Categoria: Autores Convidados
Estar desempregado é uma merda. Não que eu goste de trabalhar. Não gosto é de ficar sem grana. Por isso enquanto não sou sorteado para participar do Show do Milhão tenho que arrumar outra fonte de renda, no caso um emprego.
Publicado originalmente em novembro de 2001.
Diário de um Jornalista

Estar desempregado é uma merda. Não que eu goste de trabalhar. Não gosto é de ficar sem grana. Por isso enquanto não sou sorteado para participar do Show do Milhão tenho que arrumar outra fonte de renda, no caso um emprego.
Em outubro o Globo abriu prova para seleção de estagiários. Imediatamente fui me inscrever e fiquei frustrado ao ver que não haveria concurso de seleção para garçom. Por falta de opção tive que me contentar com jornalismo mesmo.
No dia da prova tentei ressuscitar o velho espírito do vestibular. Deu certo. Me senti como um guri de 16 anos. Peguei a playboy da Yoná Magalhães e corri pro banheiro. O tempo passou rápido e quando me toquei (sic) notei que estava atrasado e acabaria perdendo a prova. Fechei a braguilha com tanta pressa que me custou uma depilação a seco. "No pain, no gain", dizem os gringos.
Antes de sair, lembrei de uma dica do vestibular e comi uma coisa bem leve. Angu à baiana. Saí, corri até o ponto e embarquei no bonde. A prova aconteceria no próprio prédio do jornal. Confesso que pensei em levar uma bomba, mas desisti da idéia. Tinha duas opções: explodir o prédio e libertar a humanidade ou arrumar um emprego. Minha escolha foi óbvia.
Ao chegar na entrada do prédio me deparei com uma fila repleta de buchas cozendo ao sol. Resolvi dar uma olhada nos meus concorrentes. Logo na minha frente tinha uma guria com uma pasta da Estácio de Sá. Show! Menos uma! Sigo observando. E que surpresa tive ao ver que lá na frente estava um grupinho cheio de comunistas da faculdade. Filhos da puta! Por que eles não vão trabalhar no jornal da CUT e deixam a Globo para os vendidos como eu?
Mas tenho que admitir uma coisa. Eu já fui comunista. Quando tinha 15 anos. Nessa época eu também ouvia heavy metal, jogava RPG, lia Batman e não comia ninguém. Hoje as coisas são completamente diferentes, exceto pelo fato que eu continuo não comendo ninguém. Eu até poderia me satisfazer com prostitutas, mas gasto todo meu dinheiro indo aos jogos do Flamengo, o que não deixa de ser a mesma coisa.
Enfim, o que me deixou tranqüilo nessa história é que estamos falando de Organizações Globo. É óbvio e ululante que o Dr. Roberto tem algum sistema de defesa anticomunista. E de fato pude notar que um sujeito que vestia uma camisa do PT acabou não aparecendo na sala de prova. Aliás, nunca mais o vi.
Abriram-se as porteiras. Entramos.
Já na fila às portas do auditório onde se realizou a prova, notei que havia água e café à vontade para os candidatos. Obviamente eu não perdi uma bocada dessas. Bebi 12 copos de água e 8 copinhos de café antes de entrar fila. Mas não contava com um detalhe. Não pensei nas conseqüências catastróficas da reação química entre o café e o angu.
Corri para o banheiro. Entrei numa casinhola daquelas e descarreguei. Quem já passou por isso sabe que o alívio do pós-obra é uma das melhores sensações existentes. Então me deparei com mais um problema: não tinha papel higiênico. Porra, como poderia imaginar que não haveria papel num banheiro global? É inconcebível, mas é verdade. Acabei improvisando com a cueca. Guardei no bolso para não deixar pistas do crime.
Mas as Leis de Murphy nunca param de agir. A descarga não estava funcionando. E ainda me deu uma vontade incontrolável de mijar, mas não podia sair porque o banheiro estava cheio. Seria humilhante. Tentei mijar no vaso mas fiquei intimidado com o material dentro dele. Mijei no cantinho da parede, torcendo para que não escorresse para fora do reservado. Quando todos saíram do banheiro, eu finalmente fui para o auditório.
Não vou entrar nos detalhes da prova. Posso dizer apenas que não fui bem. Não tinha condições físicas e emocionais para isso. Em 30 minutos entreguei a prova e fui embora, sob o olhar desconfiado dos outros concorrentes. O resultado só sai no dia 7 de dezembro. Eu posso até não passar, mas pelo menos dei prejuízo praqueles manipuladores filhos da puta.
E da próxima vez eu espero abrir vaga pra garçom...
P.S.: A cueca ainda está comigo e não foi lavada. Estou guardando como uma espécie de amuleto da sorte (ou troféu, não sei ao certo).
P.P.S: Eu quero me desculpar com os coleguinhas comunistas por tê-los sutilmente chamado de vendidos. Jornalistas e prostitutas estão no mesmo campo semântico. A diferença é que as prostitutas são sinceras e costumam ter dignidade.
P.P.P.S.: Se você é advogado e riu da observação anterior, reveja seus conceitos. Colega.
http://www.maedafoca.blogspot.com
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