resolvido. Nosso presidente foi até Washington, olhou nos olhos de Bush e em uma estupenda negociação fez com que ele aceitasse remover as barreiras alfandegárias para os nossos bons e velhos produtos da fazenda. Nosso orgulho nacional, o suco de laranja, poderá entrar no obeso mercado americano sem pagar a absurda sobretaxa de 400 dólares por tonelada.

Mas e agora? O que faremos com esses 400 dólares adicionais? Eu sugiro a compra de computadores novos para que possamos adentrar na tão badalada “Era da Informação”. Para cada tonelada de suco de laranja, receberemos um processador (se quisermos um de última geração, precisaremos de duas toneladas).
Imaginem a quantidade de laranjas que é preciso espremer para fazer uma tonelada de suco. O tempo que demora para plantarmos o laranjal, esperarmos os frutos crescerem, fazermos a colheita, espremermos, colocarmos tudo em barris, congelarmos e despacharmos em navios até os EUA... Será que para fazer uma CPU demora tanto? Sinceramente, não tenho a menor idéia. Já cheguei a ver no Discovery Channel um documentário mostrando um robô imprimindo freneticamente circuitos em uma placa de silício. Mas isso não é parâmetro, pois nós não encontramos muitos robôs por aqui. Temos que fazer comparações com os meios de produção que estão ao nosso alcance. Imaginemos então um galpão na baixada fluminense lotado com trabalhadores infantis, cada um com uma agulha, esculpindo manualmente no silício os circuitos dos processadores “Made in Brazil”... Pois é, além de demorar, o resultado não seria dos melhores. Mais vale nos concentrarmos em fazer suco, pois nele reside a nossa “vantagem comparativa”.

Mas vamos deixar a ironia de lado e nos focar na ciência. A coisa não é tão feia quanto parece, pois há um dispositivo teórico que equilibra estes aparentemente injustos termos de troca. Para quem não perdeu quatro anos estudando economia, explico de maneira simplista a “Teoria das Vantagens Comparativas”:
Americanos são bons fazendo computadores e péssimos espremendo laranjas. Brasileiros são péssimos na hora de fazer computadores, mas espremem uma laranja como ninguém. Se americanos não perderem tempo tentando fazer suco e concentrarem seus recursos exclusivamente para fazer computadores e os brasileiros desistirem de fazer computadores e concentrarem seus recursos exclusivamente para fazer suco de laranja, americanos e brasileiros produzirão muito mais computadores e laranjas. Trocando este grande excedente de produção através do livre comércio, eles satisfariam amplamente as suas necessidades por suco e computadores com um custo muito menor.
É mais ou menos como o saudoso almoço de Domingo na casa da minha avó. Minha mãe fazia a carne assada, meu tio levava as bebidas, minha avó fazia um bolo, uma outra tia preparava a farofa e assim sucessivamente. Com a união da aptidão de cada parente, tínhamos, todas as semanas, um fabuloso banquete. Quanto mais parentes compareciam, maior era a fartura na mesa. O mesmo se aplica aos países. Se eles formarem blocos de livre comércio e se limitarem a produzir apenas suas “especialidades”, todo mundo viverá melhor.

A analogia é perfeita, afinal, países são como famílias, certo? Existem desavenças, brigas e fofocas, mas no fundo algo nos une. Temos todos o mesmo sangue, somos humanos dividindo a mesma casa chamada “Planeta Terra”.

Então vamos buscar o bem comum, ora bolas!!!
O livre comércio é uma coisa boa e isso pode ser provado matematicamente. Leia um livro de economia internacional ou pergunte para um especialista que tenha uma credibilidade maior do que a minha. Por mais absurdo que possa parecer, trocar suco de laranja por computador é justo e representa um ganho real para ambas as partes.

Acontece que eu me lembrei do dia em que rolou um barraco no almoço de Domingo. A tia da farofa se desentendeu com as suas irmãs e foi banida do banquete. Mesmo com uma ferida em nosso coração, nós sobrevivemos muito bem. A tia que fazia o arroz passou a se ocupar da farofa também. Não ficava tão gostosa, mas era só uma farofa... Já a banida tia da farofa ficou em um verdadeiro mato sem cachorro. Teve que preparar tudo sozinha e passou a amargar arroz grudado e carne assada queimada todos os domingos, pois havia perdido a prática depois de ficar tanto tempo preparando apenas farofa. Coitada... Se ela tivesse “engolido o sapo”, a briga não teria acontecido e ela estaria participando do banquete até hoje. Mas ela preferiu defender uma posição ideológica e acabou caindo na miséria...

Ou seja, em tempos de paz tudo funciona maravilhosamente bem, mas quando aparece a primeira divergência, “apita mais alto” quem é dono do “prato principal”. Sem farofa o banquete de domingo pode continuar, mas sem a carne assada...

O que me deixa tranqüilo no caso dos “países unidos para o bem comum” é a confiança que eu tenho no suco de laranja. Todo mundo vai beber isso no futuro! As pessoas serão incapazes de trabalhar sem ter um copo de suco de laranja nas suas mesas. Os outros países vão ficar tão dependentes da nossa potente fonte de vitamina C que escutarão todas as nossas doutrinas. Ninguém ousaria perder esta deliciosa bebida. Já pensou? Eles correriam o risco de pegar um resfriado! Seria um desastre!
Deus é um cara legal! Nos dotou de um clima perfeito para plantarmos laranja! E ainda fez o favor de foder com os outros países, os enchendo de terremotos, vulcões e furacões! Será que Ele é mesmo brasileiro?

Ps. A última notícia que tive da minha “tia da farofa” foi uma frustrada tentativa de destruir o nosso banquete de Domingo. Ela nos enviou uma linda travessa de farofa preparada com antraz. Felizmente as nossas “brigadas anti-terror” identificaram a ameaça imediatamente, nos salvando da destruição. Impressionante como as pessoas podem ser vingativas... ainda bem que as nações não são assim.

MrManson
mrmanson@cocadaboa.com

as 22/06/03, 07:37

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