Categoria: Eddie Torres
...Uma espécie de frenesi tomou conta da população que soluçava vendo o velhinho carecote vestindo o pijama de madeira. Ganância? Morbidez? Quem sabe? A única certeza que pudemos tirar disso tudo, era que a morte era um bom negócio.
Publicado originalmente em agosto de 2001
Morte Live

Ao vivo, em cadeia nacional, assistimos em 1985 ao cortejo fúnebre do símbolo da democracia Tancredo Neves. Foi a primeira transmissão televisiva de um enterro. E foi em grandíssimo estilo. Morre o Presidente da República! (Ainda tem gente que espera que aconteça de novo, porém isso é outro assunto...). Pela primeira vez a sociedade chora diante da TV com o drama da vida real. Uma espécie de frenesi tomou conta da população que soluçava vendo o velhinho carecote vestindo o pijama de madeira. Ganância? Morbidez? Quem sabe? A única certeza que pudemos tirar disso tudo, era que a morte era um bom negócio. Quem não se emociona quando ouve Milton Nascimento cantando "Coração de Estudante"? A música se tornou o hino de Tancredo Neves. Até hoje isso ecoa no imaginário da sociedade que ainda lembra do bom velhinho como a esperança de salvação de um Brasil recém saído de uma ditadura "mal'dita' e 'dura'" (no pior sentido das duas palavras).
Após essa fatalidade, a televisão descobriu um novo caminho para as minas com esse seu marketing macabro. E o público acabou tomando gosto por desgraças e morte de celebridades. O segundo da lista, foi o eterno comunicador Abelardo Barbosa, o Chacrinha (para os mais jovens, Chacrinha era o Faustão de antigamente). Outro chororô em cadeia nacional. Flashes ao vivo a todo momento, depoimento de amigos famosos, da família, o choro do cidadão humilde, que perdia seu maior adestrador. "Quem vai querer o bacalhau da Elba Ramalho? Quem vai querer o abacaxi do Wanderlei Cardoso?"...provavelmente as mesmas pessoas que, espetacularizadas, assistiam Chacrinha ir pro buraco sentados em suas poltronas (que cemitério nenhum proporciona).
Chegando os anos 90, a febre dos enterros televisionados volta com força total. Os executivos da mídia deram graças a Deus, por ter empacotado muita gente famosa, dando um bom lucro para eles. Diga-se se então que os anos 90 foram anos de "matar" (ignorem o trocadilho sem graça). Cazuza, Ayrton Senna, Mamonas Assassinas, Leandro, Renato Russo entre outros. Nunca se vendeu tanto merchandising depois de morto. E isso é fato comprovado por estatística: o número de CDs, camisas e outras bugingangas memorabilia vendidos desses artistas triplicaram depois de suas mortes.
Mas o Brasil não foi pioneiro nisso...pra variar nós nos atrasamos alguns anos. Das minhas vastas pesquisas no assunto, descobri que a primeira e talvez a maior choradeira mundial, foi quando deu-se a notícia da morte de John Kennedy. O marketing em cima da morte daquele herói nacional foi tão grande que dizem que até russo e chinês estavam chorando...Isso me leva a crer, que além de cretino, o Brasil é um país baba-ovo até nas desgraças. É claro que antes disso tivemos o suicídio de Getúlio Vargas...pena que na época a televisão brasileira era pior que o SBT e a Globo juntas em dia de domingo quando morre alguém ou tem jogo de decisão, e não cobriu tão bem aquele dia trágico, quando o maior fascista vira-casaca do Brasil resolveu "deixar a vida para entrar para história".
Porém o caso mais sinistro foi a morte da princesa do mundo, a Lady Die, digo, Di. Uma história mal contada de um acidente trágico envolvendo um segurança, um motorista, perseguição de jornalistas Hell's Angels, um magnata, uma princesa, uma capotada fudida e a imprensa mundial perturbando o mundo com imagens da princesa fazendo boas ações no mundo. O que me faz lembrar que todo mundo quando morre vira anjinho (igual uma recente figura política foi pra COVAS e tem o mesmo nome daquele cara que te carcou atrás do armário...sabe quem é?). E muitos outros ainda estão por vir! Aguardem a morte da Xuxa, do Pelé, do Roberto Carlos...aí sim vocês verão o que é um chute 'mortal' no saco dos telespectadores!
Eddie Torres (que não é papa-defunto como o Sr. Augusto Liberato, mas é patrocinado pelo Bolão Pé-na-cova 2001)
eddietorres@cocadaboa.com
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