Categoria: MEM

Músicas para Ouvir no Apagão

Estão aí os rumores de que vamos ficar sem luz durante algumas horas do dia, a partir de primeiro de junho. Pode ser que seja só boato, mas se acontecer, e todo mundo ficar na escuridão, é bom neguinho ir comprando umas fitas K7 virgens, comprando pilhas, fazendo uma seleção de repertório, e botando o walkman em dia só pra ouvir música boa no escurinho. Vão aí dicas de discos bons pra se ouvir no escuro (se possível, bem acompanhado).

Publicado originalmente em maio de 2001.

Músicas para Ouvir no Apagão

Estão aí os rumores de que vamos ficar sem luz durante algumas horas do dia, a partir de primeiro de junho. Pode ser que seja só boato, mas se acontecer, e todo mundo ficar na escuridão, é bom neguinho ir comprando umas fitas K7 virgens, comprando pilhas, fazendo uma seleção de repertório, e botando o walkman em dia só pra ouvir música boa no escurinho. Vão aí dicas de discos bons pra se ouvir no escuro (se possível, bem acompanhado).


Miles Davis - In A Silent Way / 1969

Lá pelo final dos anos sessenta Miles Davis tava começando a se ligar em sons diferentes do jazz tradicional. Ele tava preocupado em alcançar um novo tipo de público, a juventude negra americana, e esta galera estava se ligando em coisas como Jimi Hendrix, James Brown e Sly Stone, músicos que passaram a ter grande influência no trabalho de Miles.

Em 1968, o quinteto de Miles passou por transformações. Ron Carter saiu fora , e novos músicos passaram a integrar a banda, trazendo novas idéias, novos instrumentos e novas sonoridades. Entraram na banda Chick Corea e Joe Zawinul nos teclados e pianos elétricos, John McLaughlin na guitarra e Dave Holland no baixo. Além destes permaneceram ainda no conjunto Herbie Hancock (teclados), Tony Williams (bateria) e Wayne Shorter (saxofone). Miles Davis então, estava pronto para fazer as mudanças que estavam em sua cabeça. Entrou no estúdio com essa galera e gravou "In A Silent Way".

Muita gente gosta de falar no "Bitches Brew", como o disco que inaugurou uma nova forma de jazz, o estilo chamado "Fusion". Não que o "Bitches Brew" não seja foda, longe disso. É um disco genial, bom pra caralho. Mas ele é tido como pioneiro, pois foi um disco que vendeu pra cacete pro padrão dos discos de jazz da época. E foi com o ele que Miles realmente conseguiu alcançar a galera jovem que ele tanto queria.

Porém foi com "In A Silent Way" que este novo estilo de jazz teve seu início (nos discos "Miles in the Sky" e "Filles de Kilimanjaro", anteriores a "In A Silent Way", já dá pra notar algumas novidades na música de Miles; mas nada de avassalador). Neste disco, além de adicionar pianos elétricos e teclados, Miles incorporou ao jazz, levadas mais "funks", o­nde o baixo e a bateria seguravam uns grooves fodas, enquanto que os teclados faziam vários efeitos. Efeitos estes, que davam uma espécie de cama sonora às músicas, o que fazia com que elas ficassem com climas totalmente diferentes dos climas do jazz tradicional.

Os críticos e puristas do jazz torceram o nariz pro álbum na época, dizendo que Miles estava rebaixando o estilo. Bando de bestalhões!!
Este é um disco muito bom pra ser escutado em qualquer ocasião, mas no escuro é do caralho. Tem um clima calmo, mas sem ser moroso. As músicas são bonitas, cheias de sonoridades fodas (destaque pros "fender rodhes"). É perfeito pra tu deitar na cama e ficar prestando atenção nos detalhes. Dá pra viajar legal nas músicas.
Este LP foi o primeiro de uma série de vários discos fodões de "fusion" do próprio Miles Davis. Dentre eles podemos mencionar : "Big Fun", "Miles at Filmore", "Pangea", "On the Corner", "Live Evil", o já citado "Bitches Brew" e outros mais.

É bom destacar que estes discos de Miles, marcaram o início do "fusion", mas que eles diferem muito da pilha que outros artistas deram para o gênero posteriormente. Os próprios Chick Corea, com o Return to Forever; Joe Zawinul e Wayne Shorter com o Weather Report; e John McLaughlin com a Mahavishnu Orchestra, fizeram coisas abomináveis, que chegam a ser engraçadas de tão ruim. Os discos destes caras pareciam uma competição de quem fazia as músicas mais complicadas e chatas. Os discos do Miles estão em outro patamar.

"In A Silent Way" é foda! Miles Davis é gênio! Corram atrás.

NEU! - NEU! / 1972

Este disco é meio complicado de achar. Um bom lugar é na Rua Pedro Lessa, no Centro. Lá tem uma porrada de barraquinhas de CD's e LP's. Numa delas tem um cara chamado Fernando, que tem uma porrada de maluquices. Foi lá que meu amigo Gabrimanuel comprou o CD, e me deu de presente no meu aniversário de 61 anos.

Eu citei esta banda na coluna passada, no texto da Nina Hagen, quando falei da tradição da boa música alemã. Esta banda faz parte da galera do chamado "krautrock", que também contava com bandas como Guru Guru, Cluster, Harmonia, Tangerine Dream, Kraftwerk, Can e etc. Essas bandas, foram pioneiras no rock eletrônico. Lá pro final dos anos 60, elas começaram a incorporar ao rock tradicional, sintetizadores, gravadores de rolo, batidas eletrônicas e diferentes tipos de sons de ambientes.

Este é o primeiro Lp da banda. Foi gravado em apenas quatro dias, e teve como produtor, Conrad Plank, o mesmo cara que produzia os discos do Can.

O disco também tem um clima muito bom de se ouvir no escuro. Assim como "In A Silent Way", é um disco pra ser escutado com atenção pra não deixar os sons escaparem. As músicas são grandes e tem um formato galgado nas repetições das linhas de baixo e das batidas retas da bateria. As guitarras minimalistas e os efeitos, dão às músicas um clima meio hipnótico, tipo um mantra (pppffffffffffhhhiiii!!!). Porém é bom ter cuidado pois no meio do disco tem uns barulhos de britadeiras bem altos, que podem dar sustos nos mais sonolentos.

A banda é formada por apenas dois caras: Michael Rother (também membro do Harmonia) que toca guitarra, "deliguitarre"(?), baixo e baixo-dobrado; e Klaus Dinger (ex-Kraftwerk), que toca banjo japonês, percussão, guitarra e faz os vocais.

O segundo disco da banda (NEU! 2) também é altamente recomendável, assim como devem ser os outros que vieram depois, ma que eu não conheço.

NEU!, é seguramente uma grande influência para bandas de hoje em dia, como Stereolab, Sonic Youth, Rame, Triplex e outras mais.
Ya! Ya! Ya!



Pink Floyd - The Piper At The Gates Of Dawn / 1967


É meus caros, resolvi falar de ouvir música no escuro, e não consegui me esquivar de discos "viajandões", que te deixam meio atordoados de tantos sons e detalhes malucos. Então, seguindo essa linha, não podia deixar de escrever sobre um dos discos mais psicodélicos, senão o mais psicodélico de todos os tempos: "The Piper At The Gates Of Dawn", o primeiro LP do Pink Floyd. Não do Pink Floyd setentista de David Gilmour, mas sim do Pink Floyd lisérgico do doidão-mor Syd Barret. Este LP foi lançado no auge do psicodelismo (1967), e traz uma série de músicas perfeitas para se ouvir relaxado, na escuridão.

Para quem não sabe, Syd Barret era um dos maiores usuários de LSD da época, e suas músicas refletiam diretamente a influência desta droga em sua cabeça. As músicas do disco são muito doidas, mostrando diferentes formas de "música-chapadona". O disco tem desde canções mais puxadas pro "folk" ("The Gnome"), quanto canções que parecem trilhas de desenhos animados do Walt Disney, tipo Alice no país da maravilhas ("Chapter 24", "The Scarecrow", "Bike", "Flaming") . Algumas letras falam de amor de um jeito muito doido, já outras falam de coisas como o gato de Syd, ou de um capítulo de um livro chinês. Há obras primas da música psicodélica e da música em geral no disco. "Interstellar Overdrive" é uma levação de som da banda, que começa com um puta "riff"de guitarra e se estende por quase dez minutos de pura viagem, com muita experimentação maluca. "Lucifer Sam", "Matilda Mother", "Take Up Thy Stethoscope And Walk" e "Astronomy Dominé" também não ficam atrás, trazem levadas muito fodas, puxadas pelas guitarras loucas de Barret. Antes deste disco o Pink Floyd lançou dois compactos, com as músicas "Arnold Layne" e "See Emily Play" (tem uma boa cover do David Bowie pra esta canção no disco "Pin Ups" de 1973), que também são boas pra cacete, e precedem o clima deste LP. Estas músicas estão na coletânea "Relics", e valem a pena uma conferida.

A banda nestes sinlgles e no "The Piper..." era formada por: Syd Barret na guitarra e na voz, Roger Waters no baixo e também na voz, Richard Wright nos teclados e Nick Mason na bateria. Em 1968 Syd Barret foi expulso por estar doidão demais, e estar "atrapalhando a evolução da banda" (como se a banda tivesse evoluído!!).

Acima eu falei mal, do Pink Floyd de Gilmour, mas não dá pra ser tão radical. O rapaz merece alguns créditos, pois afinal o segundo LP do conjunto ("A Saucerful Of Secrets" - 1968) também é um disco do caralho, e já é com ele nas guitarras (embora Syd Barret ainda tenha tocado em duas faixas). Também não podemos esquecer de citar o "Dark Side Of The Moon"(1973), que é um bom disco.

Sem dúvida o Pink Floyd de Syd deixou suas influências em artistas como o próprio David Bowie, o nosso gaúcho Júpiter Maçã, dentre outros que eu não estou me recordando.

Falou Manés

Viva a saúde! Não use Absinto!?

MEM
mem@cocadaboa.com

as 14/01/03, 22:36

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