Categoria: MrManson
"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor"
Publicado originalmente em maio de 2002.
Memórias Póstumas de Pepezinha

"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor", aliás, para falar a verdade eu nem sou autor, sou apenas a Pepezinha, a falecida cadelinha de estimação da Vera Loyola; a segunda é que como sou apenas um animal, não fui adestrada para formular um texto clássico, com princípio, meio e fim. Tudo que me ensinaram até hoje foi não urinar no tapete persa da sala.
Meu enterro, assim como minha vida, foi muito suntuoso. Todas as cadelas da Barra da Tijuca estavam presentes, seus respectivos bichos de estimação também. Vera, minha dona, estava inconsolável, não pela minha morte, mas porque o buffet estava servindo espumante no lugar de champanhe. Não a levem a mal, as recepções são muito importantes no meio emergente.
Ainda sinto o cansaço da velhice que me abateu. Quando morri tinha 14 anos de vida canina, que convertidos para a escala humana ultrapassariam a idade do primeiro pivô de Cid Moreira. Meus últimos dias foram muito degradantes. Presa em uma cama e cega, precisava da ajuda de Zuleide, minha empregada particular, para fazer minhas necessidades. O único lado bom foi que Zuleide me limpava com lenços umedecidos, os mesmos dados na primeira classe dos vôos intercontinentais. Essa foi a grande ironia de minha convalescência: meus genitais só apresentaram alguma umidade através do toque higienizador das calejadas mãos de Zuleide. Isso mesmo, durante toda minha vida não permitiram que eu me envolvesse amorosamente com nenhum cão, um drama parecido com o da Sandy.
Crueldade de Vera? Acho que não. No meio emergente é normal copular apenas por prazer, o mesmo prazer proporcionado por uma viagem à Paris ou por um colar de diamantes. Mesmo já sendo uma balzaquiana, tive a oportunidade de cruzar com um buldogue dos "Mayrink Veiga", mas a união não foi aprovada pela família. O pedigree dos novos e dos velhos ricos não são compatíveis. Fui muito discriminada em minha vida. Ninguém no Country Club canino aceitava o fato da fortuna de minha dona ter vindo de uma rede de padarias, nem mesmo as interesseiras que se casaram com cinqüentões de alta classe. Muito estranho, pois elas também subiram na vida com a venda de roscas.
Mesmo enfrentando as herméticas barreiras da alta sociedade carioca, sempre me senti invejada. Estava sempre cercada de privilégios e bajulações. Outros cães nunca tiveram uma festa de debutante tão luxuosa como a minha. Toda a imprensa estava lá, demonstrando um incrível interesse pela enorme quantidade de dinheiro que minha dona era capaz de gastar para me fazer feliz, ou melhor, para se fazer feliz. Nada a satisfazia tanto como a ostentação. A idiotice da mídia transformando uma festa para cachorros em um grande evento era um orgasmo para Vera.
Zuleide também me invejava, sentia seu olhar devastador enquanto ela esperava o fim de minhas refeições para saborear os restos. Ingrata. Nunca nos agradeceu pela oportunidade que Vera a proporcionou. Ela era uma mera filha de empregada. Aos 16 anos ficou grávida e ou invés de ser expulsa de nosso lar foi designada para me criar junto com seu bebê. Minha dona ainda teve o pudor de comprar o melhor leite em pó para dar ao filho dela, pois todo leite materno da serviçal era reservado para mim, afinal precisava de muitos anticorpos. Enquanto mamava no peito de Zuleide, via o meu "irmão de leite" se deliciar com uma maçaroca de leite com Neston. A cena era tão decadente que pensava comigo: "nessa vida tenho que ser uma cadela muito boa, porque se não Deus pode me castigar e fazer com que eu nasça filho de empregada na próxima encarnação".
Pepezinha
mrmanson@cocadaboa.com
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