Categoria: MEM
Neste feriado de semana santa, quem baixou aqui em casa não foi o coelho da páscoa, e sim o Papai Noel.
Publicado originalmente em abril de 2001.
Papai Joey Neguinha
(foto ilustrativa, não achei a capa real)
CAYMMI E SEU VIOLÃO - Dorival Caymmi / 1959
Neste feriado de semana santa, quem baixou aqui em casa não foi o coelho da páscoa, e sim o Papai Noel.
Papai Noel gosta de trazer sempre novas polêmicas para serem debatidas em família. E nesta semana depois de falar de cascas de ovo, pontes de safena e gêmeos univitelínos, Papai Noel surge com a seguinte exclamação:
- Porra!!; eu tava pensando, e cheguei a conclusão de que este tal de Dorival Caymmi é um tremendo de um chato!!
Eu gripado, sentado no meu canto do sofá, assistindo ao jogo do Botafogo e depois de ter comido uma cacetada de costelas de porco, me encho de ímpeto e levanto a voz em defesa do nosso "graaaaande baiaaaaaaaaaaaano". Tento explicar pro Papai Noel, agora já cercado de alguns asseclas, que Dorival é um grande compositor, um grande músico, e um grande cantor. Falo para ele de algumas canções marcantes que o nosso velho baiano compôs, mas mesmo assim, Papai Noel continua relutando em admitir que tenha falado alguma bobagem.
Dou um exemplo para Noel. Digo pra ele pegar este disco que vos recomendo, coloca-lo na vitrola, sentar dentro do meu orelhão da Telerj (eu tenho um orelhão do Estado em minha casa), em frente das caixas de som, fechar os olhos e escuta-lo com calma. Se ele fizer isso e depois continuar dizendo que Dorival Caymmi é um chato, ele pode sair dali, se enrolar em uma camisa de força e ir direto passar uma temporada no Pinel fazendo tratamento mental.
Meus colegas, mesmo que vocês não tenham um orelhão em suas casas, ao ouvirem este disco de Caymmi, vocês se sentirão como se estivessem sidos transportados para uma rede numa praia da Bahia, cheia de pescadores, com um belo por do sol, e tomando água de coco com canudos coloridos.
Dorival Caymmi neste disco está acompanhado unicamente de seu violão, e faz miséria com ele. As levadas são gostosas de se ouvir, te deixam relaxado. A voz do cara nem se fala; é algo boçal.
As músicas são incríveis do começo ao fim. Da primeira ("Canoeiro") a última ("Noite de Temporal"), só têm clássicos. Coisas lindas do mestre da música baiana e brasileira que merece todo nosso respeito e admiração.
Concluindo; no fim da tarde, eu emprestei meu disco pro Papai Noel, e mandei ele escuta-lo lá no Engenho do Mato, onde ele mora, com esperanças de que da próxima vez ele venha me falar de músicos realmente chatos.
IT'S ALIVE - Ramones / 1979
ONE, TWO, THREE, FOUR
Nesta semana eu não poderia deixar em branco um fato que nos deixou um pouco mais entristecidos. A morte de Joey Ramone vocalista dos Ramones, vítima de câncer linfático.
Joey foi um dos pilares do movimento punk dos anos 70, sendo os Ramones, a primeira banda a traduzir literalmente o sentido da palavra punk. Pra quem não viveu os anos 70,80 e 90, ou não leu o livro "Mate-me Por Favor", vai aqui um breve resumo histórico dos Ramones.
Em 1974, enquanto a onda hippie tomava o planeta, e o rock progressivo estava cada vez mais se espalhando pelas vitrolas dos jovens; havia uma galera que não estava nem aí para essas papagaiadas. Era uma galera jovem de Nova York que gostava de coisas como Velvet Underground, MC 5, Stooges, New York Dolls, Patti Smith e etc, e que achavam que pra tocar e se divertir só precisava-se de equipamentos, idéias e vontade.
Nesta galera estavam quatro malucos que não conseguiam sequer tocar covers das suas bandas preferidas. Eram eles Johnny Ramone (guitarra "Musrite"), Dee Dee Ramone (baixo), Joey Ramone (vocal) e Tommy Ramone (bateria). Estes quatro filhas da puta chegaram fodendo o avião e sentando a mamona. Criaram um novo estilo, que consistia basicamente em tocar músicas com três acordes, num ritmo acelerado, com duração de um a dois minutos mais ou menos, e com um gás filha da puta.
Em 1976 lançaram seu primeiro disco ("Ramones"), o qual, na capa (uma das melhores capas da história) posaram para a clássica foto em que estão encostados num muro, com jaquetas de couro pretas, calças jeans e tênis rasgados , e camisetas velhas. Nos anos seguintes vieram mais três LP's antes deste que estou lhes indicando; "Leave Home", "Rocket to Russia" e "Road to Ruin".
Em 1979, foi lançado "It's Alive", álbum duplo (no vinil), que traz um show da banda na Inglaterra, na passagem de ano de 77 pra 78. Este disco é muito foda é pra deixar babacas como eu que nunca foram a um show dos Ramones deprimidos pro resto da vida. Todas as 28 faixas são boas pra caralho e os caras estão em plena forma, e do melhor jeito em que poderiam estar: AO VIVO! Eu não conheço todos os discos da banda, mas dos que eu conheço, este é para mim o melhor, mesmo sendo mais ou menos uma coletânea de músicas dos outros discos anteriores.
Está aqui feita minha homenagem a uma das figuras mais importantes e mais esquisitas da história do Rock: Joey "Chico Xavier" Ramone.
HEY! HO! LET'S GO!
CATCH A FIRE - Bob Marley and The Wailers / 1974
Nesta semana, meu amigo português me carregou para um evento que tá rolando na Lapa todas as quartas. Este evento consiste em qualquer pessoa chegar lá com seu instrumento, e tocar qualquer tipo de música que esteja afim. Bom, eu cheguei lá, tomei umas cervejas com os amigos, ouvi uns caras tocando; até que uma hora me chamaram pra tocar numa jam (viadinho!). Eu aceitei, e a merda da levação acabou sendo boa. Começou num troço meio groove, estilo The Meters, e acabou num reggae meio dub, estilo porra nenhuma.
No final da noite o evento já tava meio rodado, então, subi de novo e toquei um novo reggae com outros malucos. Resultado desta noite. Cheguei em casa e não tive dúvidas, peguei meu "Catch A Fire" e coloquei direto na vitrola. Foi aí que percebi que este ia ser o terceiro disco desta semana.
"Catch A Fire" é um disco indispensável em qualquer discoteca; diria mais, eu coloco este disco entre os dez melhores de todos os tempos (excetuando-se os discos dos Beatles e os do Jimi Hendrix)'.
Neste LP os Wailers estão em sua melhor formação - Bob Marley nos vocais e na guitarra; Peter Tosh, nos vocais, na guitarra, no piano e no órgão; Bunny Livingstone, nas percussões e nos vocais; Aston (Family Man) Barrett no baixo; e Carlton (Carlie) Barrett na bateria - e dão um verdadeiro show de bola.
O disco é impecável, sem nada pra por nem pra tirar. A primeira faixa, "Concrete Jungle" é uma das músicas mais emocionantes que existem. O solo de guitarra é de chorar (mas não é do Peter Tosh). A música seguinte, "Slave Driver", tem uma linha de baixo absurda de boa, que faz chorar qualquer barbado. E falando em baixo, este disco é uma verdadeira aula de como se toca baixo. O Aston Family Man é sem dúvida, um dos melhores baixistas de todos os tempos. As linhas de baixo dele são inacreditáveis de boas; o cara tem uma pegada de mamute sinistra. O Carlton Barrett também não fica pra trás. Segura as porras das músicas como se tivesse contando historinhas pra neguinho dormir. Peter Tosh ta tocando e cantando pra cacete, e o Bob Marley dispensa comentários, é um puta mestre!
Este disco também tem uma grande importância pra música em geral, pois foi a partir dele que o reggae se tornou mais popular mundialmente. O disco traz um reggae mais pop-rock, de mais fácil acesso pro público em geral, fazendo com que europeus e americanos ficassem maravilhados com o ritmo dos crioulos jamaicanos.
O disco é tão bom e importante, que eu consigo até traçar uma ponte entre Dorival Caymmi e o movimento punk-pós punk. O disco foi com certeza uma grande influência para bandas punks e pós-punks como The Clash, Blondie, Nina Hagen, The Specials, Madness e outras mais; além disso ele tem muito a ver com o clima relaxado da Bahia, podendo ser escutado em qualquer esquina de Salvador.
É isso aí, é isso aí, é isso aí !!!
Jon Spencer mandou um beijo na bunda de todos os leitores
Até a próxima
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