Categoria: P.I.R.U.
Em minhas andanças pelo mundo, diga-se de passagem, não são muitas, percebo que no lugar onde fui gerado, poucas coisas possuem o seu real valor. Tudo anda tão irreal e desconexo, que juro, cada dia que passa me desconheço mais.
Publicado originalmente em julho de 2001.
Em Terra de Tupiniquim, só não canta de Galo quem for Paraguaio
Em minhas andanças pelo mundo, diga-se de passagem, não são muitas, percebo que no lugar onde fui gerado, poucas coisas possuem o seu real valor. Tudo anda tão irreal e desconexo, que juro, cada dia que passa me desconheço mais.
Todo dia é uma papagaiada diferente que faz a minha índole estrangeirar-se em minha terra natal. Vejo homens e mulheres rindo dos outros como se fosse a última piada bem contada do século, e vendo de perto, este ainda não passou por completo, e não digo isso por não ver carros decolando do chão ou pessoas voando em botas, mas porque ainda fazem as mesmas piadas com a minha cara.
Talvez eu tenha cara de otário, ou de besta mesmo, por ser o único que não entendo a moral da história, e mesmo que a mulata que dança freneticamente para um típico malandro piadista vestido de branco viesse a mim e me explicasse a vertente e a mote da história destes mesmos piadistas que ela sempre alegra, possivelmente eu choraria.
Você não sabe por quê?
"Ai, ai, ai, carrapato não tem pai."
Lembro dessa música não sei porque. Ela me veio na cabeça agora, sem mais nem menos.
No meu eterno cotidiano de leitor, angariado a pouco mais de três anos, pela necessidade de saber, olho no jornal matutino e diário da elite - e que elite é essa - mais piadas com a minha cara. Deputados e senadores se engafinhando porque o chefe de uma tribo baiana está perdendo o cacife de doutor. E o outro que chora copiosamente - e digo copiosamente porque eu já vi esta cena antes, plagiada de algum escândalo eleitoreiro anterior. Pergunto-me qual era, mas a minha mente falha. Já vi tantos outros assim, que nem me importo mais - parece estar com medo de perder a boquinha.
A repetição sem sentido é a base teórica do clichê, algo que é muito repetido e que acaba perdendo a força da expressão. Jesus salva, Deus dará, tantas outras que vejo e que perderam o gosto da boa mensagem, da arte da palavra concisa. Lembro bem duma discussão numa roda de cerveja com um amigo de um colégio em que dou aula.
- Bicho, o que significa senador?
- É metáfora pra Filha-da-puta - digo.
E a metáfora é tão forte que esses piadistas andam de terno preto e não branco como vejo aqui fora.
"Ai, ai, ai, carrapato não tem pai."
Odeio ficar com a mesma música na cabeça, copiosamente repetida, sem mais nem menos.
Tento me distrair lendo a parte de esportes. Mas o que adianta? Sinto mais e mais a minha índole paragualizada quando vejo a última folha de um caderno de economia do Jornal da Elite. É outro chefe de tribo, de uma tribo advinda da Península Ibérica, que por seu mérito criou Oca aqui no Rio, e seu cacique está de mãos atadas aos pés por causa de uma tal de CPI. "CPI é clichê moderno", exclamo com meu ego ferido.
Fecho o jornal e vou trabalhar emputecido com a vida.
Pela janela do ônibus vejo os homens que não trabalham e tem louras maravilhosas em seus carros. Não reclamo das louras pois sou casado com uma, mas não posso desfrutar do carro junto com ela. E onde ela está agora? Discutindo com o dono da escola em que ela dá aula, - tal qual eu - perguntando porque o salário está atrasado dois meses.
- Ainda não temos dinheiro em caixa.
A mesma ladainha de sempre. Outro clichê, pós-moderno.
Mesmo mal ter sido parido, já estou farto do século vinte e um. Vou chamá-lo de século um sete um, me sinto melhor assim.
Eu odeio fim de bimestre em colégio. Um catatau de provas para corrigir, entregar no prazo, fechar talisca na média, número de faltas, participação em sala de aula, quem é este porra deste aluno aqui, a calculadora pifa o café está frio cortaram a luz "gastamos mais este mês meu bem" corte verba no fim Pede ajuda a teu pai Pai está duro pinta O pinto aqui quer pintar Está sem vontade vou corrigir nota errada calculadora pifada tem alguém rindo de mim Cadê o diário completo tem um erro aqui o número de aulas não bate porque você faltou professores são de Marte acorda fessô está dormindo em aula
"Ai, ai, ai, carrapato não tem pai."
O salário este mês vai atrasar de novo não temos verba Deus dará Deus dará Deus dará dai-me paciência balela papo-furado é tudo clichê pós-moderno
"Ai, ai, ai, carrapato não tem pai."
Esta foi mais uma noite que babei em cima das provas.
- Professor, que mancha amarela é esta em cima da minha prova?
- Bem, acorda, hora de dar aula.
Um dia, ainda tenho um colapso, ou morro antes dos trinta.
Mesmo ônibus, mesmo lugar de rico, mesmo carrão, as mesmas louraças. O rico avança o sinal no seu carrão potente e foge do olhar do guarda que só sente o vento passar por suas costas. O fusca branco foi fazer o mesmo e foi catado por um ônibus. Pobre tem que sofrer mesmo.
Dia seguinte, no Jornal, vi que era professora também. "É, menos uma", concordo.
A mulata ainda continua dançando e rindo em excesso. Seu macho, negro de cor e branco de roupa, está colocando os verdes para fora do bolso. onde será que ele conseguiu? Percebo numa freada brusca e um grito que vinha da saída do ônibus.
- Parados! Isto é um...
Música para os meus ouvidos...
"Ai, ai, ai, carrapato não tem pai."
Os tostões de segunda que eu ia esticar até o fim da semana foram para a mulata bonitona. E eu quem tomei bonito. Sabe o que é tomar bonito? É quando você não consegue nem sentar direito depois, e eu vou ficar uma semana em pé e a pé.
Jesus salva Jesus salva Deus dará Deus dará Deus dará dai-me paciência ... dai-me um carro dai-me dinheiro.
- Bem, estou grávida...
Dai-me forças, dai-me... dai-me... dai-me... Santo Dai-me.
Vejo que o mulateiro está melhor na vida. Seu carro e sua vida nova estão indo de vento em popa. E vejo sua foto num cartaz eleitoreiro.
- Vote no fulano de tal, pra se livrar de marginal.
Bingo! Não deu outra! O cara levou como o mais votado.
- Chefe, o plano de saúde cobre os gastos com Gravidez?
- Claro que não.
É mais uma semana que vou ficar em pé.
Minha cabeça roda com mais uma lida no Jornal, o processo de cassação foi por água abaixo, o que chora ri e o outro, o com cacife de Doutor, ganha carnaval e micareta na sua tribo.
"Ai, ai, ai, carrapato não tem pai."
Lembrei quem canta esta música. O Grande Carequinha. Minha mãe me diz que eu fui no programa dele quando bunda ainda não apresentava programa, e eu tinha participado de um quadro dele. Quando as crianças eram pintadas de palhaço e saíam fantasiadas como o Carequinha.
Talvez eu ainda esteja neste quadro.
E me canso de sentir cheiro de plástico do nariz de palhaço e encaro o mulateiro nos olhos. Sento com o meu amigo de copo do colégio e criamos um projeto. Marcamos de levar no mês que vem para a Sudene e ele me diz que um amigo do amigo que tem um amigo conhece o primo amigo do Tio Jáder. "Porra cara, por que você não falou antes, cacete."
Pego o meus ônibus com um sorriso no rosto que impressionou até o trocador das oito. O mesmo de sempre.
- Piada nova?
- É - digo, pago a passagem e sento rindo da vida.
As pessoas ao meu lado não entendem o motivo da minha risada. Nem me importo, seus rostos paragualizados mostram que ainda não perceberam que o século 171 é uma cópia marginalizada do passado. "É hora de cantar de Galo.", penso com o meu ego inflado. Já me imagino sendo Filha-da-puta e dando um milhão de dólares pro meu filho passar o fim de semana em Miami.
Música para os meus ouvidos...
"Sou apenas um rapaz latino americano..."
Tudo bem, concordo que Belchior não é da minha época, mas e daí? Estou no século errado e pensando certo agora. Pode até ser um pouco tarde, mas é ao som desta música que durmo dentro do ônibus sem ter medo de ser assaltado.
P.I.R.U.
piru@cocadaboa.com
Envie para um amigo:





