Categoria: Odisseu Kapyn

O Apelo dos Apelidos

O povo e a imprensa adoram um apelido. Uma boa prova disso é o esporte mais popular do Brasil, o futebol. Nenhum outro país usa tanto os apelidos para batizar seus craques. À medida que fomos perdendo os bons apelidos no futebol, também perdemos prestígio. Mas onde estão hoje os apelidos de que o povo tanto gosta? Tão lá no mundo do crime.

Publicado originalmente em outubro de 2002.

O Apelo dos Apelidos

Às vezes um profissional precisa mudar de nome por questões de mercado. Algumas modelos deixam de lado seus nomes verdadeiros para virarem Feiticeiras, Tiazinhas, Ronaldinhas, etc. Vez ou outra tentam voltar ao seu nome original, mas logo desistem ou desaparecem. Sylvinho, do Absintho, viu que era mais fácil ganhar uns trocados se deixasse que lhe chamassem de Sylvinho Bláu-Bláu. Houve casos em que a concorrência no exterior obrigou gente já famosa a mudar de nome, como aconteceu com Jorge Ben, que para deixar de ser confundido com George Benson pelos gringos passou a assinar Jorge Benjor. Acho até que o Ray Charles vai ter que fazer isso para vender discos no Brasil e em Portugal depois que a rainha Elizabeth morrer. Isso porque o povo pode confundir Ray Charles com Rei Charles. Vai ser um problemão na hora de se referir a eles. Essas trocas eu até acho justificáveis. Mas o que não engulo é quando um artista ou celebridade cai no papo de um numerólogo e acrescenta, troca ou corta letras do nome para ver se a carreira engrena. Se o artista ou celebridade não leva fé em si mesmo, não vai adiantar nada trocar "i" por "y" ou "c" por "k". Mesmo que troquem suas cedilhas, vão continuar sendo palhassos.

Se os negócios não estão bem, o jeito é arrumar um apelido. Deixar o nome pra trás e dizer que agora só quer ser tratado do jeito que era chamado na infância ou na adolescência, mesmo que a alcunha seja inventada agora por marqueteiros. Basta dar instruções para os assessores de imprensa, os relações públicas e os empresários passarem a se referir a eles com o tal apelido inventado. Aí fica tudo mais fácil. O povo e a imprensa adoram um apelido. Uma boa prova disso é o esporte mais popular do Brasil, o futebol. Nenhum outro país usa tanto os apelidos para batizar seus craques. Os estrangeiros nem tinham idéia de que Didi, Zito, Garrincha, Tostão, Vavá e Pelé não eram os nomes verdadeiros dos jogadores que se consagraram levantando taças. Lembro-me de que em algumas copas a escalação que aparecia na TV, fornecida pela emissora estrangeira geradora das imagens, contava com um monte de desconhecido na Seleção. O pessoal tinha que pensar duas vezes pra entender que aqueles sobrenomes sem graça eram de craques de apelidos originais. A tradição continuou na geração de Zico e até depois. É muito mais engraçado sacanear um amigo torcedor de outro time quando seu carrasco se chama Piá ou Cocada. À medida que fomos perdendo os bons apelidos no futebol, também perdemos prestígio. Em 94, ainda tínhamos coisas como Dunga, Zinho, Mazinho, Branco, Viola e Bebeto. Tá certo que em 2002 ganhamos a Copa, mas o futebol demonstrado foi tão fraco quanto a quantidade de apelidos na Seleção. Em vez de nomes engraçados ou irreverentes nas camisas, lá estavam inscrições horrendas como Rivaldo, Roque Junior e um monte de palavras terminadas em "son", com Denílson, Kleberson, Edmilson e Edílson.

Mas o­nde estão hoje os apelidos de que o povo tanto gosta? Tão lá no mundo do crime. Imagine se alguém voltasse no tempo e mostrasse a um cidadão uma lista com os nomes de Romário, Ronaldo, Sandro Hiroshi, Liédson, Magno Alves, Valdir, Rodrigo Fabri, Arce e Kleber. E depois mostrasse uma com os nomes de Elias Maluco, Fernandinho Beira-Mar, Marcinho VP, Uê, Ratinho, Gordo, Buda, Lesado e Escadinha. Quando perguntassem que time venceria a partida, o feliz senhor dos anos 70 iria apostar todas as fichas no time de Uê e companhia. Com certeza. Sem zebra. Os apelidos da bandidagem andam tão criativos que nem os jornais estão sabendo escrever direito. É o caso do carioca Mightor. A alcunha surgiu quando o traficante ficou conhecido entre os colegas por usar uma machadinha para punir bandidinhos menores. Como a cabeça dessa galera não é lá muito confiável, a machadinha do rapaz foi aos poucos associada à clava do personagem de Hannah-Barbera. Daí o Mightor, super-herói pré-histórico que nos desenhos voava ao lado de um dragão. Mas como a cabeça dos jornalistas também não é grande coisa, Mightor virou Mytor, Maitór e outras aberrações que figuram nas manchetes dos jornais populares.

Já que os apelidos estão dando fama à classe dos ladrões menos favorecidos, por que seus colegas mais organizados não aderem logo à moda? Sim, estou falando dos políticos. Por que arriscar a sorte nas urnas com sobrenomes pomposos e já manchados por anos e anos de corrupção e alianças espúrias? Chega de Dornelles, Mallufes, Jeffersons, Magalhães, Maias, Rorizes e Sarneys. Os próximos candidatos dessas famílias podem muito bem usar apelidos para evitar problemas de reconhecimento e ganhar o eleitorado de forma camarada e popular. Dá certo até com um apelido bobo como o de Lula. No caso da mediocridade política ser muito grande, o jeito é pegar pesado e usar logo dois apelidos. Taí a Rosinha Garotinho que não me deixa mentir. É disso que o povo gosta.

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

as 13/01/03, 22:38

Envie para um amigo:

Mercado Livre

Categorias: Artigo (3) · Avisos (21) · Calúnia e Difamação (1) · Cocadaboa News (9) · Cotidiano (25) · Crítica (12) · Jabá (9) · O que vi (128) · Respostas (11) · Top 10 (2) ·
Textos antigos: Adaílton Persegonha (34) · Autores Convidados (31) · Blog (1785) · Calúnia e Difamação (43) · Cocada Responde (45) · Cocadaboa News (151) · Eddie Torres (45) · MDF News (12) · MEM (55) · Mensagens do Editor (25) · MrManson (101) · Odisseu Kapyn (57) · Ombudsman Girl (31) · P.I.R.U. (39) · S.A.C.aneie (35) · Sherlock Holmes da Silva (36)

· ·

· · · · eslovenia
BlogBlogs.Com.Br

Atenção: Nosso conteúdo é 100% humorístico e/ou mentiroso. Quer nos processar? Boa sorte, estamos hospedados na Eslovênia.