Prisão Capitalista

Não é para fugir da realidade, mas fundamentalmente, o ser humano normal e adulto precisa de coisas simples, que por isso mesmo já tem nomes simples e pequenos.

Uma casa com cama, num morro ou praia, com mato e frutas. Um fogo, luz, um cão, bichos, caça, uns manos, uma tcheca ou pemba (a depender do gosto do freguês), um PC e um cabo (de internet).

Pode rolar uma TV, mas de preferência sem os comerciais, para ser assegurada a paz e o sentido real da vida.

Publicado originalmente em julho de 2002.

Prisão Capitalista

Não é para fugir da realidade, mas fundamentalmente, o ser humano normal e adulto precisa de coisas simples, que por isso mesmo já tem nomes simples e pequenos.
Uma casa com cama, num morro ou praia, com mato e frutas. Um fogo, luz, um cão, bichos, caça, uns manos, uma tcheca ou pemba (a depender do gosto do freguês), um PC e um cabo (de internet).
Pode rolar uma TV, mas de preferência sem os comerciais, para ser assegurada a paz e o sentido real da vida.
Mas se todo mundo soubesse disso e apenas quisesse isso para viver, toda a sociedade seria muito diferente e uma série de parasitas sociais seriam levados à extinção. E como o mundo está distante de ser perfeito existe a mídia para confundir e fazer com que a gente ache que precisa de uma infinidade de coisas totalmente inúteis, mas que garantem a manutenção da vida dos parasitas citados.
Estou meio revoltado com isso porque reparei no que eu preciso de verdade para viver e no que eu tenho que buscar para viver porque é a coisa certa a ser feita.

Essa semana fui comprar um telefone celular novo e me abismei com a quantidade de modelos, cores, recursos, possibilidades e operadoras que eu teria que optar antes de adquirir o celular.
Para cada função e recurso adicional (que eu duvido que algum dia utilizarei num telefone celular) eram acrescidos uns 50 reais ao preço final.
Eu sonhava em gastar os 250 reais que um simples mecanismo que me integraria ao mundo globalizado deve valer, mas comecei a me preocupar com toda uma gama de características e qualidades que eu não poderia usufruir, de acordo com a mocinha bonita do balcão da loja de telefonia.
"GSM: Global System for Mobile Communication"; "GPRS: General Packet Radio System"; "WAP: Wireless Application Protocol"...
São palavras pomposas, nunca havia sentido a necessidade delas, mas o mundo inteiro já está vivendo essa realidade...

Por fim, o telefone não deveria apenas me "manter em contato com o mundo"; o telefone deveria dizer quem sou, a que venho....
"Que ambições eu posso ter se meu telefone começa a sua vida já derrotado? Se eu não possuo uma WAP? Se meu celular não tem um PIN ou um PUK?"

Há um texto do Jorge Luís Borges, que eu li em espanhol no colégio e infelizmente não me recordo o nome (- perdão, Borges!), em que ele fala da relação que se tem com um relógio de pulso e da escravidão que se estabelece com um objeto que "resolvem" fazer com que precisemos. Me senti tão desconfortável quanto o Borges, mas sem o talento dele para dizer isso, claro!
Confesso que me angustiei com o status do meu celular e estive a ponto de gastar o dobro do previsto em função do: menor tamanho, maior memória, cor mais exclusiva, design mais arrojado e, principalmente, para ter a certeza de que quando eu souber exatamente para que serve um GPRS, poder ter o direito de dizer que eu nunca o utilizarei porque eu escolhi não usar, e não porque o meu celular não tem um GPRS (independente do que um GPRS faça).

Esse texto eu não pensei sozinho. Os outdoores, as páginas das revistas, os comerciais de TV e rádio, os folders e as inúmeras meninas bonitas e bem arrumadas de todas as lojas de telefonia me deram a dica.
Infelizmente eu apenas me revoltei com o celular, o resto do engodo que me cerca passa despercebido a maior parte do tempo.
E é triste, porque eu continuo desejando um monte de coisas que não possuo nesse momento e que motivam a fazer as coisas que eu tenho que fazer porque são as coisas certas a serem feitas.

E é mais triste ainda porque eu, por fim, comprei o celular. Todavia, se eu vivesse cercado das coisas simples lá de cima como "a casa com cama, num morro ou praia, com mato e frutas; um fogo, luz, um cão, bichos, caça, uns manos, uma tcheca ou pemba (a depender do gosto do freguês), um PC e um cabo (de internet) e a TV sem os comerciais", eu não teria nenhuma razão para ter gasto os 250 reais no celular.

Sherlock Holmes da Silva
sherlock@cocadaboa.com

as 14/01/03, 22:07

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