Categoria: Eddie Torres
Vamos ver aquela exposição, daquele artista muito louco que ninguém conhece num ateliê em Santa e depois vamos tomar um choppinho na Lapa. A gente pode conversar sobre a influência cósmica na discução da ética em Nietzsche e escutar um chorinho com o conjunto de um pessoal de uma faculdade de comunicação qualquer dessas.
Publicado originalmente em julho de 2001
SÍNDROME DO MODERNINHO

Vamos ver aquela exposição, daquele artista muito louco que ninguém conhece num ateliê em Santa e depois vamos tomar um choppinho na Lapa. A gente pode conversar sobre a influência cósmica na discução da ética em Nietzsche e escutar um chorinho com o conjunto de um pessoal de uma faculdade de comunicação qualquer dessas. A vida do moderninho é uma atividade cultural incessante. É um "fosso" de conhecimento em eterna expansão. Essa raça que parece estar se proliferando cada vez mais no meio universitário em geral está ganhando força e já pode até se sindicalizar, só pra poder inventar alguma coisa que os faça aparecer em alguma coluna "anti-social", porque o que esse povo gosta mesmo é de aparecer, mas dão preferência a algum lugar onde a burguesia possa usufruir em paz da sua mediocridade sem ser incomodados pelos alienados e alienígenas.
A casa do moderninho parece um Centro Cultural, onde você encontra tudo que é tipo de bujinganga culturalizante. Desde um poeminha de Fernando Pessoa num quadrinho atrás da porta até uma carranca baiana que repousa no canto da sala observando e rosnando para os amigos "cú" dessa gente "cool". O moderninho curte também fazer aquelas reuniõesinhas pra lá de chatas. Tá certo que essa gente perde a linha e enche o pote, ainda mais quando resolvem "valorizar o produto nacional" e entornam uma garrafa de Caninha da Roça, tudo em nome do nacionalismo pedante dos nova-iorquinos de Copacabana.
Mas não tem nada que irrite mais o moderninho do que a ignorância passiva do populacho brasileiro, a quem ele declara seu amor em prosa e verso. "Mas é a cultura do morro. Uma reflexão autêntica sobre a situação do miserável do Brasil" justifica o moderninho para o seu companheiro de bilhar. Mas quando o filho da empregada aparece cantando o Bonde do Tigrão, o moderninho sobe nas tamancas e quer a todo custo civilizar aquele primata que ousa ferir sua intelectualidade com a grosseria favelada do funkeiro negro do cabelo louro.
Porém não é tão ruim quanto parece. Ser moderninho, não é ser um chato como disse uma vez Darcy Ribeiro, mas é ser um pouco daquilo que nós mortais, queremos ser às vezes...principalmente quando queremos ser aquilo que não podemos ser na totalidade da cronologia de nossa pseudo-vida: Uma pessoa confusa e esnobe.
Eddie "Kid Double-Dealing" Torres (The depressed socialite from the streets of SoHo)
eddietorres@cocadaboa.com
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