Categoria: MEM

MÃE É MÃE

Em homenagem ao dia das mães que está chegando, aqui vão três "discos-fêmeas".

Publicado originalmente em maio de 2001.

MÃE É MÃE

Em homenagem ao dia das mães que está chegando, aqui vão três "discos-fêmeas".


Nina Hagen Band - Unbehagen/1979

A única coisa que eu conhecia da Nina Hagen, é que ela tinha dado uns amassos no nosso "papito" Supla na época do Rock in Rio 1. E diga-se de passagem que o show de Nina no festival foi excelente, isto dito pelo senhor meu pai, que presenciou de perto o evento. E se o velho falou, eu assino embaixo.

Porém, há algumas semanas atrás estava eu no Jiu-Jitsu (nosso grande fornecedor de Lp's do Largo do Machado), quando encontrei este disco da nossa amiga alemã. Como os discos no Jiu-Jitsu são vendidos a R$ 2,00 cada, eu decidi comprar no escuro e ver no que ia dar. Sorte minha. Seguindo a tradição da boa música alemã e de seus grandes representantes, tais como Kraftwerk, Can, Neu, Guru Guru, Harmonia e etc; este disco da "nega" Nina pode ser considerado um clássico. É do cacete !!

"Unbehagen" é o segundo Lp da Nina Hagen Band, e não é considerado um disco solo dela. O primeiro disco solo só seria lançado em 1982.
O disco mistura os estilos que mais estavam rolando na época: punk, reggae, new wave e até um pouco de heavy-metal e glitter-rock. Muitas músicas me lembraram as nossas bandas roqueiras dos anos 80 como Titãs, Ultraje A Rigor, Paralamas do Sucesso, Ira etc.

A Nina Hagen é muito louca. Seus vocais vão desde coisas parecidas com canções líricas, religiosas e folclóricas alemãs, até outras coisas, como o som de um cachorro urrando ou o berro de um urso acuado. Os vocais chegam a ser meio amedrontadores em algumas músicas, mas ao mesmo tempo são de se cagar de rir, pois qualquer mulher que cante um reggae em alemão berrando feito uma gata no cio não tem como não ficar engraçado.

A Nina Hagen Band é muito boa, destacando-se o tecladista Reinhold Heil, que tira uns sons bons pra caralho (meio parecidos com Devo), e o guitarrista Bernard Potschka que faz uns riffs e umas levadas meio "metal-glitter-brega", mas que caem como uma luva nas músicas.
As letras são tão malucas quanto as músicas e a cantora, e falam desde ir a África e encontrar "Jah Rastaman", até coisas como "se eu fosse um garoto eu seria gay", e por aí vai...

Os destaques vão para as músicas "African Reggae", "Alptraum"(sonho alpino), "Wir Leben Immer...Noch"(ainda estamos vivos) , "Herrmann Hiess Er"(o nome dele era Herrmann) , "Wau Wau", "Fallin Love Mit Mir"(apaixone-se por mim) e "No Way"(sem condição).

Vale a pena conferir.


Gal Costa - Gal Costa/1968

Quando pensei em escrever esta coluna em homenagem ao dia das mães, só colocando discos de cantoras, na mesma hora tive certeza de que deveria incluir nela o primeiro disco solo da Gal Costa. Pois este é um disco marcante, bom pra caralho e etc. Mas com o passar dos dias, esta certeza foi me escapando pelas orelhas. Como pode nossa cantora baiana ex-ícone da contra-cultura brasileira defender o senador ACM com unhas e dentes? Se o cara fez merda, ele tem que pagar por isso. E esses "naciobaianalistas" tem que perceber que ao defenderem o senador, eles estão compactuando com a proliferação das mentiras e da impunidade no país.

Quem lê jornal teve a oportunidade de ver vários depoimentos de outros artistas criticando a posição da Gal, dentre eles o do compositor Jards Macalé, o qual já teve várias músicas de sua autoria gravadas pela cantora aqui referida: - "...Zélia Gatai está perdoada, tem 84 anos...Mas a atitude de Gal foi boba. Ela canta bem, mas é burrinha". Mandou!

Porém, minha paixão pela música é maior que picuinhas políticas (coisa piegas porra!), e no final das contas decidi manter o disco da baiana entre os indicados da semana.

Este disco é o primeiro da fase tropicalista da cantora. Não vou me deter falando muito do movimento tropicalista, mas em um curto resumo, direi que o Tropicalismo era um movimento musical que visava livrar a música brasileira da época, de uma série de vícios nela contidos. Assim os baianos procuravam um formato novo para a nossa música, formato este, que pudesse captar os diversos estilos e influências espalhadas pelo mundo, e adaptá-los a uma linguagem nativa. É mais ou menos por aí.

Este Lp traz muito desta mistura tropicalista. As faixas "Sebastiana", "Saudosismo" e "Se você Pensa" além de serem lindas, podem ser tomadas como excelentes exemplos do que eu disse acima. A primeira era um coco cantado por Jackson do Pandeiro, e que na versão tropicalista virou um forró-porrada com guitarras, baixo, bateria, efeitos e a Gal Costa gritando bastante (João Saldanha que o diga). Já a segunda é do Caetano Veloso, e é uma bossa-nova, que no final se transforma num tremendo esporro, e cuja letra fala muito do que foi a Tropicália. A terceira também é válida como exemplo, pois é uma música da dupla Roberto Carlos e Erasmo Carlos, os maiores ícones da Jovem Guarda, um movimento de muito sucesso popular mas muito criticado pelos "intelectualóides" da época. Estes diziam que rock era coisa do imperialismo norte-americano, e que sua proliferação por aqui seria ruim para a nossa cultura. Bom, esta música neste disco, ganhou uma versão mais "mal comportada" que a de Roberto e Erasmo, além de alertar que os preconceitos nacionalistas não estavam com porra nenhuma.

Todas as outras músicas do LP também são muito fodas, mas eu vou agora destacar uma coisa muito séria. Este disco, assim como quase todos da Tropicália, conta com o maior guitarrista brasileiro de todos os tempos (que me desculpem Pepeu Gomes, Sergio Dias e aquele garoto novo daquela banda carioca esquisita chamada Carne de Pescoço, ou Carne de Segunda, ou Carne seca, ou uma porra qualquer destas): Lanny Gordin é um gênio da raça (alô Lulu!!)!! Ele assina os arranjos do disco junto do Gilberto Gil e do Rogério Duprat (outros "puta mestre meu"), e as guitarras que o cara toca são absolutamente perfeitas. Elas só entram na hora certa, com o timbre certo, com a intenção certa com a porra toda certa. Puta que o Pariu !! É muito foda. O que é o solo de "Namorinho de Portão", e as frasezinhas de "Vou Recomeçar", sem falar em "Divino Maravilhoso". É um absurdo!!
Quem não conhece ou não quer conhecer as obras deste cara, tem que correr atrás, pois ta marcando toca.

Outros discos da Gal também são fodas, mas este primeiro é com o qual eu mais me identifico. Então, taí a recomendação.


Celly Campello - Brôto Certinho/1960

Falando de mulher, eu não poderia deixar de citar a grande pioneira do rock brazuca : Celly Campello.

Mesmo não sendo a primeira a cantar rock no país; Nora Ney, Cauby Peixoto e Betinho, já tinham flertado com o estilo em canções isoladas antes dela, Celly Campelo foi a primeira cantora a encarnar o rock como seu próprio estilo, e emplacar os primeiros grandes sucessos do gênero no Brasil.

Este disco é o segundo na carreira da cantora, e as músicas em sua maioria são versões de hits do rock gringo da época ("Banho de Lua", "Grande Amor", "Brôto Certinho" e mais). As letras chegam a ser engraçadas de tão despretensiosas. A maioria fala de brôtos, estudos, namoro, corações partidos, broncas da mamãe e etc. Tem uma que mostra a cruel dúvida do brôto entre namorar e estudar, e tem o seguinte dialogo: - "Celly você vai sair esta noite?" - "Claro que vou Toni!" - "Vai com quem, posso saber?" - "Sim, vou com Pedro Álvares Cabral!!"(hahehehihuhohhauheourhihhahhehehehihihohohihuhihohuiiu!!!)
Os arranjos das músicas são simples e ótimos. A banda ( Mário Gennari Filho e seu conjunto e coro) é muito boa. O coro que acompanha Celly é genial, bom pra caralho, nota dez. O saxofonista e o guitarrista também se destacam no lance, sempre fazendo "solinhos bonitinhos e fofinhos" (fofinho é a puta que te pariu sua bicha do caralho!).

Não é a toa que Celly Campelo é citada em várias canções de outros medalhões da nossa música como Gilberto Gil, Rita Lee e Raul Seixas. Celly plantou a semente do rock canarinho. Palmas para Celly!!!!

É isso

Sonic Youth baixou em nós, AMÉM!!!

MEM
mem@cocadaboa.com

as 14/01/03, 22:35

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