Categoria: Odisseu Kapyn

RPM - Risadas por Minuto

O Brasil é um país cheio de problemas, mas não podemos nos queixar da quantidade de opções que nos dão para esquecer as agruras. Se já não bastavam as comédias no cinema e no teatro, os programas de humor na TV e apresentações de comediantes, agora temos também como rir em shows de música. O RPM está de volta. Posso dizer, sem vergonha, que ajudei o RPM a exibir esses números grandiosos de que eles estão ostentando para mostrar que sua volta é um sucesso de público.

Publicado originalmente em agosto de 2002.

 

O Brasil é um país cheio de problemas, mas não podemos nos queixar da quantidade de opções que nos dão para esquecer as agruras. Para levar a vida adiante, toda nação precisa de pão e circo. Panis et circensis. E o que não falta por aqui é circo. Se já não bastavam as comédias no cinema e no teatro, os programas de humor na TV e apresentações de comediantes, agora temos também como rir em shows de música. E daí que os Mamomas Assassinas morreram e o Falcão não se apresenta muito por aí? Não é problema, pois o RPM está de volta.

Posso dizer, sem vergonha, que ajudei o RPM a exibir esses números grandiosos de que eles estão ostentando para mostrar que sua volta é um sucesso de público. Estava disposto até a pagar pelo ingresso, mas na última hora arrumei um de graça. Devo confessar que parte de mim queria ouvir de novo aquelas músicas que me embalaram a adolescência, na fase em que eu desconhecia alguns produtos de melhor qualidade. Como eu não tinha liberdade para ir a shows naquela época, agora podia compensar e ver o RPM no palco. Era ao mesmo tempo uma dívida e um modo de expurgar de mim aquelas músicas que ainda habitavam meu subconsciente. Mas o motivo principal era que eu sabia que seria muito engraçado ver hoje, com outra cabeça, o Paulo Ricardo fazendo pose de galã e ranger os dentes enquanto soltava seus versos pretensamente rebeldes e românticos.

A noite começou de forma errada, pois esqueci de levar a cueca velha que pretendia jogar no palco. Há 15 anos, as meninas jogavam calcinhas para o Paulo Ricardo e achei que seria legal ver o sujeito se abaixando para pegar uma peça íntima e dar de cara com uma cueca. Não rolou. Fica para algum show do Wando. Nem por isso as gargalhadas iriam me abandonar no show. As luzes se acendem e os quatro senhores sobem ao palco. Paulo Ricardo é saudado com gritos femininos de moças na faixa dos 30 anos, que riam uma das outras depois que berravam. Parecia que todos estavam vivendo uma mistura de nostalgia e gozação. Não era só eu. O RPM começa com seus maiores sucessos. Já não lembro a ordem das músicas, mas rolaram Revoluções Por Minuto, Alvorada Voraz (com uma letra readaptada para incluir Maluf) e Juvenília (essa eu gostava mesmo). Fiquei um pouco assustado, pois estava gostando do show. Mas Paulo Ricardo não iria me deixar pagar o mico de sair dali dizendo que tinha admirado o repertório. Ele fez um rápido discurso sobre como estava feliz de ter feito uma música para a Globo e mandou o tema do Big Brother Brasil, cuja letra parece ser sobre Pokémon, como alguém já escreveu com muita propriedade.

Depois Paulo Ricardo voltou a se dirigir para a platéia para agradecer à MTV e dizer que era bom tocar velhos sucessos, mas o importante era ouvir as novas músicas do grupo, que apontavam para o­nde o RPM iria. "De volta pra o limbo", pensei depois de ouvir umas três ou quatro canções fraquíssimas, sem o carisma que as velhas tinham. Foi quando me toquei que o RPM só conseguiu fazer um disco bom. O segundo, que também vendeu paca, era ao vivo e tinha praticamente as mesmas músicas acrescidas de uma ou outra composição que nem eram deles. Os álbuns que vieram depois foram retumbantes fracassos comerciais. Ia ser duro levar o show até o fim. Mas Paulo Ricardo é mesmo um comediante de mão cheia. Cantou A Cruz e a Espada acompanhado de Renato Russo. Não, não havia um médium a seu lado. Ele usou um playback com a gravação do ex-líder da Legião Urbana para repetir o dueto da década de 80. Quando se ouvia a voz de Russo, Paulo Ricardo abaixava a cabeça, não sei se como respeito ou para simular um preto velho recebendo santo. Hilário. Já que estava na praia dos grandes poetas gays do rock nacional, rolou logo depois um Exagerado, de Cazuza.

Eu sabia que ele iria ter que continuar apelando para músicas que o RPM nunca tinha gravado, mas achei que ele iria tocar coisas dos Menudos, Polegar, Roupa Nova, Dalton, Fábio Júnior e quem sabe um Sandy & Júnior. Estava enganado. Paulo Ricardo queria dar um tom de credibilidade ao repertório e partiu para os clássicos do rock. Eis que a certa altura dos meus risos, o palco escurece e o rapaz toca Wish You Were Here, do Pink Floyd. Bastardo. Me tirou do clima, pois sempre paro qualquer palhaçada para ouvir músicas de Waters e Gilmour. Se bem que eu podia rir do tom romântico que ele deu a letra, ignorando que ela não fala de amor e sim do ex-líder da banda que ficou pancado depois de muito LSD. Mas deixa para lá. Paulo Ricardo compensaria em Flores Astrais, do Secos & Molhados. Quando cantava "o verme passeia", o pobre diabo se jogava no chão e rastejava como uma lombriga. Mas a intenção era parecer erótico, coisa que as meninas, ou melhor, balzaquianas que estavam mais próximas do palco logo entenderam, esticando o braço para tocar no ídolo. Que cena!

Ainda rolaram coisas legais como Rádio Pirata, London, London e Louras Geladas, que deram uma certa alegria ao moleque de 13 anos que mora na minha cabeça. Também teve Olhar 43, que fazia mais sentido agora que Paulo Ricardo está com cara de quarentão, e a instrumental Naja. Esta última merece um comentário. Não por ser engraçado ver o tecladista Luis Schiavon tocando de cabeça baixa como se fosse um bancário gordo contando notas no caixa. Mas porque distribuíram óculos para visualização em 3D, que deveriam ser usados para se assistir ao clipe exibido durante a música. A cobra do telão, supostamente, seria realçada com os óculos. Sinceramente, não vi nada demais. Via mais efeito quando usava os óculos para analisar a capa do Psicoacústica, do grupo Ira!. Os minutos avançavam e já chegava a hora de o show terminar. Acabaram as músicas do RPM! O que fazer? Mandar mais clássicos do rock. Os mais óbvios de preferência. E tome de Help, dos Beatles, Hound Dog, de Elvis Presley (imaginem Paulo Ricardo rebolando como Elvis!), Break o­n Through (to the Other Side), do The Doors, e (I can get no) Satisfaction, dos Rolling Stones. Para mostrar que está antenado com o que rola por aí, Paulo Ricardo também tocou Last Nite, do Strokes, que praticamente ninguém na platéia reconheceu. Para fechar, eles repetiram outra composição própria qualquer, uma daquelas que deram outra oportunidade para a mulherada que resolveu ser mais ridícula do que o próprio RPM e invadir o palco. Nunca tinha visto mulheres de 40 e 50 anos se matando para escalar o palco e agarrar um cantor. Valeu não só para rir, mas como experiência de vida. Também teve um gaiato que subiu lá e ficou dançando de sacanagem ao lado do Paulo Ricardo, mas os seguranças acabaram logo com a graça do rapaz. Devemos admitir que o nível desses brutamontes melhorou muito, pois foi preciso muita destreza do segurança para saber identificar na hora quem era o palhaço a ser removido. Cabe agora ao público dar o toque ao RPM sobre quando sair dos palcos. A mesma piada contada muitas vezes perde a graça. Mesmo com todo o talento de Paulo Ricardo para o humor.

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

as 13/01/03, 22:33

Envie para um amigo:

Mercado Livre

Categorias: Artigo (3) · Avisos (23) · Calúnia e Difamação (1) · Cocadaboa News (9) · Cotidiano (27) · Crítica (12) · Jabá (9) · O que vi (128) · resenhas (3) · Respostas (11) · Top 10 (3) ·
Textos antigos: Adaílton Persegonha (34) · Autores Convidados (31) · Blog (1785) · Calúnia e Difamação (43) · Cocada Responde (45) · Cocadaboa News (151) · Eddie Torres (45) · MDF News (12) · MEM (55) · Mensagens do Editor (25) · MrManson (101) · Odisseu Kapyn (57) · Ombudsman Girl (31) · P.I.R.U. (39) · S.A.C.aneie (35) · Sherlock Holmes da Silva (36)

· ·

· · · · eslovenia
BlogBlogs.Com.Br

Atenção: Nosso conteúdo é 100% humorístico e/ou mentiroso. Quer nos processar? Boa sorte, estamos hospedados na Eslovênia.