Categoria: Sherlock Holmes da Silva
Perder é uma merda. Dinheiro, mulher, ônibus... o homem ocidental é educado para ganhar. Perder a vida então, nem se fala... Nossa cultura é bem materialista, embora não assuma.
Eu, particularmente, adoro viver e curto pacas tudo o que há por aqui: mesa, cadeira, mouse, Cristo Redentor, chocolate... Morrer, fora tudo, é um saco.
Todavia, é inevitável e, como dizem os sábios, é nossa única certeza.
Mas então porquê fazemos de um troço inevitável um espetáculo tão patético quanto é um enterro?
Na semana passada realizei (realizaram, quero dizer) a façanha de perder no mesmo dia dois parentes próximos. Entre um enterro e outro, como eu estava muito profundo, pude observar detalhadamente como somos infelizes em nossa despedida aos mortos.
Publicado originalmente em agosto de 2002.
Corpos Pútridos de Alma Imortal

Perder é uma merda. Dinheiro, mulher, ônibus... o homem ocidental é educado para ganhar. Perder a vida então, nem se fala... Nossa cultura é bem materialista, embora não assuma.
Eu, particularmente, adoro viver e curto pacas tudo o que há por aqui: mesa, cadeira, mouse, Cristo Redentor, chocolate... Morrer, fora tudo, é um saco.
Todavia, é inevitável e, como dizem os sábios, é nossa única certeza.
Mas então porquê fazemos de um troço inevitável um espetáculo tão patético quanto é um enterro?
Na semana passada realizei (realizaram, quero dizer) a façanha de perder no mesmo dia dois parentes próximos. Entre um enterro e outro, como eu estava muito profundo, pude observar detalhadamente como somos infelizes em nossa despedida aos mortos.
Ó velório é um troço absurdo, passam um tempão naquela babação de defunto, o povo com cara consternada; umas canções de doer na alma. Na hora que fecham o caixão tem sempre um filho se desesperando e gritando; passam pela capela e tocam um sino anunciando para o mundo todo que o fulano dentro da caixa já foi levado pelo "Zé Maria" e, quando a cova é no chão, o filho desesperado resolve dizer que vai junto se jogando; tudo sombrio, soturno... ridículo.
A gente se acha muito evoluído, mas os orientais dão um banho na gente no quesito morte. As culturas e religiões orientais acreditam piamente que a morte é mais legal que a vida e, embora todas as religiões partam do mesmo ponto comum, é só atravessar o Greenwich para essa visão mudar. No judaísmo (a religião mais ocidental do oriente), catolicismo e no protestantismo, todo esse lance de vida eterna com Deus é balela. Tá lá na liturgia; o rabino, o padre e o pastor estão sempre comentando, mas é só ter uma disputa de posse, uma peleja qualquer e essa gente entra em guerra, mata o irmão, e vende a mãe. Acumula capital, pratica usura, mata florestas, os bichos e vende a pele... o certo mesmo é prosperar nessa existência que já está garantida. O povo faz tanta merda em vida que acha que morrer vai ser um inferno!
Nós achamos a "vida após a morte" uma superstição, mas isso acontece pela maneira com que a eternidade nos é pintada. Fala-se em paz e tranqüilidade nos campos do Senhor; enquanto isso os muçulmanos se preparam para encarar uma porrada de virgens gostosas e carentes, o que te parece mais atraente?
Num enterro budista - cê tem que ver! - o povo vai todo arrumado e contente, porque ou o espírito do defunto vai evoluir e voltar melhorado para outra encarnação, ou já vai diretinho para o paraíso sem escalas. Já os enterros ocidentais são sempre problemáticos. Quer seja pelo desespero dos entes ainda vivos, ou pela disputa pelas posses do defunto ainda quente. Os sacerdotes até falam em vida eterna, mas essa possibilidade é encarada como prêmio de consolação (como o céu canino que nossos pais mencionam quando nosso cachorro morre), o bom mesmo é estar "Vivinho da Silva".
Mas, de todos os orientais, foram os egípcios os especialistas em defuntos e enterros; ser papa defunto era uma profissão de classe. Lá os mortos eram enterrados com seus melhores pertences, dinheiro, animais e até mesmo escravos. Mas vá você aqui pedir para ser enterrado com uma boa roupa ou sapato, seus livros ou CDs (para o caso da eternidade ser um tédio) - você acha que alguém vai deixar? Não, vão te chamar de excêntrico e ficar com as suas coisas! Se pedir para colocarem a sua mulher junto (para ninguém mais usar) te enterram ainda vivo!!!
Até os órgãos dos egípcios eram separados e preparados para serem recolocados na outra vida, e ficavam intactos por milênios. Por aqui é uma merda, quando não doam seus órgãos e você vai todo esburacado, te exumam em 3 anos; ou seja, com a morosidade da justiça (a divina é a mesma coisa) quando o seu pedido de ressurreição for deferido você já não está no mesmo endereço e sua chance de voltar a viver vai pro beleléu.
Com os egípcios se faziam grandes cerimônias com acepipes e sacrifícios, e o povo todo ia com gosto ao seu enterro. Já nessa maldita cultura ocidental o enterro vira coluna social familiar; é a chance daquele bando de parasitas se encontrar para as mulheres repararem o quanto as outras envelheceram desde o último enterro e para os homens falarem de como vão bem nos negócios, mesmo não indo.
O pior é quando as moscas já estão brindando o morto (que já passa da validade) ainda no velório. E que piora ainda mais quando a tumba (de gaveta) foi exumada há pouco tempo (aqueles três míseros aninhos em que o defunto ainda está em processo de putrefação; mas sabe como é, "time is money") e um festival de moscas vem dar boas vindas no dia de sol escaldante.
A família fica doida para largar o morto e acabar com o martírio de imaginar que aquela mosca que está pousando em seu braço, rosto ou boca, estava se divertindo e se alimentando do cadáver do antigo inquilino da tumba - argh!
No Egito é impossível se esquecer de um morto, sua catacumba tinha o tamanho que você quisesse, no formato que você sonhasse! Até para os ocidentais a coisa não era muito ruim; não precisava ser muito rico para ganhar uma escultura ou lápide. Mesmo o mais miserável tinha direito aos sete palmos de terra que cabiam a qualquer homem "neste latifúndio". Mas hoje em dia você tem direito a uma gaveta numa parede de cimento. Não dá para um filho pegar um punhado de terra e saber que ali está um pouco do seu pai, nem tampouco para você poder puxar o pé da esposa cachorra ou do sócio traidor numa eventual visita. Você em vida já tem certeza de que não "voltará para semente", não virará adubo orgânico; e nem pode dizer "esse olhos que a terra há de comer", já que não haverá terra nenhuma sobre você.
Não dá gosto de visitar um parente assim, nem o chorume que escorre você sabe se é do seu morto ou do vizinho!!!
Nosso povo já não tem memória e (na morte) você vira um carneiro quadrado e numerado numa parede. Depois de tudo o que passou em vida sua última morada é numa "kitinete".
A única saída possível para driblar o esquecimento póstumo é fazer alguma coisa célebre como comer a Sandy ou o Júnior e talvez valer uns pontos para um leitor maluco no Bolão Pé na Cova. Ou então fazer como nós, autores do Cocadaboa, e se inspirar no exemplo do Paulo Coelho; escreva um bando de merdas e vire imortal da Academia Brasileira de Letras.
Sherlock Holmes da Silva
sherlock@cocadaboa.com
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