Categoria: MrManson
Sempre que vou consumir algo, principalmente um produto de uma grande corporação, me sinto mal. Algo me persegue dizendo: "Isso é errado, pessoas estão sendo exploradas, deixe de ser consumista e alimentar o sistema"! Na maioria das vezes eu me faço o favor de me mandar tomar do cu e acabo comprando o tênis da Nike ou comendo no McDonald's. Às vezes bate uma crise de consciência e fico me perguntando o porquê desse mal estar.
Publicado originalmente em setembro de 2002.
Compre (também) as Mentiras

Sempre que vou consumir algo, principalmente um produto de uma grande corporação, me sinto mal. Algo me persegue dizendo: "Isso é errado, pessoas estão sendo exploradas, deixe de ser consumista e alimentar o sistema"! Na maioria das vezes eu me faço o favor de me mandar tomar do cu e acabo comprando o tênis da Nike ou comendo no McDonald's. Às vezes bate uma crise de consciência e fico me perguntando o porquê desse mal estar.
O que sinto é profundo e subliminar. Quando calço o meu tênis, no fundo penso nas delicadas mãos da criança filipina que o fez. Quando mordo meu Big Mac, no fundo penso em minhas células sofrendo mutações e ficando cancerosas. Mas mesmo assim eu consumo. As bonitas cores dos milhares de minutos de comerciais que assisti durante toda a minha vida me obrigam a ter uma relação de amor é ódio com estas encantadoras empresas diabólicas.
Pelo menos me divirto com a anti-propaganda que estas empresas sofrem. O inconsciente coletivo é capaz de criar gratuitamente as mais mirabolantes lendas para fazer face aos bilhões de dólares investidos para constituir uma marca. Aí eu fico em dúvida: em quem acreditar? Nos boatos ou nas pessoas que estão sendo pagas para me convencer? As propagandas, obrigatoriamente, só me mostram o lado bom. Os boatos, mesmo que muitas vezes incoerentes, sempre têm seu fundo de verdade. O ódio, ainda que cego e absurdo, muitas vezes pode ser justificados por algum fato verídico.
Quem não se lembra do caso a carne de "res" ("coisa" em latim) que entupiu nossas caixas de email em 2000 / 2001? O boato dizia que "fontes autorizadas" da Universidade Estadual de Michigan descobriram que a carne utilizada pelo McDonald's nos seus hambúrgueres são provenientes de "vultos sem patas e sem cornos", alimentados por meio de tubos ligados ao estômago. Garanto que esse inocente boato colocou a pulga atrás da orelha de muita gente. Tudo bem que acreditar em "coisas inanimadas com uma aparência gelatinosa horrível" já é pedir muito, mas desconfiar da salubridade de uma comida feita em escala mega-industrial é bem razoável.
Não é preciso ser nenhuma fonte autorizada (e muito menos se despencar até Michigan) para saber que os atendentes do McDonald's não gostam de seus empregos, e isso já basta para construir um quadro tão nojento quanto a carne de "res". Os caras trabalham na frente de uma chapa quente respingando gordura em turnos intermináveis; lidam com "delícias" mais de 6 horas por dia, mas não podem comê-las; precisam ser simpáticos com clientes chatos e, às vezes, mais burros do que eles; são obrigados a usar um uniforme ridículo que devasta a moral de qualquer um; e, para fechar com chave de ouro, ganham um salário mínimo (que só não é menor porque a lei não permite). Eu, por muito menos, já escarraria em pelo menos 5 hambúrgueres por dia. Imaginem esses coitados que não têm nenhuma perspectiva de vida...
Diante desse simples quadro nada fantasioso, já consigo argumentos suficientes para não comer mais na casa do Ronald. Não preciso perder tempo estudando a engenharia molecular daquele gelo bizarro que demora cinco vezes mais para derreter, muito menos buscar uma nota fiscal de fornecedores provando que a liga dos hambúrgueres realmente é feita com proteína de minhoca, ou ainda fazer um pouco de papel reciclado usando o McShake, cuja maravilhosa textura é alcançada com uma apetitoso preparado de pasta de celulose.
Mas ainda bem que eu não preciso me preocupar com minha saúde, órgãos governamentais existem para isso. O que seria de mim se o congresso americano não tivesse obrigado a Coca-Cola a retirar a cocaína de sua fórmula original? Pois é, aprendi em um boato que o refrigerante mais vendido do mundo só conquistou a liderança do mercado porque usava o "talco colombiano" para viciar os seus consumidores (ou usuários?). Pouco importa. Com ou sem cocaína, a Coca-Cola continua líder e vendendo cada vez mais. Acho que vou mandar um email para a Universidade Estadual de Michigan e encomendar um estudo para descobrir o que vicia mais, se é a cocaína ou se é a propaganda em massa da marca mais poderosa do mundo. Pelo menos o traficante respeita a minha opinião quando falo: "Drogas? Tô fora!". Já a Coca não, eles insistem ao máximo, com um cartaz em cada esquina, com uma geladeira em cada bar. Não aceitam "não" como resposta. Você PRECISA experimentar, nem que a primeira seja de graça.
E o Bill Gates? Ele até seria um cara legal, mas o nerd largou a Universidade (advinhem qual? Estadual de Michigan, é claro!) na metade do curso e resolveu fundar a corporação mais demoníaca da história da humanidade. A lenda diz que ele traiu, espionou e fez contratos de má fé até conseguir colocar o seu sistema operacional em quase todos os computadores do planeta. Até hoje, só há uma única explicação aceitável para que um software tão odiado como o Windows tenha alcançado tamanho sucesso: pacto com o demônio.
Sim senhor! Li em um site evangélico (provavelmente feito com Front Page®) que a Microsoft é um instrumento do Anti-Cristo, que aos poucos ela vai dominar todos os hábitos de trabalho e lazer dos cordeiros de Deus e, em um grande evento pré-apocalíptico, os levará para o Reino das Trevas. E tudo estaria começando com os ataques terroristas de 11 de setembro, pois no Microsoft Word haviam mensagens codificadas na fonte "wingdings": Q33 (o número da quadra do WTC) = Q33 e NY = NY. Sinistro!
Chamar o Bill Gates de anti-cristo é pouco. O cara tem dezenas de bilhões de dólares e ainda faz questão de continuar cobrando por um programa que vive dando pau. Não me espantaria se descobrissem um dispositivo onde o usuário se compromete a vender a sua alma em alguma cláusula do gigantesco contrato de uso do novo Windows XP (que ninguém lê). Eles já têm tudo, só falta a nossa alma mesmo.
Mesmo sabendo disso tudo, sou obrigado a usar os produtos do mal. Se não fossem os softwares do Tio Bill, não teria como escrever esse texto e enviá-lo por email para o editor. Tenho que beber Coca-Cola para me refrescar. Tenho que usar Nike para ficar bonito.
Não me importo que eles me condicionem com propaganda e fiquem com o meu suado dinheirinho, desde que eles também não se importem com o meu prazer em ver as suas valiosas imagens sendo jogadas na latrina. Afinal, tenho que descarregar minha angústia desta forma, me aliviando ao descobrir que meus dilemas de cidadão-consumidor são menos relevantes do que os de uma criança-escrava filipina ou os de um boi-mutante da McFarm.
MrManson
mrmanson@cocadaboa.com
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