Categoria: Odisseu Kapyn
Não sei exatamente se o pessoal que faz rap no Brasil é vingativo. Nem sei se eles acessam a internet para ler textos muito longos. Por isso, não vou falar aqui que os rappers brasileiros me parecem ridículos usando aquelas roupas americanas. Também não vou falar que as letras dos rappers brasileiros, exceto por raras exceções, não diz coisa com coisa. O melhor é falar de um novo fenômeno envolvendo o rap: sua penetração entre os filhinhos de papai e a playboyzada.
Publicado originalmente em agosto de 2002.
Diz aí, RAP

Não sei exatamente se o pessoal que faz rap no Brasil é vingativo. Nem sei se eles acessam a internet para ler textos muito longos. Mas por via das dúvidas, vou evitar maiores críticas ao movimento. Não estou a fim de perder a vida ou levar um "teco nas idéias" só por ter exposto minhas idéias num site humorístico. "Ih, o cara é o maior covarde!". Sou mesmo. Tenho medo de enfrentar gente que anda armado e se vangloria de andar às margens da lei. Só me garanto com gente que briga com argumentos verbais. Por isso, não vou falar aqui que os rappers brasileiros me parecem ridículos usando aquelas roupas americanas. Os caras viram nos clipes importados que é aconselhável usar casaco ao se cantar este tipo de música. Não importa se estamos num país tropical. Como é que os caras querem falar sobre a verdadeira realidade social se nem sabem sua verdadeira localização geográfica? Mas não sou bobo de falar sobre isso. Também não vou falar que as letras dos rappers brasileiros, exceto por raras exceções, não diz coisa com coisa. Eles geralmente começam uma letra dizendo que vão mandar um "recado". Mas depois ficam três ou mais minutos dizendo que viram muita morte, que são da periferia, que lá as coisas são diferentes, que já foram presos, que a polícia é malvada, etc. Isso todo mundo sabe. É esse o recado que os rappers querem me passar? Essa é a denúncia? Qualquer reportagem do Fantástico fala isso. E não precisa nem meter um boné na cabeça da Glória Maria (mas se mandarem, ela coloca e ainda faz cara de mau).
Pois é. Não vou dizer aqui que o rap brasileiro não vai mudar a situação social de ninguém. Que as denúncias sem rimas não têm nem metade de força que o pessoal da periferia e os miseráveis acham que têm. Seria bem mais eficaz se eles fizessem protesto nas ruas ou uma excursão pacífica a um shopping, obrigando os lojistas a fecharem as portas simplesmente por medo de ver muita gente pobre reunida. Isso seria uma atitude mais ouvida ou respeitada do que os versinhos mal juntados. O rap pressupõe ritmo e poesia (Rythm And Poetry, que compõem a sigla). Mas é difícil encontrar poesia ou talento com as palavras na maior parte dos raps. Quando encontrei alguma inteligência nas letras, o autor era Gabriel, O Pensador, um cara da classe média (talvez alta), bem educado e nutrido. Às vezes leio textos bem redigidos e bem pensados de gente como MV Bill ou Thaíde, divulgados por assessorias de imprensa. Mas são de uma razoabilidade que passa longe dos raps que ouço por aí, feitos por aqueles que estão com um pé no crime e que já não acham que assassinar alguém pra pegar R$ 50 seja injusto. Mas, como já disse, me falta coragem de falar isso. E também não tenho que me meter no jeito como uma classe social que não é a minha se expressa culturalmente. Eles têm mais é que fazer suas músicas e curtir o resultado. Os prejudicados pela má-distribuição de renda que ainda não se tocaram da própria situação talvez sejam despertados quando ouvirem aquelas letras. Então deixa eu ficar quieto. O melhor é falar de um novo fenômeno envolvendo o rap: sua penetração entre os filhinhos de papai e a playboyzada.
As boates e danceterias do Rio estão sendo invadidas pelo rap. Nada contra ter que ouvir esse estilo musical perto de mim. Em comparação ao pagode romântico de saxofone, ao sertanejo, a Axé Music, ao psedo-funk e ao techno, o rap é um alívio para meus ouvidos. Mas não consigo deixar de achar graça quando vejo aquele pessoal queimadinho de praia ou marombado decorando as letras da revolta social. Eles não percebem que estão cantando versinhos que contam como é que um dia vão dançar bonito na mão de um miserável faminto? Que estão se divertindo com o trabalho de uma galera que quer mais que eles sejam mortos dentro de seus carrinhos novos? De gente que passa dificuldades quando os pais do pessoal na pista de dança os despedem? Não é estranho? Eu acho. É normal ver hoje em dia uma menina rica cantando algo do tipo:
Vou mandar o meu recado, da minha classe social
Vou te fechar com meu carro, bem ali no sinal
Vou te botar a arma na cabeça e te apagar mesmo se não reagir
Vou levar seu celular e seu relógio e depois eu vou fugir
Às vezes os versos vem mesmo sem as rimas que improvisei agora. E ainda assim a molecada canta feliz. Não sei se é algo consciente, como "vou cantar isso porque tenho dinheiro para me apropriar de qualquer manifestação que vem de baixo. Eu me divirto com o rap, porque os rappers não vão conseguir me pegar". Será que é isso? Será que nessas horas é o subconsciente, supernutrido pelas horas de sessões pagas ao analista, que se manifesta? Sei lá. Mas um dia ainda quero ver um rapper fazer uma música dizendo que não quer que sua música seja cantada pelos riquinhos. Ou será que o dinheiro fala mais alto que a ideologia?
Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com
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