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Já estava na hora de alguém falar sobre Santa Teresa, um bairro escroto do Rio de Janeiro, no qual todos acham que são artistas. Seus moradores pensam que estão nos Alpes suíços e saem às ruas de cachecol sempre que não precisam usar camiseta - e fazem uma reuniãozinha, com queijos e vinhos, para comemorar a estação em que o calor manera em seu bafão. A imprensa conservadora ataca as favelas por serem responsáveis por um poder paralelo. Santa Teresa sim tem um poder paralelo terrivelmente irritante, que é o dos babacas.
Publicado originalmente em agosto de 2002.
O BAIRRO DOS BABACAS

Já estava na hora de alguém falar sobre Santa Teresa, um bairro escroto do Rio de Janeiro, no qual todos acham que são artistas. Seus moradores pensam que estão nos Alpes suíços e saem às ruas de cachecol sempre que não precisam usar camiseta - e fazem uma reuniãozinha, com queijos e vinhos, para comemorar a estação em que o calor manera em seu bafão. A imprensa conservadora ataca as favelas por serem responsáveis por um poder paralelo. Santa Teresa sim tem um poder paralelo terrivelmente irritante, que é o dos babacas. Estes entrincheirados no mundinho da "cultura de elite", "cultura alta", ou seja lá como for mais conveniente a esses pancrácios preocupados em se diferenciar.
Para falar a verdade, seus habitantes não acham que moram nos Alpes suíços. Apesar de morarem no alto do morro, a pretensão é outra. Esses malucos acreditam mesmo que estão na Paris boêmia do final do século XIX, respirando arte em seus cafés elegantes e tramando alguma revolução cultural. Só que, de alinhado mesmo, os seus bares têm a conta - acrescida dos 10%. Está pensando o quê? Vida glamourosa sai caro, meu amigo. Viva uns minutinhos dessa boemia artística, num desses "bistrôs", que você vai sair com as calças na mão.
Santa, para os mais íntimos, é um bairro para quem é bacana, não vá se meter aonde não foi chamado. Se o leitor não tiver um guarda-roupa vanguardista e uns óculos com design arrojado, nem perca tempo. Lá quem não é moderno é funkeiro. E isto lembra classes populares, é bom ficar um pouquinho longe. Desse negócio aí de popular os moradores gostam de estudar e matar a curiosidade, tá certo? Maiores contatos devem ser evitados. Muita mistura, sabe...
Só para dar uma idéia da infâmia: tem academia de ginástica que coloca cool jazz como fundo musical. Assim a moçada que tem vergonha de marombar e - pasmem - suar fica mais à vontade. É, rapaz, morador de Santa Teresa também transpira - embora exista um lugar específico para esse tipo de coisa. Fazer musculação ouvindo jazz, é mole? Depois esses caras não sabem porque voltam para casa com um peitoral meio Danielle Vinits e o burrão igual ao da Carla Perez.
Os profissionais especializados em cuidar de cabeça de lelé é que amam o funesto bairro. Enchem as burras de dinheiro quando tais moradores constatam a esquisita mudança em sua compleição. Mas o motivo do trauma não é tão raso assim, artista é um ser humano sensível e especial - é tão charmoso ser complexo! O drama mais profundo é não ficar com os balões da Sophia Loren ou com a poupança da Catherine Deneuve. Imagine o sucesso que eles fariam nas acirradas discussões dos cinéfilos babões de Santa Teresa! Seria só ajeitar o sutiã ou abaixar para pegar alguma coisa que a discussão já estaria ganha. Iria ficar somente uma dúvida: qual a melhor escola de cinema, a italiana ou a francesa?
Um bom brasileiro não teria dúvida: ficaria com o atributo da preferência nacional, mesmo que importado. E um carioca melhor ainda trataria de macular essa pretensa aura cultural com que os moradores de Santa Teresa se adornam. É por isso que devemos lançar um movimento vital para a honra do Rio de Janeiro. Todos em torno de um mesmo ideal: a construção de um McDonald's no agourento bairro. Quem acredita no sonho de uma cidade sem babacas deve aderir a essa causa. Conseguiremos realizar o desejo de ver um boneco do Ronald McDonald's, de língua para fora e de braços abertos, pendurado na frente do bonde de Santa Teresa. Todo castigo para Zé Arruela é pouco.
Remo Ciclotron
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